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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na alvura da tua pele me perco VII

por golimix, em 04.06.15

abolição.jpg

Continuação daqui

 

Alice tentava assimilar o facto de Marco ser o namorado que Flor tanto falara. Durante o jantar que fora oferecido aos dois esteve sempre calada. Queria ter uma oportunidade de falar com Marco a sós para averiguar o que é que Flor sabia sobre ele e o seu passado. Mas a oportunidade não surgiu, teria que esperar para depois.

 

Os dias foram passando até que surgiu, sem ser procurada, a hipótese de falar com o seu amigo. Estavam os dois sozinhos na cozinha enquanto Flor fora buscar um xaile para saírem.

- Marco, diz-me, o que sabe Flor sobre ti? - Indagou em surdina mas mesmo assim fez estremecer o seu interlocutor ao ouvir aquele nome.

- Por favor, já te disse que sou Maurício! Nunca mais me chames esse nome! Não aqui! - Marco deixava transparecer as lembranças que o seu nome lhe traziam.

- Já percebi... ela não sabe nada. Tens que lhe contar se o que sentes por ela é sério!

- Eu sei. Mas não tenho coragem e quero esquecer... esquecer o que que me atormenta. Se eu pudesse.... - Marco tinha o olhar distante

- Se tu pudesses o quê? - Alice adivinhava-lhe os pensamentos

- Se eu pudesse libertaria todos os meus irmãos das mãos do teu pai!- Olhou-a, parecendo que desse olhar saíam punhais! - Desculpa Alice....

- Não. Não peças desculpa... eu também penso nisso... - Disse Alice baixando o olhar - Vamos a tantas reuniões que falam sobre abolição e nada fazemos!!!

Marco ia continuar mas teve de calar-se pois Flor entrava radiosa e sorridente na cozinha.

 

Aquela pequena conversa plantou uma semente nos pensamentos dos dois. Alice e Marco combinaram um encontro dias depois num dos muitos jardins da cidade. Escolheram para o efeito um mais recolhido. Marco tomou a palavra sem grandes demoras

- Alice tenho que voltar. Tenho que tirar a minha mãe dali e os meus irmãos daquele sofrimento. Eles merecem ser livres! Eu sinto cada chicotada que sei que eles estão a sofrer. - Marco cerrava os dentes após ter terminado a frase

Alice, com o olhar turvo pelas lágrimas que teimavam em existir, assentiu - Também penso neles e na minha culpa por os ter abandonado. A minha presença talvez travasse um pouco a ira do meu pai. Se bem que ultimamente....

- Desculpa Alice, eu sei que aquele homem é teu pai, e só por isso prometo-te que não lhe tocarei. Mas farei o que for necessário para abrir as portas daquela senzala. E já tenho duas pessoas interessadas em ajudar.

Alice arregalou os olhos. Percebeu que Marco havia transformado os pensamentos em ações e um plano começava a surgir. Ela também iria. Conseguiu convencer Marco, após muita discussão, que iria expurgar a sua culpa dessa forma. Teriam, antes de agir, de vigiar atentamente os hábitos dos guardas da senzala. Alice sabia que o pai costumava manter duas pessoas de guarda à noite. Embora um deles deixasse levar-se pelo sono para depois deixar que o companheiro de vigia descansasse por sua vez. Mas estavam os dois juntos, caso fosse necessário algo. A casa dos guardas ficava algo afastada da senzala mas mesmo assim não longe o suficiente para não ouvirem caso fosse dado o alarme. Teriam, pois, que eliminar aqueles guardas. Um dos amigos de Marco iria na frente para se inteirar de tudo e estudar a melhor forma de agir, mais tarde encontrar-se-iam todos para estabelecer a função que cada um teria.

 

O tempo foi passando e aproximou-se com passo de lebre o dia combinado para a partida de Alice, Marco e o outro amigo deste. Alice estava tão agitada e distante, à mesa de refeição ao jantar, que o seu tio acabou por sobressalta-la com uma questão.

- Recebeste alguma carta da tua mãe? - Alberto olhava-a atento e Beatriz, que notava algo diferente na sobrinha, também a olhou.

Alice estremeceu - Não... não, mas porquê?

- Porque te vejo nervosa e achava que a minha irmã te tinha escrito a contar algo sobre a fazenda que te apoquentasse. - Alberto introduzia um pedaço de feijão à boca, desviando momentaneamente o olhar da sobrinha.

Isso deu a Alice uns pequenos segundos para se recompor. Tinha de forçar-se a acalmar - Ó tio.. sabeis que a minha mãe me preocupa e por vezes penso nela e em como estará.

Alberto pousou os talheres e limpou cuidadosamente os lábios antes de continuar - Minha querida penso que será altura de lhe fazermos uma vista. Há muito tempo que não vamos à fazenda. Tens razão. É injusto para contigo e a tua mãe. Mas infelizmente a enorme distância que nos separa e o meu trabalho não têm deixado que tal visita se proporcione. Mas irei tratar de tudo para que brevemente possamos ir à fazenda. Agora, por favor come este quindim que Anastácia fez que deve estar uma delícia e dá um sorriso - Alberto olhava-a sorridente.

Alice correspondeu ao seu sorriso. Como seria bom que o seu pai fosse assim...

 

A noite chegou e quando todos dormiam Alice esgueirou-se do seu quarto. Abandonara os seus longos vestidos e trajava como se fosse um homem. Calças pretas e uma camisa escura para se misturar com as cores noturnas. Apanhara o cabelo numa única trança e cobrira uma capa pelas costas com um capuz para ocultar suas feições femininas.

Marco já a esperava no ponto acordado por ambos, com dois cavalos, e o seu amigo, Joel, já montava o terceiro animal. E dali saíram todos a galope. Teriam ainda muito caminho para andar. Antes de libertarem os irmãos negros teriam de se encontrar com o segundo amigo de Marco, o Xavier, que os esperava num casebre abandonado, outrora a casa de alguém, e que ficava bem afastado da fazenda. 

 

As horas naquela noite, e dia seguinte, passaram devagar e os três cavaleiros nada falavam. Engoliam as palavras junto com o medo que algo corresse mal. Chegaram ao casebre já noite alta. Xavier esperava-os alerta. Naquela noite o sono foi premiado com agitação. Tinham de descansar pois esperava-os uma tarefa nada fácil! Quando Alice acordou já os três rapazes estavam a pé e conversavam em surdina fazendo riscos no chão. Aproximou-se e percebeu que falavam do ataque à fazenda do seu pai! O seu coração bateu mais depressa. Tentou sossega-lo e sentou-se junto de Marco e serviu-se do pão que este lhe estendeu.

