Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Na alvura da tua pele me perco IV

por golimix, em 16.04.15

tronco escravos.jpg

 Continuação daqui

 

Após a partida de Marco, e do seu pai Justino, para parte incerta tornou-se mais difícil a vida para as mulheres que habitavam a Fazenda. Dodô envelheceu pelo menos uns dez anos, e apesar de continuar a cumprir zelosamente as suas tarefas, já que não podia ser de outra forma, a sua antiga, e tão habitual, alegria desvaneceu-se por completo. Mantinha sempre um semblante carregado, como se estivesse de luto por um filho e marido vivos, mas mortos para ela. Alice vivia numa tristeza inconsolável, não só pela partida do seu grande amigo de infância, mas também porque tomara conhecimento de como era o seu pai na realidade.

 

Ouvia muitas vezes o pai praguejando e gritando com a sua mãe, e desconfiava que as agressões não seriam só verbais, já que volta e meia ela aparecia com uma nódoa negra no braço, e passara recentemente a cobrir os seus braços com vestidos de manga comprida, mesmo no calor! Viver naquele lugar tornara-se impossível! Mas ela continuava uma moça pertinaz, com vontade de mudar o mundo e o próprio destino, que mãe Jurandi tanto falava. Discutia inúmeras vezes com o seu pai não lhe demonstrando medo, apesar de saber tudo o que aquele homem era capaz. Mas com ela a mão pesada tornava-se mais leve e ele lá ia aceitando, calado, as suas altercações, até ao momento em que lhe levantava a mão e um “Basta Alice!” terminava com o diálogo unilateral.

 

E dois anos se passaram nesta angústia. Felizmente, que ultimamente o Patrão se deslocava com mais frequência em negócios, e quando estava em casa ia muitas vezes aos cafezais. Quem sofria mais eram os pobres escravos, que cada vez com mais frequência, faziam uma visita forçada ao tronco, erguido no terreiro junto à senzala. Desgraçados que nem sabiam o que que os levava ali! Muitas vezes era porque andavam mais devagar, já que o calor apertava, e enchendo-os de preguiçosos mandava-os açoitar. Outras vezes porque os apanhava a cantar as suas músicas e ele não queria ali daquilo. E não eram raras as alturas, em que alguns escravos mais fracos, caíam de exaustam e eram espancados ali mesmo, onde se deixavam ir.

A Sinhazinha Alice, como todos lhe chamavam, quando era informada, escondia-se para ir à senzala tratar dos feridos. Tudo até ao danado do novo capataz, um homem da pior espécie, ter feito queixa destas suas atitudes e ela ter sido terminantemente proibida de chegar, sequer, perto do terreiro sob pena de ele mandar açoitar todos os escravos, incluindo crianças!

"Não te quero com aqueles animais, Alice!"  dizia-lhe o pai. Apesar dela saber que os animais estavam do outro lado da trincheira.

E Alice não teve outro remédio senão chorar cada grito ouvido ao longe. Aquilo tinha que mudar! Mas como? Que poderia ela fazer?

 

Certa tarde foram visitadas por um irmão de sua mãe. O tio Alberto era casado com uma bela jovem, de cerca de 20 anos. O seu próprio tio só teria uns 30 anos. Rapaz inteligente, e bom coração, fora estudar para a cidade e tinha-se formado em medicina.  Casara-se à cerca de meio ano com uma jovem de boas famílias. Estava, pois, bem na vida.

Alice mal conhecia o tio, exceptuando umas cartas e fotografias trocadas. Mas assim que sentiu a carruagem desceu a correr as escadas. Uma distração no meio do sufoco em que viviam era sempre bem vinda.

- Olá tio Alberto! Até que enfim vem ver-nos! E apresentar-nos a sua mulher! - Disse Alice mal os viajantes tinham pousado o pé no chão!

O tio sorriu-lhe - Está é Beatriz - disse, já com a sobrinha abraçando a esposa. E, seguidamente, beijando a sobrinha na testa, continuou -  Alice estás maior do que eu pensava! E as fotografias não te fazem justiça minha querida sobrinha! Mas onde está a tua mãe minha cara?!

