Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Uma outra vez

por Cris, em 16.06.16

Tinha que olhar outra vez. Não acreditava ainda no que estava a acontecer. A última lembrança que tinha era o vento forte a esmagar o peito e o grito desesperado de arrependimento. De repente, via-se a pairar sobre a água, mas não compreendia. Olhou em volta. Parecia uma barragem. Sim, conhecia este sítio. Este pequeno exercício de observação provocou uma catadupa de lembranças. As emoções faziam doer o peito. O início de tudo…

 

Na sala havia uma cacofonia e um silêncio absurdo. Duas televisões ligadas, em canais diferentes e em altos berros, e o pai sentado a ler o jornal. De vez em quando lá comentava a notícia, protestava, irritava-se ou ria-se da piada do cronista e queria partilhar o ponto de vista, mesmo que ela não tivesse vontade. Nunca perguntou à filha se era feliz ou se estava nervosa com o seu novo passo na vida. Nunca lhe passou a mão no cabelo, ou disse que estava bonita. Nunca lhe indicou as possibilidades da vida. Nunca. Apenas a ânsia de fazer notar algo que ele achou importante. Ele achou importante…

 

Faculdade, primeiro dia. Gostava de aprender. Sempre gostou. Abria-se um novo universo, completamente diferente dos anos escolares anteriores. Sentia-se adulta e rodeada de adultos. Havia excitação e nervosismo e medo.

 - Olha, sabes onde fica a sala onze? – ouviu atrás de si enquanto espreitava o placar dos horários.

Ao virar-se, para responder, estacou, queria responder e não saía som nenhum, o coração quase saltava pela boca, de tanto bater. Não conseguia raciocinar, não conseguia ouvir, só conseguia olhar para a rapariga que se encontrava à sua frente. Um rapaz que estava ao lado prontificou-se logo a indicar-lhe o caminho e ela agradeceu-lhe com um sorriso. Ai, que sorriso! Ainda ficou assim longos segundos, parada, a ver o par a afastar-se.

- Eu também vou para sala onze - balbuciou por fim.

Ninguém ouviu, ela própria não se ouviu. Foi um reflexo. E, neste complexo estado de alma, com a cabeça a girar, ainda sem compreender muito bem o que acontecia, caminhou feito um autómato para a referida sala.

 

As semanas passaram e os laços de amizade com a sua nova amiga iam-se fortalecendo. Eram inseparáveis. Partilhavam as suas ideias, os seus conflitos, estudavam juntas, opinavam sobre os rapazes…Bom, nesta parte havia muitos constrangimentos, disfarçados a custo…Como dizer-lhe? Cada dia que passava com ela aumentava o desejo de a abraçar, beijar, tocar… Chegava a doer o peito e, muitas vezes, o seu sexo latejava ao mesmo ritmo que as suas desenfreadas batidas cardíacas… Como dizer-lhe?

 

O dia da pior notícia que poderia ouvir chegou. “Eu e o João começamos a namorar!” Quando tinha acontecido isso, que não tinha dado conta? O João? Esse mentecapto! Esse bruto! Só de imaginá-lo a beijá-la, sentia-se tonta, enojada, revoltada. Quando é que aquela criatura iria tratá-la com a doçura e o carinho que merecia? Não podia aceitar tal coisa… Tinha que contar-lhe… Dizer-lhe que a amava tanto que doía… Talvez também ela sentisse algo…

 

A mãe olhava a filha e sabia que ela não estava bem. Não conseguia chegar perto. Ela não deixava. Sofria por ela. Ultimamente estava ainda mais calada do que o costume. Não comia como devia. Fechava-se por longas horas no quarto. Por vezes ouvia-a chorar, queria entrar e abraçá-la e tirar-lhe o sofrimento, pedir-lhe que confiasse nela, que o que quer que fosse se resolveria. Porque tudo se resolve na vida.

 

O que é que vim fazer a este mundo? Que merda de vida! Quero morrer! Ninguém gosta de mim! Sou uma merda! Eram estes os pensamentos que passavam na sua cabeça ao olhar para a água, lá longe. Revivia também o olhar de medo da sua amiga/amada quando lhe confessara que a amava. Ela nunca mais lhe falou. Nunca mais a olhou. Agora, o desespero tomava conta dela. Olhou mais uma vez para baixo. Deu um grito e atirou-se.

 

Tudo isto foi revivido ali, pairando sobre a água, e percebeu que já não vivia.

 

"Mãe, desculpa! Tu tinhas razão, tudo se poderia resolver! Devia ter aceitado o teu colo! Devia ter confiado no teu amor incondicional! Como dói!" Começava a sentir-se perdida. E a melancolia apoderava-se da sua mente. “Falhei”, pensava, e julgou ver umas sombras a vir em sua direcção. Uma luz envolveu-a suavemente e ouviu uma voz na sua mente. Reconheceu-a imediatamente. “Agora vamos cuidar dessas feridas…Não te martirizes, haverá uma outra vez para tentares…”

 

Cris

(já tem uns anitos)

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D