 

O plano, apesar de perigoso, não parecia complicado. Além disso, Xavier tinha conseguido avisar uma das negras da fazenda que vira na cidade a carregar mercearia para uma carroça. Os seus irmãos estava à espera! Tinham, pois, que calar os dois guardas à entrada da fazenda, para poderem ter acesso até à senzala. Aí teriam de anular mais dois vigilantes. Tudo teria que ser feito com o maior silêncio possível! Nenhuma arma podia ser disparada para que não fosse dado o alarme! Depois abririam as portas da senzala e, enquanto Joel e Xavier ficariam de vigia à casa dos guardas, Marco e Alice fariam sair todos dali até à orla da fazenda e daí seguiriam para o quilombo mais próximo. Os cavalos já os esperavam no mato, num ponto estratégico, para transportar os mais idosos e crianças. O resto seguiria a pé. A liberdade dar-lhes-ia força! Contavam que na Senzala estivessem cerca de 20 pessoas, crianças incluídas. Não sabiam se iam ter tempo de avisar Dôdo e quem estava na cozinha e isso estava a ser difícil de aceitar. Mas achavam que por um bem maior valeria a pena soltar a maior parte das pessoas. Mais tarde se veria o que fazer com Dodô, Mãe Jurandi e Miká.

 

 Chegou a hora de agir e com ela a apreensão de Alice agravou-se. Nada mais natural. Ela temia sobretudo pela mãe e pelas escravas da cozinha, assim que seu pai percebesse o que havia acontecido. No seu íntimo ela sabia que seria impossível ir buscar a Dôdo. A menos que ela tivesse sido avisada!

 

Fora fácil derrubar os guardas da entrada. Depois disso, os quatro seguiam numa mescla com a escuridão e em silêncio até à senzala. Aí seria o ponto mais crítico!

Quando o branco das casas se distinguiu na obscuridade, quais felinos prontos a atacar a sua presa, rentes ao chão, avançavam para posicionarem o ataque. Afastaram-se... não viam os guardas! Como é que a senzala estava sem guardas!?!

 

Alice estremeceu ao sentir-se agarrada pelo pescoço! E tudo se passara muito rápido a partir daí! Alguém lhe segurava os pulsos atrás das costas e lhe impedia qualquer movimento, sentindo o pescoço apertado com um braço musculado não conseguia emitir um pequeno aviso que fosse.

Pelo canto do olho viu que Marco lutava contra dois homens sem sucesso. Foram traídos! Estavam à espera!

 

O seu corpo frágil e feminino não suportava a força desmesurada que usavam sobre si. Eram arrastados, ela percebia que os levavam até onde estava o tronco da tortura. O que lhes iriam fazer? Onde estaria o seu pai? O que faria quando visse que a sua própria filha estava ali?

 

No largo estavam já erguidos quatro troncos. Definitivamente foram traídos! Mas quem faria isso?

 O seu pai, Paes de Andrade, imponente e arrogante como sempre, ordenou que os obrigassem a ajoelhar no chão. Queria olhar nas suas caras para ver quem tivera a ousadia de o enfrentar. Mas antes mandara ir buscar o "outro".

O outro? Mas quem, se não havia mais ninguém com eles?

Arrastado por dois guardas surgiu Victor! Ele que trabalhava com o seu tio Alberto há anos. Porquê?

 

O grande senhor de escravos soltou uma gargalhada quando o viu, espancado e desorientado.

- Pensavas que por denunciares os teus compinchas eu te deixava sair daqui sem provar da nossa hospitalidade para com os negros!!?

 

Fora Victor quem os denunciara e seguira. Mas porquê se dera a tanto trabalho?

 

Victor não lhe respondeu, estava muito mal tratado. Seguidamente Paes de Andrade dirigiu-se a Xavier, que tentou, infrutiferamente libertar-se das mãos que o empurravam e mantinham no chão. Seguiu-se Joel e Marco. Parou no Marco.

- Conheço-te não é? - E deu-lhe uma valente pancada acertando num ombro com um chicote curto e rígido - Afinal voltaste? Sentias saudades do meu chicote, ora diz lá? - E levanta outra vez a mão desferindo outro golpe que, desta vez, acertara no pescoço e Marco não conseguiu abafar um gemido. - Isso fez Paes de Andrade sorrir de regozijo.

 

Nisto um grito se fez soar.

- Pára!! Por favor, chega de tanto ódio! - Era a mãe de Alice, Sinhá Amália, que surgia acompanhada de uma Dôdo angustiada e de uma Miká espavorida.

 

Paes de Andrade virou-se e ordenou.

- Não te aproximes! Não te metas nestes assuntos! - levantou gorda e possante mão num sinal de aviso.

Amália não se deixou intimidar - Não me metes medo! Já não... Se quiseres podes colocar-me no tronco mas não serei mais conivente com isto! Não me calarei mais! Esse rapaz partilhou o leite com a tua filha e ... - Paes de Andrade cortou-lhe a palavra e do nada estava perigosamente próximo dela. Dôdo tentou proteger a sua Sinhá mas foi prontamente afastada pelo patrão, e com tal violência que caiu desamparada no chão! - Amália deixou de olhar para o marido e tentou socorrer a amiga negra, mas um puxão dado no seu braço obrigava-a a levantar e enfrentar os olhos do patrão de escravos. Estava magra, débil, mas notava-se que possuía uma força poderosa, que entretanto, também encontrara a liberdade.

- Queres ir para o tronco sua vadia? Queres ser amiguinha dos negros? Pois serás um deles! Ponham-na no tronco para que comece já aprender a ser uma negra! - Disse virando-se para um dos seus guardas. A uma pequena hesitação deste Paes de Andrade, completamente enlouquecido, parte para cima dele e dá-lha novamente a ordem em tom ameaçador - Já!!

 

Alice que até então perdera a voz recupera o controle do seu corpo e grita com todas as forças

- Não!!!

 Todos os olhares se viraram para ela! Ninguém percebera que era uma mulher que ali estava! Além da capa, com o devido capuz, prendera cuidadosamente o cabelo  debaixo de um masculino chapéu de abas. Nada a denunciava.

 

A surpresa fora tal que os guardas que os agarravam relaxaram na sua força o que permitiu ao Joel, o mais forte de todos, libertar-se do seu carcereiro e tirar-lhe a arma. A partir daí gerou-se uma grande confusão de braços, murros, socos e pontapés. Mas tudo cessa quando se ouve o som de um tiro. Alice que também se libertara vê o seu pai apontar uma arma para Marco e ato contínuo coloca-se à sua frente amparando o tiro! Que, certeiro, a atinge no peito.

 

Ela cai e Marco consegue, aproveitando a surpresa de todos, amparar-lhe a queda. Afasta-lhe frenétricamente as roupas para ver o que pode fazer, mas nada pode ser feito, o sangue perde-se na alvura daquela pele branca...

 

Paes de Andrade que ficara estático fora desarmado. Levantou os olhos e com estes, raiados de sangue e ódio, viu que um negro lhe apontava a arma. Um negro da sua senzala! Mas como??!!

 

O homem, alto, musculado, e de voz forte saciou-lhe as perguntas que não foram feitas - Chegou a nossa hora! Chegou a hora de mandarmos! Queres saber quem nos libertou? - mas não esperou pela resposta e continuou - Miká conseguiu a chave na confusão e deu a liberdade aos seus irmãos! Liberdade que a sua filha nos ia dar! A filha que você, seu diabo, matou!