- Venham para dentro! - Alice subia as as escadas enquanto lhes falava. - Minha mãe deve estar arrumando qualquer coisa na casa. Ela arranja sempre o que fazer - Precisam que vos ajude com algo?

- Não minha querida - Falou a esposa do tio acompanhando a sobrinha - deixamos todos os nossos pertences na casa do teu avô. Ficaremos por cá esta semana.

- Que bom! Ficam uma semana! Assim podemos conhecer-nos melhor! Embora um semana seja pouco para quem quase nunca cá vem! - Alice virou-se propositadamente para o tio.

- Minha menina sabes bem que a minha profissão não me permite grandes ausências! Além disso, estava a estabelecer-me na carreira. Agora tinha mesmo que vir. - tossicou, gesto que Alice veio a identificar mais tarde como um tique que o tio tinha sempre que se encontrava agitado com algo.

Mal tinham transposto a soleira da porta surgiu Amália.

- Meu irmão! Tanto tempo... Ainda bem que viestes- ambos se abraçaram. De seguida virou-se para a esposa do irmão.

- Claro minha irmã! Tinha que vir - Respondeu-lhe

- Minha querida irmã. Beatriz! Bem vinda a esta casa! - Disse Amália abraçando-a também.

- Por favor venham para a sala de estar que está mais fresca, vou pedir para a Dodô nos servir. Querem um suco ou um café? Sim. Café temos de sobra! - Sorriu

- Por mim, e com este calor, agradecia qualquer coisa refrescante! E penso que por Beatriz também, não minha cara? - Disse virando-se para a esposa e obtendo um consentimento desta.

- Pois então, suco para todos! E provarão o maravilhoso bolo de fubá que Dodô fez de manhã! - Amália virou-se para a filha. - Alice por favor acompanha-os até à sala das traseiras, a mais fresca, que eu já vou.

 

A conversa foi animada durante toda a tarde, a empatia entre Beatriz e Alice  parecia instantânea! Falaram sobre diversos assuntos, mas escusaram-se a temas relacionados com política e escravatura. Amália sabia qual a opinião do irmão, e sabia também que uma das suas recusas em vir a casa era porque o pai tinha escravos. Mesmo que o pai nunca os tratasse mal, tal como o seu marido fazia! Ela lembrava-se das discussões acaloradas entre os dois, pai e filho! O irmão achava que todos deveriam ser pagos pelo seu trabalho e que isso também faria circular o dinheiro, o pai nem sequer imaginava como seria a vida dos donos de fazendas sem a mão de obra escrava!

Amália temia o encontro entre Paes de Andrade e o irmão, apesar de saber que por ela o seu irmão iria se conter. Ainda bem que naquela noite seu marido não jantaria ali. Mais um jantar de "negócios" o afastara.

Os tios ficram para jantar na fazenda.

Na despedida, Alice, ouviu o tio comentar com a sua irmã, Amália.

- Espero que conversem minha irmã. Sabes que só estarei uma semana, talvez seja melhor avançares com o assunto.

- Claro! Só esperava a tua vinda. - Votaram a abraçar-se e a carruagem partiu até à fazenda dos pais de ambos.

 

Curiosa como era, Alice, não resistiu em questionar a mãe.

- Mãezinha, de que falavam, tu e o tio Alberto? - Disse

- Minha querida filha, falávamos de ti! - Amália virou-se para a filha

Esta arregalou os olhos e respondeu prontamente apontando para o próprio peito - De mim? Não percebo!

- Sim. Querida, combinei com o teu tio que irás com ele para São Paulo - disse a mãe sem qualquer rodeio.

- Mãezinha! Nem penses! Nunca te deixaria aqui sozinha com... aqui na fazenda! - Disse Alice pensando no que seria a vida da mãe com o pai sozinhos por ali.

- Minha querida eu e o teu pai lá nos entenderemos. Já que sei que é isso que te apoquenta. E temo que tu vás acabar por odiá-lo e eu não quero isso. Além disso, eu tenho a Dodô, a Miká e a mãe Jurandi. Isto na fazenda não é vida para ti e quero que vás aprender algo na cidade. E o teu tio necessita da tua companhia para a esposa, e vi que se deram muito bem! - Amália era persuasora

- Já disse que não sou capaz! - Alice tinha os olhos rasos de lágrimas, pois se por um lado o que mais queria era ver-se longe dali, por outro, deixar a mãe parecia-lhe impossível!

A mãe colocou-lhe as mãos nas faces - Meu amor, não percebes? A decisão está tomada. Não. Nisto não posso pedir a tua opinião! Agora, por favor, nada de chorar e vamos aproveitar o tempo que nos resta.

 

E assim mais uma pessoa querida aquele lugar, àquelas pessoas, partia dali...

 

Continua...

Na doçura de um Inverno - parte IV

por golimix, em 31.03.15

 

Postal-Antigo-de-Vila-Real.png

 

Para a pobre florista saber que a sua filha, ainda há pouco uma criança, estava grávida fora como levar um tiro bem no meio do coração ficando este a esvair-se em sangue durante uma eternidade! Um valente murro no estômago! Como não percebera que algo se passava?

Ela andava cabisbaixa, triste e queixava-se com frequência de cansaço. Já se andava a questionar se seria melhor levar a catraia ao médico. Se assim fosse, a vergonha que teria passado! Antes assim. Saber pela boca da própria filha. Aquando a visita da Sr.ª D.ª Antonieta, mais a sua prosápia, a discussão em casa tinha sido feia e culminou com a revelação da sua menina.

- Chega! Por favor não me batas com o cinto pai ou ainda matas o teu neto! – Gritou em lágrimas a pobre rapariguita, de joelhos, e levando as mãos ao alto em súplica.

O marido deixou cair o cinto e ela perdeu os sentidos. Lembra-se de acordar na cama com a filha ao lado lavada em lágrimas.

- Ó minha filha que desgraça! O que foste tu fazer? – Gemeu a Sr.ª Gina

- Perdoa-me mãe. Mas ele ama-me e certamente casará comigo. E eu? Eu também o amo. Deixei cegar-me pelo sentimento que me dominou.

- Casar contigo? Minha querida menina, tenho pena de ti! Se ele o fizer, o que não acredito, do que irás enfrentar com “aquela” mulher e se ele não o fizer, com o que irás sofrer! Deus te proteja! – Disse a Sr.ª Gina deixando escorrer as lágrimas que pareciam vir de fonte inesgotável.

De comum acordo, a Sr.ª Gina e o marido deliberaram que a filha não sairia de casa sem ser na companhia, ora de um, ora de outro. Mesmo para ir à escola! Não que o mal já não estivesse feito. Mas a Sr.ª Gina tinha um mau presságio desde que falara com a mãe do rapaz. E pelo menos dela poderia protegê-la, já que não foi a tempo de a proteger do filho.

E apesar do sacrifício que essa decisão acarretava nas suas tarefas, pois tinham que levantar-se muito mais cedo para adiantar as suas vidas, achavam ter sido a melhor decisão. E o tempo veio a dar-lhes razão.

 

Miguel tentou por diversas vezes falar com a amada mas sem conseguir, pelo menos para ter a conversa que precisavam, e percebeu, pela escolta a que ela estava sujeita, que os pais já sabiam! Como tal, e covarde como era, decidiu manter a distância. Isso angustiava ainda mais a jovem apaixonada que esperava outra atitude do namorado. Mas, tinha a certeza, que ele iria, certamente na companhia dos pais dele, falar com os seus pais. Afinal de contas não devia ser fácil enfrentar os pais de uma menina que se sentiam ultrajados sozinho!?