 

Paes de Andrade respondeu inchando o peito, nunca perdendo a pose - Nunca! Nunca serão livres! Eu paguei por cada um de vós! Pertencem-me posso fazer-lhes o que eu quiser! - parecia não querer ver que estava a ser rodeado pelos negros mais fortes. Todos os seus guardas haviam sido derrubados e alguém, entretanto,  os fechara na senzala. Só restava ali ele para satisfazer a sede de justiça daquela gente.

 

Um dos negros grita.

- PARA O TRONCO!! - e todos respondem a uma só voz

- PARA O TRONCO COM O PATRÃO DE ESCRAVOS!

 

Alice já não tinha forças para resistir ao peso dos seus olhos. Não sentia dor, apenas cansaço. A mãe, alheia a tudo o resto, aproximara-se dela e ajoelhada no chão beijava-lhe a face.

- Minha menina, não me deixes! Resiste! - rogava Amélia.

Marco apertava Alice nos braços, ela tentou falar - Marco protege-a... - tentou articular mais uma palavra mas as suas forças abandonaram-na. O seu olhar, preso no de Marco, disse o que os lábios calaram.

 

Amália soltou um grito. Dôdo, que se encontrava ao lado, chorava copiosamente a morte da sua menina. Marco levantou-se, segurando Alice no colo, e abalando dali. Amélia deixava o marido entregue à sua sorte. Nunca lhe perdoaria!

 

Xavier e Joel seguiram Marco e aconselharam-no a que saíssem o mais rápido da fazenda. Foi aprontada uma carroça. Que levaria Marco, Sinhá Amália e o corpo de Alice, os restantes seguiriam a pé. Iriam buscar os cavalos e sairiam daquela fazenda onde o ódio e a raiva consumiam qualquer alma.

 

Amália afagava a filha, como se a vida ainda estivesse ali. Como se ela sentisse aquele afago. Não olhara uma única vez para trás. Paes de Andrade morreria espancado, naquela noite, às mãos dos negros que ele torturara.

Souberam, mais tarde, que Victor os havia denunciado por ciúmes de Marco e Flor.

 

Fim.

 

Finalmente.... Agora é a vez da Cris ou do Corvo. Por mim, prometo que tentarei para uma próxima ser mais sucinta nos meus contos!!!

 

 

 

Na alvura da tua pele me perco - parte VI

por golimix, em 21.05.15

Peço desculpa a quem tem vindo a seguir a história, que sei que só são três ou quatro pessoas, mas importantes para mim, pela minha demora em continuar a história.

 

Continuação daqui

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Nos dias que se seguiram aquela reunião abolicionista, e que ficou a conhecer Maurício, as noite de sono de Alice eram muito agitas. Ela tinha que saber se Maurício era quem ela desconfiava. O irmão negro que ela perdera anos atrás.

 

Começou, sempre acompanhada por Flor, por aparecer algumas vezes no consultório do tio, com a desculpa, para não levantar suspeitas, por levar um bolo, ou um lanchinho para ele, já que trabalhava tanto...  Sempre que encontrava Maurício este aparentava um certo nervosismo. Cumprimentava-a sempre distante e formal, mas ela via em seu olhar aquilo que ele tão cuidadosamente tentava calar.

 

Um dia, num final de tarde, encheu-se de coragem e saiu de casa sozinha! Algo não muito visto naquela época. Mas ela tinha que saber! E para isso tinha de sair só. Vestiu uma roupas simples, que tinha tirado do armário de Flor, e envolveu-se numa capa preta, tento o cuidado de cobrir a cabeça com o capuz da mesma. Ninguém iria reconhecê-la.

Aguardou, escondida, que Maurício saísse do consultório do tio, e, imprudentemente, segui-o. Ele ia se afastando da cidade e ela também...

 

Alice, depois de muito andar, começava a achar que aquilo não fora boa ideia, mas já que tinha ido até ali, continuaria. Estavam agora perto de um conjunto de casas simples de madeira, todas seguidas e pobremente cosntruídas. Quando Maurício abrandara o passo... Alice já não tinha a proteção de edifícios para se esconder, estavam praticamente em campo aberto. Ele sabia que era seguido. Mas que interessava? Era para falar com ele que se dera a este trabalho.

Já junto dele viu fixá-la nos olhos.

- Menina Alice não devia estar aqui sozinha! Principalmente a estas horas! Venha, vou acompanhá-la a casa. - o jovem estava hirto, e transparecia alguma apreensão

- Não. Não vou enquanto não me disseres a verdade. És o meu Marco, não és? - Alice fora directa ao assunto, como seu costume, e cruzou os braços qual menina a fazer uma birra.

- Desculpe?! Não sei do que fala - Respondeu numa voz trémula - O meu nome é Maurício sabe-o bem. Não conheço nenhum Marco!

-Alice leva a sua mão ao braço dele e aperta-o, força-o a olhá-la, uma vez que ele evitava-lhe o olhar  - Eu sei que tens medo. Mas eu sou a tua amiga, a tua irmã de leite! Nunca te denunciaria.Preferia morrer!

- E eu preferiria morrer no seu lugar! - Dito isto, uma lágrima solta-se daqueles negros olhos e rebola por uma face com músculos contraídos.

Alice não precisou de mais nenhuma confirmação! Atirou-se nos braços do "seu Marco" e os dois liberaram anos de angústia por um destino que os separou prematuramente.

 

Marco segurou-a pelos ombros e afasto-a de si.

- Alice, por favor, serei sempre o Maurício, ouviste? - Estava sério e os seus olhos estavam vermelhos de chorar.

- Não te preocupes meu amigo. Nunca te poria em perigo - Disse limpando a face com as costas da mão.

- Agora vamos. Eu acompanho-te antes que alguém dê pela tua falta ou anoiteça.- Arranjarei maneira de te contar tudo, mas não nestas ruas. Aqui até as pedras da calçada têm ouvidos! Por isso, não me faças perguntas. Não agora.

 

Alice concordou. O mais importante do que precisava saber já o sabia. Marco não estava mais perdido para ela.

 

Dias depois, Marco conseguiu esgueirar-se do consultório do Tio Alberto, e sob o pretexto de buscar um livro ao escritório da casa do mesmo, conseguiu finalmente o encontro esclarecedor com Alice.

Ele e o seu pai, Justino, tinham fugido para um quilombo no meio do mato. Tinham sido bem recebidos mas o seu pai não se dera bem. Começou com febres que tanto vinham como iam. Começaram a achar que era por estar ali, fechado e rodeado de mato por todo o lado. Numa de suas melhorias resolveram, ele e mais três negros, aventurar-se até uma cidade maior. Sabiam que se preparava uma revolução e queriam estar à frente dela. A viagem foi horrível para o seu pai, já que estava fraco, e ele piorou. Conseguiram chegar à cidade mas o seu estado já não lhe permitiu aguentar muito tempo. Pouco depois faleceu.