Passaram-se duas, no máximo três, semanas nisto. Com um dos progenitores a acompanhar, e a buscar, a filha ao Liceu, o que também já deixava os seus colegas a questionar esta atitude. No início de mais um dia de labuta, a Sr.ª Gina percebeu que teria que tomar uma atitude quanto ao futuro da filha. Não tardaria que a barriga se notasse! Teria de ir à casa daquela gente! E era melhor que fosse só. O seu marido perderia de certeza as estribeiras, e não era ocasião para isso. A ocasião era para cautela. Aquela gente não era de fiar! E se bem o pensou, melhor o fez. Conseguiu, através de Amélia, a amiga da filha, que tanto a ajudou a enganar os pais, o endereço da família de Miguel. Como ela o obteve não lhe interessava, já o tinha nas mãos! E certa manhã, simulou que ia para a loja, mas fechou portas pouco depois. E a pé, demorou pelos menos 2 horas, e a bom andar, a chegar lá. Estava à frente dos enormes portões da casa dos fulaninhos cheios de apelidos e linhagens. Ao fundo via-se o grande casarão pintado de amarelo claro, com os seus telhados bem trabalhados. Um brasão em pedra por cima da enorme porta de entrada, onde se chegava através de escadas em pedra. Muitas janelas a iluminariam! E varandas também não faltavam! Sim senhor. Um casarão! Mas sem se deixar deslumbrar, pensou - Também não é nenhum Solar de Mateus! - E encostada ao muro em pedra, que circundava a casa, limpava o suor do rosto e pescoço o melhor que podia. Nesta lide foi vista por Joaquim que podava uns ramos de uma árvore que pendia para fora dos muros.

-Gina!? Mulher! Que fazer aqui?! – Joaquim era o jardineiro, e às vezes motorista, da Sr.ª D.ª Antonieta. E que sabendo da qualidade das flores da Sr.ª Gina ia muitas vezes à sua loja adquiri-las, bem como plantas para o jardim! Mal a Senhora da casa sabia de onde vinha tanta beleza! – Além disso, conhecia muito bem o seu marido. Viveram juntos no Bairro dos Ferreiros quando pequenos.

Ao ver pelo menos um sorriso, apesar de espantado, de uma cara amiga a Sr.ª Gina descontraiu-se um pouco. Estava deveras enervada!

- Ó Joaquim. Nem digas nada! Mais tarde saberás. Por agora, só necessito que me leves à tua patroa. – Disse a Sr.ª Gina com o semblante de angústia.

- Chiii! Não sei se vais ter sorte. A Senhora anda de maus humores e tenho que anunciar-te. Duvido que te receba! – Coçava a cabeça Joaquim prevendo sarilhos pois conhecia o feitio, e o orgulho, da sua amiga.

- Ai recebe, Joaquim! Se não for a bem é a mal, mas hoje não saio daqui sem falar com a tua patroa, ou o teu patrão! E digam-lhe que se eles não me receberem eu virei para a próxima acompanhada da polícia!

- Polícia?! Cruzes! – Cada vez estava a perceber menos do caso. Apressadamente, Joaquim largou a tesoura da poda, e conduziu a sua companhia pelos jardim até a uma entrada lateral, bem discreta. Era a cozinha. Lá mandou chamar a criada que trabalhava dentro de casa, explicou-lhe o que se sucedia, e qual o recado que esta devia transmitir à Senhora, e despediu-se da Sr.ª Gina, pois sabia que a patroa não iria gostar de o ver ali, de conversas com alguém que chamaria a polícia se não falasse com ela!

A atitude de Joaquim, que transpirava medo à patroa, só veio dar mais certezas sobre a luta que estava prestes a travar! E que necessitaria de toda a sua coragem e argúcia. Mas estava bem preparada! Tinha tido umas conversas bem elucidativas com uma cliente, que era esposa de um Juiz.

 

A criada chegou, passados uns longos minutos, com ares superiores, para a encaminhar para um escritório. Abriu-lhe a porta e disse-lhe que esperasse pois a Sr.ª D.ª Antonieta blá… blá… blá, dissera-lhe para esperar ali.

- Arre para a mulher! Devia ter instruído a criadagem com aquela lengalenga dos Diabos! Raios para os apelidos! – Pensava Sr.ª Gina, ficando em pé, no meio do escritório.