 

Marco como que fora adoptado por dias negras vendedoras de legumes, que o ajudavam. Conseguiu emprego como carregador, varredor, enfim, fez de tudo um pouco. Mas o seu porte elegante, e o facto de saber ler, conseguiram o emprego junto do seu Tio Alberto, por pura sorte! Quando este foi visitar uma doente nas casas de madeira. O seu tio fazia serviço gratuito imensas vezes, e conheceu uma criança que acompanhava a mãe na venda de legumes, cuja respiração não lhe agradava, a partir daí começou a consultar a menina cujo estado casa vez inspirava mais cuidados. Essa era a casa de uma das mães adoptivas de Marco. Este vendo o tio de Alice atrapalhado com o trabalho,  e como forma de pagamento, ofereceu-se para ajudá-lo e daí até à oferta de emprego foi um instante.

 

Alice também lhe falara sobre a sua mãe, a Dôdo, e contara como o pai dela se tornara o pior fazendeiro para os escravos.

 

O tempo foi passando, Alice e Maurício tinham cuidado para nunca serem vistos a conversar, muitas vezes encontravam-se nas reuniões, cada vez mais fervorosas sobre abolição e ocasionalmente o tio Alberto convidava-o para beber um licor no fim das mesmas.

 

Mas nada fazia esperar a notícia que espantou Alice. Flor andava feliz desde há uns dias e já todos sabiam que ela o motivo seria um jovem e não tardou até que a mãe dela, a cozinheira Anastácia , o quisesse conhecer. Beatriz oferecera-se para que o jantar fosse em sua casa. Afinal Flor era a melhor amiga da sobrinha e todos gostavam da jovem negra despachada e alegre.

 

Quando Flor o acompanhou até à sala Alice nem queria acreditar no que seus olhos viam. Era Marco, ou Maurício, que estava às sua frente!!!

Será que Flor sabia a verdade?

 

Meus incautos leitores, que um dia vos lembrastes de ler o que eu escrevo, já sabeis que não consigo abreviar histórias. Por isso, lamento, mas

 

continua

 

Na alvura da tua pele me perco - parte V

por golimix, em 22.04.15

 

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continuação daqui

 

A vida numa grande cidade fora inicialmente um choque para Alice. Mas depressa se habituou! A casa que o irmão habitava não era tão grande como a fazenda, mas mesmo assim tinha bastantes cómodos. Além disso, havia alegria! Não havia trabalho escravo. O irmão alforriou-os todos os negros que tinham em casa!

 

Havia um jovem rapaz, Victor, um negro, que o acompanhava muitas vezes ou então ajudava nos trabalhos mas pesados da casa. Mas  Alberto pagava-lhe pelo trabalho. Bem como à cozinheira, uma viúva e a jovem filha da mesma, que tinha cerca de 16 anos, que tinham pequenas acomodações nas traseiras da casa principal, e que Beatriz mandara construir. A casa não era muito grande mas dava o seu trabalho mantê-la. E todos o faziam com boa disposição. Alice e a jovem negra, que dava pelo nome de Flor , filha da cozinheira, depressa se tornaram amigas. Quanto Beatriz, a sua jovem tia, transformou-se na irmã que ele nunca teve. Alice estava feliz, embora essa felicidade se turvasse sempre que pensava na fazenda e quando recebia as cartas da mãe, apesar desta lhe dizer que estava tudo bem, parecia que em cada frase estava escrito o contrário do que lia.

 

Os serviços de Alberto como médico começavam por ser, e devido à sua dedicação, muito requisitados, e ele tinha acabado de contratar outro jovem, filho de escravos, homem livre, para o ajudar num consultório que decidira estabelecer na cidade. O tio ajudava todos sempre que podia, e isso incluía homens, que devido à sua cor, não arranjavam emprego com facilidade.

 

Alice acordava lentamente para uma realidade completamente diferente da que estava habituada. Foi percebendo que por ali o tio não era o único que proclamava a liberdade para todos. Existiam com frequência reuniões onde se discutia a abolição da escravatura. Percebeu que o tio era um abolicionista! E pela primeira vez soube o significado dessa palavra. Soube também, que essas ideias não eram novas, já tinham a sua força desde 1870! Estavam em 1883 e ela nada sabia sobre isto! Nas fazendas de café, principalmente as mais afastadas de toda a informação, e que dependiam do trabalho escravo, tentava-se abafar toda um revolução prestes a estourar!

 

E com todas estas novidades o tempo foi passando e a fazenda foi ficando cada vez mais distante... Estava agora com 19 anos. O tio permitira-lhe estudar num colégio de freiras. Ajudava Beatriz no governo da casa e volta e meia iam a reuniões sobre a abolição com o tio. E foi numa dessas reuniões que o viu pela primeira vez.

 

Alguém discursava, de forma eloquente, sobre as atitudes a tomar para acabar com o trabalho escravo. Nessas reuniões estava sempre muita gente, que incluía homens de todas as cores e também algumas mulheres. Sentiu que alguém a observava e foi ao encontro daquele olhar. Um jovem mulato contemplava-a, e ela teve a nítida sensação que conhecia o portador daqueles olhos negros. Mas depressa ele se diluiu no mar de gente que ali se encontrava, e só quando todos desaguaram dali para fora é que o tio Alberto, que saíra de perto delas com uma desculpa, ressurgiu com ele.

- Meninas quero apresentar-vos o meu funcionário, que trabalha comigo no consultório. Este é Maurício!

O jovem inclinou-se e Beatriz estendeu-lhe a mão, para ser segurada com gentileza, seguida por ela, Alice, que sentir aquele toque todo o seu corpo, todos os sentidos, ficaram em alerta. Como se a avisassem de algum perigo.

- Muito prazer! - O jovem falava numa voz doce e meiga. Música para qualquer ouvido.

- Olá meu jovem! Terá que ir a nossa casa um destes dias comer uma fatia de bolo da nossa querida cozinheira. Garanto-lhe que Anastácia faz um quindim maravilhoso! - Sorria Beatriz

Alice manteve-se calada todo o tempo. Quando chegaram a casa não susteve mais a curiosidade. E questionou o tio.

- Tio Alberto diga-me. O que sabe de Maurício?

- Minha querida, pouco sei... sei o que me interessa. Que é um bom trabalhador, esforçado, honesto, atento e que vive  numa pequena casa mais afastada. Mas porquê essa curiosidade?

- Não sei... há algo nele que me diz que o conheço...

 

E Alice não se enganava e mais um encontro inesperado com Maurício revelaria algumas surpresas e também lhe trariam acontecimentos imprevistos. O seu mundo estaria, mais uma vez, prestes a mudar.

Na alvura da tua pele me perco IV

por golimix, em 16.04.15

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 Continuação daqui

 

Após a partida de Marco, e do seu pai Justino, para parte incerta tornou-se mais difícil a vida para as mulheres que habitavam a Fazenda. Dodô envelheceu pelo menos uns dez anos, e apesar de continuar a cumprir zelosamente as suas tarefas, já que não podia ser de outra forma, a sua antiga, e tão habitual, alegria desvaneceu-se por completo. Mantinha sempre um semblante carregado, como se estivesse de luto por um filho e marido vivos, mas mortos para ela. Alice vivia numa tristeza inconsolável, não só pela partida do seu grande amigo de infância, mas também porque tomara conhecimento de como era o seu pai na realidade.

 

Ouvia muitas vezes o pai praguejando e gritando com a sua mãe, e desconfiava que as agressões não seriam só verbais, já que volta e meia ela aparecia com uma nódoa negra no braço, e passara recentemente a cobrir os seus braços com vestidos de manga comprida, mesmo no calor! Viver naquele lugar tornara-se impossível! Mas ela continuava uma moça pertinaz, com vontade de mudar o mundo e o próprio destino, que mãe Jurandi tanto falava. Discutia inúmeras vezes com o seu pai não lhe demonstrando medo, apesar de saber tudo o que aquele homem era capaz. Mas com ela a mão pesada tornava-se mais leve e ele lá ia aceitando, calado, as suas altercações, até ao momento em que lhe levantava a mão e um “Basta Alice!” terminava com o diálogo unilateral.

 

E dois anos se passaram nesta angústia. Felizmente, que ultimamente o Patrão se deslocava com mais frequência em negócios, e quando estava em casa ia muitas vezes aos cafezais. Quem sofria mais eram os pobres escravos, que cada vez com mais frequência, faziam uma visita forçada ao tronco, erguido no terreiro junto à senzala. Desgraçados que nem sabiam o que que os levava ali! Muitas vezes era porque andavam mais devagar, já que o calor apertava, e enchendo-os de preguiçosos mandava-os açoitar. Outras vezes porque os apanhava a cantar as suas músicas e ele não queria ali daquilo. E não eram raras as alturas, em que alguns escravos mais fracos, caíam de exaustam e eram espancados ali mesmo, onde se deixavam ir.

A Sinhazinha Alice, como todos lhe chamavam, quando era informada, escondia-se para ir à senzala tratar dos feridos. Tudo até ao danado do novo capataz, um homem da pior espécie, ter feito queixa destas suas atitudes e ela ter sido terminantemente proibida de chegar, sequer, perto do terreiro sob pena de ele mandar açoitar todos os escravos, incluindo crianças!

"Não te quero com aqueles animais, Alice!"  dizia-lhe o pai. Apesar dela saber que os animais estavam do outro lado da trincheira.

E Alice não teve outro remédio senão chorar cada grito ouvido ao longe. Aquilo tinha que mudar! Mas como? Que poderia ela fazer?

 

Certa tarde foram visitadas por um irmão de sua mãe. O tio Alberto era casado com uma bela jovem, de cerca de 20 anos. O seu próprio tio só teria uns 30 anos. Rapaz inteligente, e bom coração, fora estudar para a cidade e tinha-se formado em medicina.  Casara-se à cerca de meio ano com uma jovem de boas famílias. Estava, pois, bem na vida.

Alice mal conhecia o tio, exceptuando umas cartas e fotografias trocadas. Mas assim que sentiu a carruagem desceu a correr as escadas. Uma distração no meio do sufoco em que viviam era sempre bem vinda.

- Olá tio Alberto! Até que enfim vem ver-nos! E apresentar-nos a sua mulher! - Disse Alice mal os viajantes tinham pousado o pé no chão!

O tio sorriu-lhe - Está é Beatriz - disse, já com a sobrinha abraçando a esposa. E, seguidamente, beijando a sobrinha na testa, continuou -  Alice estás maior do que eu pensava! E as fotografias não te fazem justiça minha querida sobrinha! Mas onde está a tua mãe minha cara?!

- Venham para dentro! - Alice subia as as escadas enquanto lhes falava. - Minha mãe deve estar arrumando qualquer coisa na casa. Ela arranja sempre o que fazer - Precisam que vos ajude com algo?

- Não minha querida - Falou a esposa do tio acompanhando a sobrinha - deixamos todos os nossos pertences na casa do teu avô. Ficaremos por cá esta semana.

- Que bom! Ficam uma semana! Assim podemos conhecer-nos melhor! Embora um semana seja pouco para quem quase nunca cá vem! - Alice virou-se propositadamente para o tio.

- Minha menina sabes bem que a minha profissão não me permite grandes ausências! Além disso, estava a estabelecer-me na carreira. Agora tinha mesmo que vir. - tossicou, gesto que Alice veio a identificar mais tarde como um tique que o tio tinha sempre que se encontrava agitado com algo.

Mal tinham transposto a soleira da porta surgiu Amália.

- Meu irmão! Tanto tempo... Ainda bem que viestes- ambos se abraçaram. De seguida virou-se para a esposa do irmão.

- Claro minha irmã! Tinha que vir - Respondeu-lhe

- Minha querida irmã. Beatriz! Bem vinda a esta casa! - Disse Amália abraçando-a também.

- Por favor venham para a sala de estar que está mais fresca, vou pedir para a Dodô nos servir. Querem um suco ou um café? Sim. Café temos de sobra! - Sorriu

- Por mim, e com este calor, agradecia qualquer coisa refrescante! E penso que por Beatriz também, não minha cara? - Disse virando-se para a esposa e obtendo um consentimento desta.

- Pois então, suco para todos! E provarão o maravilhoso bolo de fubá que Dodô fez de manhã! - Amália virou-se para a filha. - Alice por favor acompanha-os até à sala das traseiras, a mais fresca, que eu já vou.

 

A conversa foi animada durante toda a tarde, a empatia entre Beatriz e Alice  parecia instantânea! Falaram sobre diversos assuntos, mas escusaram-se a temas relacionados com política e escravatura. Amália sabia qual a opinião do irmão, e sabia também que uma das suas recusas em vir a casa era porque o pai tinha escravos. Mesmo que o pai nunca os tratasse mal, tal como o seu marido fazia! Ela lembrava-se das discussões acaloradas entre os dois, pai e filho! O irmão achava que todos deveriam ser pagos pelo seu trabalho e que isso também faria circular o dinheiro, o pai nem sequer imaginava como seria a vida dos donos de fazendas sem a mão de obra escrava!

Amália temia o encontro entre Paes de Andrade e o irmão, apesar de saber que por ela o seu irmão iria se conter. Ainda bem que naquela noite seu marido não jantaria ali. Mais um jantar de "negócios" o afastara.

Os tios ficram para jantar na fazenda.

Na despedida, Alice, ouviu o tio comentar com a sua irmã, Amália.

- Espero que conversem minha irmã. Sabes que só estarei uma semana, talvez seja melhor avançares com o assunto.

- Claro! Só esperava a tua vinda. - Votaram a abraçar-se e a carruagem partiu até à fazenda dos pais de ambos.

 

Curiosa como era, Alice, não resistiu em questionar a mãe.