A divisão era espaçosa e iluminava-a um enorme janelão com cortinas de veludo púrpura afastadas para o lado. Tinha alguns cadeirões com arrebiques no final do encosto, que estavam dispostos estrategicamente, cujos estofos eram da mesma cor da cortina de veludo. Cheia de livros, do chão ao teto, dispostos numa estante de cor escura e bem trabalhada. Uma carpete, em tons púrpura e azul, cobria o chão desde a secretária até quase à entrada da porta! Ah! A secretária era uma bela peça! Os pés virados para fora terminavam delicadamente. E a cadeira atrás desta era muito parecida aos cadeirões.

- Esta gente tem dinheiro e gosta de ostentação! Ó minha filha com quem te foste meter!?- Sr.ª Gina sentia a boca seca. E até a saliva lhe custava a engolir. O que não daria por um copo de água…

- O que faz em minha casa?!? Aqui só costuma vir quem é convidado! E isso é algo que nunca lhe vai acontecer! – A senhora da casa entrou com pompa e circunstância, deixando-se ficar à estrada da porta, pronta, ou para expulsar a visita inesperada, ou para fugir, caso fosse isso necessário!

- Creio, minha senhora, que temos de ter uma conversa – Disse calmamente a Sr.ª Gina. Hoje não podia deixar-se levar pelas emoções. O futuro da sua filha estava em jogo.

- Só a senhora para pensar que tem algo a conversar com a minha pessoa!? É preciso ser-se muito insolente para vir aqui desafiar-me! Desafiar-me? A mim? - Sr.ª D.ª Antonieta enchia o peito enquanto falava.

- Eu não a estou a desafiar minha senhora. Simplesmente quero uma reparação, uma solução, para tudo o que aconteceu com o seu filho e a minha filha! Não sei se sabe mas ela está grávida do seu filho e isto não pode, como calcula, ficar assim! - Suspirou ao sair o que estava preso desde que entrou na casa.

- Grávida do meu filho?! Ham! certamente ela deita-se com qualquer um! Uma rapariguinha que espera conseguir algo com o golpe da barriga! Pois veio ter à porta errada! - A dama sabia ser odiosa e fria nas palavras.

Foi necessário muita força de vontade para que a Sr.ª Gina não partisse a fronha de soberba da sua interlocutora! Mas precisava de agir com calma ou o feitiço virar-se-ia contra si. Ela sabia bem.

- Por favor - disse na voz mais calma que conseguia, embora lhe saísse trémula - não onfenda a minha filha que apenas tem 15 anos, acabados de fazer. Uma menor, portanto! E o seu filho, ao que sei, tem a maioridade. Resumindo um sedutor de meninas menores!

- Um sedutor!? Ela proporcionou-lhe divertimento, e talvez não seja a primeira vez, e ele simplesmente se divertiu! - Disse, soltando um sorriso falso e amargo.

- Eu sei que me quer fazer perder a paciência - a florista apertava as mãos com tanta força que lhe sangrariam se algo estivesse a ser apertado além de carne contra carne - mas isso não vai acontecer! Não sei se sabe sou a melhor florista da cidade, e a Senhora não é a única pessoa com posses e posição na sociedade por aqui. Conheço muita gente e sei como me valer dela! Já que, e ao contrário do que devem sentir pela sua pessoa, a simpatia que nutrem por mim sei-a verdadeira. Portanto lhe digo. Lhe rogo. A sua última palavra é a de que não vai reconhecer o seu neto? O filho do seu filho, que se abriga no ventre da minha menina? Não faça isso!

- A minha última palavra!? Nunca existiu outra palavra que não fosse a de não querer nada, nem consigo, e muito menos com a sua filha! O meu filho não reconhecerá criança nenhuma! Não será pai de nada que saia de dentro da sua filha! E agora rua! - Virou-se sem sequer olhar para trás! Deixando a mulher que falara com ela praticamente a desfalecer. Mas isso não aconteceu! Ela tinha declarado a guerra, ia, pois, tê-la! Nunca tivera medo da luta! Endireitou a saia, num movimento automático e saiu dali o mais depressa que pôde.