- Mãezinha, de que falavam, tu e o tio Alberto? - Disse

- Minha querida filha, falávamos de ti! - Amália virou-se para a filha

Esta arregalou os olhos e respondeu prontamente apontando para o próprio peito - De mim? Não percebo!

- Sim. Querida, combinei com o teu tio que irás com ele para São Paulo - disse a mãe sem qualquer rodeio.

- Mãezinha! Nem penses! Nunca te deixaria aqui sozinha com... aqui na fazenda! - Disse Alice pensando no que seria a vida da mãe com o pai sozinhos por ali.

- Minha querida eu e o teu pai lá nos entenderemos. Já que sei que é isso que te apoquenta. E temo que tu vás acabar por odiá-lo e eu não quero isso. Além disso, eu tenho a Dodô, a Miká e a mãe Jurandi. Isto na fazenda não é vida para ti e quero que vás aprender algo na cidade. E o teu tio necessita da tua companhia para a esposa, e vi que se deram muito bem! - Amália era persuasora

- Já disse que não sou capaz! - Alice tinha os olhos rasos de lágrimas, pois se por um lado o que mais queria era ver-se longe dali, por outro, deixar a mãe parecia-lhe impossível!

A mãe colocou-lhe as mãos nas faces - Meu amor, não percebes? A decisão está tomada. Não. Nisto não posso pedir a tua opinião! Agora, por favor, nada de chorar e vamos aproveitar o tempo que nos resta.

 

E assim mais uma pessoa querida aquele lugar, àquelas pessoas, partia dali...

 

Continua...

Na alvura da tua pele me perco III

por golimix, em 14.04.15

fazenda-capoava2.jpg

Continuação daqui

 

 

E foi assim, que naquela noite, tudo se precipitou!

E após a Dodô ter dado à luz um belo e forte rapaz, a sua Sinhá trazia ao mundo, pelas mãos da mãe Jurandi, uma menina com ar pequeno e frágil que tivera demasiada pressa em mostrar-se ao mundo e parecera responder a um chamado urgente que requeria a sua presença.

 

Mas a fragilidade nada mais era do que aparente, já que a criança revelara uma enorme vontade de se manter viva! E demonstrou essa firmeza crescendo e engordando a cada dia que passava. Claro que para isso contribuiu não só o leite materno, mas também leite que Dodô deixava que o seu filho partilhasse com a menina da sua Sinhá. Dado que ela era fraca e a negra tinha leite de sobra.

 

E foram crescendo aquelas duas crianças, partilhando o mesmo leite, mas de mundos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Alice e Marco, ditos assim, de forma simples tal como a vida deles era.

 

Sinhá Amália, que até então tinha períodos de desânimo, sentia que a sua vida fazia sentido e dedicava-se a ensinar aos dois a mesma coisa, o que a menina aprendia o menino também o fazia. Ela aprendia a ler e ele também. Aproveitava também as sua tardes para ensinar Dodô a pronunciar-se melhor na língua portuguesa, embora a empreitada  se estivesse a revelar uma verdadeira dor de cabeça!

 

Tais tarefas eram realizadas sem o conhecimentos do Patrão Paes de Andrade. A quem não agradava que a sua doce menina loira brincasse com aquele mulato com ares de negro, filho de uma escrava e de um homem branco sem juízo. Mas a sua esposa convencera-o que fazia bem a menina brincar com outras crianças, mesmo que negras, faria bem ao seu crescimento já que a felicidade da menina a faria crescer saudável. E que mais pretendia um pai? Olhar para aqueles cachos dourados amaciava-lhe o coração como nenhum outro ser o fizera. Além do mais, nada o impedia de no futuro se livrar daquele negrinho, que mesmo de tenra idade já se mostrava um petulante!

 

Mas não o fizera, nem quando ele tinha dez anos, nem doze...

A sua filha soube como frear-lhe a vontade, e deixou que aquele negrinho por ali ficasse, com ordens expressas de não passar da cozinha e não colocar um dedo que fosse no resto da casa. E permitiu que não fosse enviado para o trabalho pesado na roça desde cedo, como fazia com os outros negros quase mal começavam a andar! E mesmo que ele tivesse nascido na lei do ventre livre isso pouco lhe importava se o quisesse pôr no trabalho.

 

 Aquele dia porém tornou-se decisivo para que lhe acabasse com a vida mansa.

Vinha no seu cavalo regressado da Vila, onde fora a negócios, felizmente para todos ele necessitava de  se ausentar várias vezes, já que o café não se vendia sozinho. Resolvera tomar um caminho diferente do habitual, já que ainda era cedo, e passar pelo seu pomar e ver como se davam as árvores de fruto que sua esposa insistiu em plantar anos antes. Pediu, nessa altura, que fossem transplantadas algumas árvores já bem grandes para aquele local. E ainda bem que o fizera! E Homem sempre atento a um bom negócio, transformou esse pedido num projeto que até se revelara rentável. Para além de ter sempre fruta fresca em casa, ainda colocou dois escravos a vender fruta na Vila rendendo-lhe mais algum dinheiro.

Ao se aproximar dos terrenos  viu dois jovens, ao longe,  juntos do abacateiro. A princípio não os distinguiu. Mas mais perto pode ver que se tratava de sua filha! Aquele cabelo loiro era inconfundível! Mas com um homem! Quem seria?! Como é que Amália a deixava estar ali a sós com um homem e ainda por cima sem o seu conhecimento!? Não podia ver de quem se tratava, já que este estava de costas. Mas era um negro!!?? Como ousava!?

E açoitando o desventurado cavalo chegou em passo de corrida ao destino.

- Que fazes aqui seu negro atrevido? – Vociferou do alto do seu cavalo e fazendo este frear o passo de repente levantando um monte de terra na paragem brusca.

Os jovens olharam-no estupefactos e Alice interpôs-se não deixando a sua companhia falar.

- Pai vê lá como falas com o Marco! Ele é meu amigo! – falava ao mesmo tempo que se colocava em frente do amigo.

- Amigo?! – Riu-se num riso alucinado – A minha filha com amigos negros?! Este animal lá pode ser amigo de alguém! Já para casa sua desajuizada! Contigo e com a tua mãe entendo-me depois! ! E tu, meu negro, vais aprender qual é o teu lugar! – e dito isto saltou do cavalo e preparava-se para açoitar o rapaz ali mesmo com o chicote do cavalo.

Marco estava sem reação! A mãe já o tinha prevenido do feitio do patrão, aliás, ele via-o na vida que os outros negros, seus semelhantes, levavam, mas estivera, ou quisera estar, até aquele momento, de olhos fechados, e aquele acontecimento foi como um renascer para a vida real que até ali negara, já que a sua estadia dentro de casa o poupara a certas dificuldades. E mesmo vendo o patrão Paes de Andrade dirigindo-se até ele de chicote em riste não se moveu, ou sequer se agachou amedrontado por uma surra iminente!

- Não pai! – Alice atirara-se ao braço do pai e prontamente fora sacudida caindo no chão desamparada e nesse momento o chicote desfere um golpe certeiro na face de Marco que leva a mão à cara e mesmo assim, a juventude dos seus treze anos,  não o fez  curvar-se com a dor. Nunca se curvaria aquele homem!

Alice solta um grito horrorizada e pendura-se novamente na mão do pai. E grita.

- Foge Marco! Foge por favor!

Mas marco não move um músculo. Se Paes de Andrade o queria açoitar? Pois que o fizesse! Na presença da filha para que ela também visse o mesmo que ele via naquele homem! Já que era a única que parecia gostar daquele monstro.

- Larga-me! Ouviste Alice? Larga-me o braço e não me faças aleijar-te! E com a outra mão, e o quase o triplo,  ou quádruplo, da sua força empurrou a filha e voltou a levantar o chicote acertando com um segundo golpe no peito de Marco. – Seu negro petulante que ousas não te dobrar nem pedir desculpa por estares aqui com a minha filha!

A gritaria de Alice tinha atraído Sinhá Amália e Dodô, que na verdade não estavam longe dali a recolher fruta. E providencialmente Amália segurou a mão do marido impedindo um terceiro golpe  a um estático rapaz. Dodô abraçara-se ao seu filho de face e peito ensanguentado não percebendo a extensão, nem a gravidade, dos golpes.

E vendo o seu intento interrompido pela esposa Paes de Andrade resolve virar a sua fúria para esta.

- Larga-me sua cadela! – Atira-a ao chão e desfere-lhe um golpe no ombro fazendo a esposa gritar de dor.

-Por favor pare que está ali a sua filha! – Amália colocou a mão a frente da cara e lembrou o marido que a sua filha estava a ver um monstro e não o seu pai que tanto a mimava.

Paes de Andrade dominou-se e urrou.

- Quero este negro fora da minha casa! Amanhã mesmo o venderei para longe!

- Me filho nã pode ser vendido – Gritou Dodô. Ele ser livre! Nasceu no ventre livre!

- Não quero saber do raio dessa lei! Essa peste é minha propriedade! Nasceu na minha casa! E vai render-me um bom dinheiro já que se mostrou forte mesmo a apanhar! - Montou no cavalo e saiu dali ignorando os rogos das mulheres.

 

- Ó mê filho que vai ser de tu?! - Dodô abraçava-se ao filho que se mantinha contraído e punhos fechados.

- Não se preocupe minha mãe. Eu não vou ser escravo! - Marco, com a face ensanguentada, mantinha o sangue frio.

Sinhá Amália também recuperara e, sem se importar com o sangue e a dor no seu ombro, começou a arquitectar um plano - Foge meu menino. Foge com o teu pai! Dodô, tu é melhor ficares, pois se forem os dois o meu marido poderá  mandar caçar-vos! Mas indo só ele e o pai a raiva não será tanta. Além disso, um homem branco e rapaz mulato serão mais bem acolhidos.

Dodô não respondeu, só chorava.

E a Sinhá continuou - Alice, minha filha - disse virando-se para a menina e segurando-a pelos ombros - Diz à Miká que procure Justino com urgência, fá-la entender isso, e vai para casa. Tenta acalmar o teu pai.

- Sim. Mas não vou ao meu pai. Nunca mais o quero ver! - disse limpando o rosto com as costas da mão.

- Minha filha não há tempo para discussões, faz o que te digo. Pelo bem do Marco! - Frisou a mãe. E Alice partiu a correr. Não sem antes dar uma abraço ao seu amigo sussurrando-lhe um "Desculpa" ao ouvido.

- Minha querida Dodô acalma-te. - Disse Sinhá Amália aproximando-se da mãe negra aflita abraçada ao seu filho ensanguentado - temos que agir rápido para que eles possam fugir sem serem perseguidos. Eu arranjarei algum dinheiro. Agora, por favor, vai e trata do teu filho.

Dodô limpou o rosto ao avental e ganhou forças, como só uma mãe consegue, e pelo filho ela sabia que tinha de o deixar partir. Seguiu dali levando o jovem com ela.

Amália inspirou fundo e dirigiu-se à sua casa. A "Fazenda Grão Dourado", uma enorme casa que tinha um ar feliz por fora mas por dentro albergaria uma tristeza enorme.

 

Os preparativos para a fuga foram céleres. Amália tratara de tudo sem se importar com as consequências que tais actos pudessem ter para com a sua pessoa. Só lhe importava colocar a salvo uma criança que ela ensinara, ajudara a criar e também amava. Além disso, sabia que Alice não a perdoaria se não fizesse algo. E assim pai e filho partiram dali numas despedidas apressadas e prometendo que uma dia  voltariam a ver uma Dodô angustiada.

Alice e Marco tinham uma amizade bela e singela, desprovida de qualquer maldade. Uma dádiva deste mundo. A despedida fora feita com uma promessa.

- Voltarei alguma dia a ver-te Marco? - Disse a jovem colocando a mão ao de leve na face sem a marca de chicote.

- Sim. Prometo-te que um dia. Um dia, eu serei um verdadeiro homem livre e poderei estar contigo sem ser açoitado! - Deu-lhe um abraço rápido e partiu com seu pai.

 

Pensando na sua mente, apesar das promessas feitas, nunca mais pisar aquelas terras! Não enquanto aquele monstro ali viver! Mas  a vida, tal como diz o povo, dá muitas voltas e ainda nem a metade tinha chegado...

 

Continua....

 

 

 

Lei do Ventre livre:

"Surgiu a 28 de setembro de 1871, e considerava livre todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir da data da lei. Segundo esta lei, as crianças ficariam sob a custódia dos seus donos, ou do estado, até os seus 21 anos, depois desta idade poderiam ficar livres.

Até lá, no entanto, eles acabariam servindo como escravos da mesma forma."


Ler mais em: http://www.webartigos.com/artigos/a-escravidao-no-brasil-uma-analise-apartir-dos-livros-didaticos-de-historia/114476/#ixzz3XJ8jCSfk

Na alvura da tua pele me perco II

por golimix, em 10.04.15

BebeNegro.jpgContinuação daqui

 

Estávamos em Setembro, e pelas contas de Dodô, o seu rebento nasceria lá para o fim do mês. Embora a parteira, uma negra habilidosa que contava já com uma certa idade, e que a pedido da Sinhá Amália ajudava no trabalho da casa, lhe tivesse dito que havia mudança de lua no início do mês, portanto, que contasse com o moleque antes! Sim. Ela também parecia ter dotes de adivinha e insistia que o bebé seria um rapaz. Mas Dodô pouca importância dava às sua premonições e ao seu lançar de búzios que  Mãe Jurandi, ou como alguns, na Senzala, chamavam de Unkulu, fazia às escondidas. Pois ai dela se o patrão a apanhasse naquilo!! Já uma vez a açoitaram no tronco porque a tinha visto a chocalhar as conchas. Fora levada de rastos pelos cabelos e, depois de terrivelmente açoitada, ficara essa noite presa, sem pinga de água nem comida! Valera-lhe a ajuda da mãe do patrão, no tempo em que estava viva, que fora tratar-lhe das feridas às escondidas. Pois, se eledescobrisse até a mãe era capaz de mandar açoitar! "O Mbungula!", como mãe Jurandi lhe chamava!