 

Não tardou, passados alguns dias, que o Sr. Dr. Diniz Belmonte e Castro entrasse em casa de semblante carregado. Procurou pela esposa e foi encontra-la numa das salas com um livro no colo e a fornecer as últimas instruções para o jantar.

Estendeu uma carta à esposa.

- Diz-me o que sabe disto Maria Antonieta? - era assim que a chamava quando algo o chateava.

Retirou do envelope, já aberto, uma carta. E entreabriu os lábios. Atirou o livro para o lado e ruborizada vociferou.

- A petulância daquela mulher de baixa estirpe! Daquela gente desclassificada! Quem é que ela pensa que é para difamar o meu filho?! - Sr.ª D.ª Antónia estava à beira de perder o controle.

- Difamar o teu filho? Ao que parece, minha cara, foi ele quem desonrou uma menina de, agora, 15 anos. Mas quando tudo começou teria 14. Ela está grávida. Grávida! O que sabes disto? E ao que parece sabes alguma coisa - Dr. Diniz, habituado à tensão, aparentava um certo controle, mas todo o seu corpo estava contraído.

- O que sei? Sei que essa miúda e a família são uns oportunistas! Querem obter dinheiro, é o que é! Mas não de mim! Está grávida? Certamente que se deita com todos! - andava de um lado para o outro agitando os braços.

- Minha cara. Vê-se que não entendes como são estas coisas. A menina tem imensas testemunhas abonatórias sobre o seu carácter. E mais! Há mais testemunhas ainda sobre os encontros que mantinha com o nosso filho! Por isso, te peço que penses com clareza. E não insultes uma jovem injustamente - Dr. Diniz era sensato e pensava com lógica.

- Certamente que tu, como advogado, hás-de saber desenvencilhar-te disto - Disse abanando a carta - E te garanto que nada vai acontecer. Afinal deves saber muito bem como se pode fazer por trás do pano.

Isto deixou Dr. Diniz furioso, que nunca tinha levantado a voz, até então, para a esposa.

- Nunca! Minha cara. Nunca me movi da maneira que sugeres, atrás do pano! Não foi assim que aprendi nem com meu pai, nem com meu avô. E pelo que vi, os teus caprichos, serão a tua perdição. Mas lembra-te, não te perdes só a ti. Está o futuro do teu, do nosso, filho em jogo! - falou determinado.

- O futuro do nosso filho? Não vais certamente deixar que algo daqui vá avante? - Voltou a Sr.ª D.ª Antonieta a acenar-lhe com a carta.

- Sim minha cara. Não farei nada. Ou melhor, farei. Deixarei que a justiça siga o seu curso. Tal como deve ser. E sabe que por detrás disto está o Sr. Dr. Juíz da Comarca! A esposa dele, ao que parece, é conhecida da mãe da menina. Como vês, o caso está feio. Por isso, tens duas hipóteses. Ou o nosso filho vai preso por sedução e conjugação carnal de, e com, menor. E a pena poderá ir até 5 anos! Ou aceitas essa criança e deixas que ele a reconheça! Sim. Porque sei que és tu que dominas todos os actos do nosso filho que parece não ter palavra! Portanto, decide-te bem e com calma - Dr. Diniz parecia fornecer as alegações finais de um caso.

- Eu decido? Pois bem. Irá preso! Mas nunca reconhecerá qualquer criança que venha dali como sua! NUNCA! Ouviste? - Sentenciou a Sr.ª D.ª Antónia atirando com a carta para cima de um sofá.

- Então, pede para chamarem o nosso filho e comunicar-lhe a "tua" decisão. - Dr. Diniz frisou bem esta última palavra. Achava sinceramente que o filho tinha que aprender a soltar-se das saias da mãe e crescer. E se tivesse que ser assim? Tanto pior. Assim seria!

 

Continua....

 

 

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D