 

Durante o dia Sinhá Amália tinha estado indisposta e Dodô, e o seu enorme barrigão, resolveu fazer-lhe um chá das ervas especiais, de Mãe Jurandi, para amenizar o mal estar. isto apesar de ela própria sentir uma certa agonia ao fundo das costas. Parecia que tinha ali fogo a arder-lhe no baixo da espinha! De repente sentiu-se molhada!

- Ai! Tu qué vê que a veilha tinha razõe?! Ai Bida! Ó Miká! MiKÁÁ! - gritou o quando lhe permitiam as forças

- Ai Deus! Tu qui qué! Tou trabalhandu tu num vêi! - Responde uma moçoila negra muito bem disposta abanando um pano à entrada da porta, mas vendo a colega a segurar as costas, e com ar de quem parecia esperar a morte! Aproximou-se mais um pouco.

- Vai chamá a maê Jurandi! Rápido! - Parecia que depois da queda de água agora resolveu cair-lhe uma montanha na espinha! O que a fazia contorcer-se de dores! - Nã olhi pa mim! Vae!

E pernas para que te quero! Saiu dali a correr trazendo dali a pouco a mãe Jurandi praticamente arrastada por um braço. Que logo que deu de olhos com a Dodô soube que chegara a hora.

- Eu disse a ti mulher! - e baixou-se para lhe palpar o ventre - parece que a notê irá trazê a ti um Ujitu!- Vai pa junto da tê cama. Ma nã te aconchegues! Quero a vê tu andando! - Dodô era das poucas negras que se podia dar ao luxo de ter uma cama, com colchão de palha! Tudo obra da sua querida Sinhá! Senão estaria a dormir no chão da cozinha como a Miká, grávida e tudo!

- Nã sê se vá trazê Utijú, mas sê qui mim quéie ir deitá no mê cochão! - Disse Dodô com beiço e fazendo birra! Diabos da velha que a queria por andar e ela cheia de dores e com um colchão tão bom!

- Tu vá andá! Nem qui mim  puxá tua orelha assim! - E vai de dar-lhe um puxão e fazê-la andar a gritos e a segurar com uma mão no barrigão e outra amparando a espinha! - Mê dexa! Mê largá! - Gritava a Dodô e vendo que teria mesmo que obedecer!

Pondo a grávida a fazer o que ele ordenou mãe Jurandi deu ordens para que fosse aquecida água e se arranjasse panos limpos. E ela mesma foi levar um chá a Sinhá Amália e avisa-la do que se ali passava! Para sorte o patrão não estava hoje! Tinha ido negociar café com vendedores.

Entrou no quarto e deu com uma Sinhá pálida e suada.

- Tu qui tem minha linda Sinhá? - Disse aproximando-se, colocando o tabuleiro de chá na mesa junto à cama e colocando-lhe a mão na testa suavemente

- Não sei mãe Jurandi! Tenho-me sentido mal, com vontade de deitar fora e desde o início da tarde perece que tenho um cão a morder-me o ventre de tempos a tempos!

- Tu tem Imbua mordendo? Um cão? - e imediatamente lhe colocou a mão no fundo do ventre - Ó minha filha! Pairece que tê filho qué saí hoje tombém!

- Não! Não pode! Ainda faltam dois meses! - Amália estava petrificada.

- Nã é tu que manda! É ele - disse segurando a barriga - E os Orixás! - Abrindo os braços ao alto- Com a sua Sinhá podia falar à vontade. O Mbungula não estava!

- Ó Deus! O que vai ser de mim!? O que vai ser do meu filho!? - As lágrimas corriam-lhe pela face

- Vai sê tudo bem Hojti! E manhã nascerá sol! Tu vai vê! - Disse sorrindo e acalmando, sem Amália perceber como, a aflição que ali pairava naquele coração.

 

Duas crianças estavam para nascer naquele dia, mas uma teria que lutar muito para vingar. Nasceria ali uma alma lutadora!

Continua....

Tradução

Presente-Ujitu

Cão - Imbua

Unkulu-Avó

Mbungula-Espírito das trevas 

Na alvura da tua pele me perco

por golimix, em 09.04.15

escravos.jpg

Estamos numa época onde a escravatura ainda é usada como mão de obra nas fazendas produtoras de café. Ainda virá um tempo feliz em que isso não acontecerá, e a jornada na roça será paga. Mal paga, é certo, mas ainda assim sem o chicote nas costas e as noites mal dormidas no chão de uma senzala onde sobejam os negros e carece o espaço. E é aqui, nesta fazenda do sudeste Brasileiro, onde nascerão duas crianças alheias ao ódio, ao racismo, e sobretudo a esta era de homens de mentes tacanhas.

 

Maria das Dores a escrava, tratada por Dodô, a preferida da Sinhá Amália tomou-se de amores por um dos guardas de escravos. Um dos moles, que se deixam levar pelos encantos de uma bela negra, dessa paixão ilícita resultou uma gravidez. O homem quase fora expulso da fazenda pelo seu terrível patrão, que era tratado por Patrão Paes de Andrade! Mas veio em seu auxílio, e da Dodô, a sua jovem patroa que, apesar de tudo, criara uma certa habilidade para persuadir o marido a seguir as suas ideias fazendo-o crer que eram dele. Até porque ela mesma também estava de esperanças e nunca se deve deixar uma mulher nesse estado sem se tentar cumprir os desejos pretendidos. E lá casaram a Dodô e o seu pobre Justino Silva, que nem sabia bem o que lhe acontecera. E passou de guarda de escravos a ajudante da casa grande. Um posto mais adequado a quem tem por esposa uma negra.

 

Sinhá Amália mantinha um casamento sem amor, como tantas vezes acontecia naquele tempo, com um homem viúvo, rude e quase trinta anos mais velho que ela! Mas tivera que obedecer ao pai, que devia uns favores ao seu vizinho de terras, o Manuel de Oliveira Paes de Andrade. Ela fora educada para viver para a casa e para o marido. Era sua obrigação ser uma  boa esposa. No início fora-lhe difícil a vida ali. Longe de quem conhecia, já que para se chegar à fazenda vizinha era necessário percorrer-se quilómetros. Valeu-lhe a abençoada companhia de Maria das Dores, a Dodô. Rapariga inteligente e excelente cozinheira, além de devotada à sua amiga Sinhá. As duas engravidaram mais ou menos ao mesmo tempo, Dodô levava um avanço de dois meses. E isso tornava a vida de Amália um pouco mais alegre. Ela era uma mulher doce, amável, solidária e amiga. Enfim, a antítese do seu marido. Mas deu Deus essa sorte aquele lugar. Uma beleza suave, uma lua para amenizar a agrura dos seus dias do intenso calor solar.

 

E foi naquela noite que tudo se precipitou....

 

Continua...

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