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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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O Meu Herói*

por Cris, em 18.06.15

Era uma vez um anão que teve três filhos: o Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, tão pequeno que casou e foi viver dentro de um sapato n.º 32. Bicas, o irmão do meio, assim conhecido por tirar as melhores bicas do país, morava em cima de uma máquina de café: um loft luxuoso com aquecimento central. Era solteiro e tinha já uma fortuna considerável. O pai anão estava sempre a perguntar-lhe quando casava, mas Bicas gostava da sua vida de bon vivant. O monstro das bolachas…

- Um momento!

- Sim?

- Queres explicar-me para que metes o monstro das bolachas agora?

- Venerando Narrador Omnisciente, ia falar do Becas que me faz lembrar os Marretas, ou seria a Rua Sésamo? Isso não interessa nada. Apeteceu-me meter o monstro das bolachas.

- Mas isso não está de acordo com a sinopse que nos foi dada.

- Venerando Narrador Omnisciente, não queria ter que o lembrar que nós, Narradores Inconscientes, ainda temos uma certa liberdade criativa. Vem no n.º 3 do artigo 10.º do Código dos Bloguistas.

- Pronto, fantasia lá à vontade!

- Aonde é que eu ia?

- No monstro das bolachas.

- Ah, sim. Isto porque queria falar do Becas, o herói desta história.

- Ai, esta história é de heróis?

- Não é de heróis, é do herói!

- Hum,

- Venerando Narrador Omnisciente, vê algum inconveniente nisso?

- Não, não, continua, que esta conversa já se alonga.

- Muito bem. Becas, o irmão mais novo, era um intelectual sonhador. Morava numa estante de livros e tinha como função afastar os bichos do papel e os ácaros. Era amigo das aranhas e tinha um acordo com elas, deixando-as fazer teias dentro de determinados limites, o que protegia os livros de outros bichos.

- E pronto.

- Desculpa lá, mas que raio de herói é esse?

- Venerando Narrador Omnisciente, é o meu herói!

- Santa paciência…

:p

 

* Este texto já tem uns anos e foi escrito para um desafio de um blog.

Na alvura da tua pele me perco VII

por golimix, em 04.06.15

abolição.jpg

Continuação daqui

 

Alice tentava assimilar o facto de Marco ser o namorado que Flor tanto falara. Durante o jantar que fora oferecido aos dois esteve sempre calada. Queria ter uma oportunidade de falar com Marco a sós para averiguar o que é que Flor sabia sobre ele e o seu passado. Mas a oportunidade não surgiu, teria que esperar para depois.

 

Os dias foram passando até que surgiu, sem ser procurada, a hipótese de falar com o seu amigo. Estavam os dois sozinhos na cozinha enquanto Flor fora buscar um xaile para saírem.

- Marco, diz-me, o que sabe Flor sobre ti? - Indagou em surdina mas mesmo assim fez estremecer o seu interlocutor ao ouvir aquele nome.

- Por favor, já te disse que sou Maurício! Nunca mais me chames esse nome! Não aqui! - Marco deixava transparecer as lembranças que o seu nome lhe traziam.

- Já percebi... ela não sabe nada. Tens que lhe contar se o que sentes por ela é sério!

- Eu sei. Mas não tenho coragem e quero esquecer... esquecer o que que me atormenta. Se eu pudesse.... - Marco tinha o olhar distante

- Se tu pudesses o quê? - Alice adivinhava-lhe os pensamentos

- Se eu pudesse libertaria todos os meus irmãos das mãos do teu pai!- Olhou-a, parecendo que desse olhar saíam punhais! - Desculpa Alice....

- Não. Não peças desculpa... eu também penso nisso... - Disse Alice baixando o olhar - Vamos a tantas reuniões que falam sobre abolição e nada fazemos!!!

Marco ia continuar mas teve de calar-se pois Flor entrava radiosa e sorridente na cozinha.

 

Aquela pequena conversa plantou uma semente nos pensamentos dos dois. Alice e Marco combinaram um encontro dias depois num dos muitos jardins da cidade. Escolheram para o efeito um mais recolhido. Marco tomou a palavra sem grandes demoras

- Alice tenho que voltar. Tenho que tirar a minha mãe dali e os meus irmãos daquele sofrimento. Eles merecem ser livres! Eu sinto cada chicotada que sei que eles estão a sofrer. - Marco cerrava os dentes após ter terminado a frase

Alice, com o olhar turvo pelas lágrimas que teimavam em existir, assentiu - Também penso neles e na minha culpa por os ter abandonado. A minha presença talvez travasse um pouco a ira do meu pai. Se bem que ultimamente....

- Desculpa Alice, eu sei que aquele homem é teu pai, e só por isso prometo-te que não lhe tocarei. Mas farei o que for necessário para abrir as portas daquela senzala. E já tenho duas pessoas interessadas em ajudar.

Alice arregalou os olhos. Percebeu que Marco havia transformado os pensamentos em ações e um plano começava a surgir. Ela também iria. Conseguiu convencer Marco, após muita discussão, que iria expurgar a sua culpa dessa forma. Teriam, antes de agir, de vigiar atentamente os hábitos dos guardas da senzala. Alice sabia que o pai costumava manter duas pessoas de guarda à noite. Embora um deles deixasse levar-se pelo sono para depois deixar que o companheiro de vigia descansasse por sua vez. Mas estavam os dois juntos, caso fosse necessário algo. A casa dos guardas ficava algo afastada da senzala mas mesmo assim não longe o suficiente para não ouvirem caso fosse dado o alarme. Teriam, pois, que eliminar aqueles guardas. Um dos amigos de Marco iria na frente para se inteirar de tudo e estudar a melhor forma de agir, mais tarde encontrar-se-iam todos para estabelecer a função que cada um teria.

 

O tempo foi passando e aproximou-se com passo de lebre o dia combinado para a partida de Alice, Marco e o outro amigo deste. Alice estava tão agitada e distante, à mesa de refeição ao jantar, que o seu tio acabou por sobressalta-la com uma questão.

- Recebeste alguma carta da tua mãe? - Alberto olhava-a atento e Beatriz, que notava algo diferente na sobrinha, também a olhou.

Alice estremeceu - Não... não, mas porquê?

- Porque te vejo nervosa e achava que a minha irmã te tinha escrito a contar algo sobre a fazenda que te apoquentasse. - Alberto introduzia um pedaço de feijão à boca, desviando momentaneamente o olhar da sobrinha.

Isso deu a Alice uns pequenos segundos para se recompor. Tinha de forçar-se a acalmar - Ó tio.. sabeis que a minha mãe me preocupa e por vezes penso nela e em como estará.

Alberto pousou os talheres e limpou cuidadosamente os lábios antes de continuar - Minha querida penso que será altura de lhe fazermos uma vista. Há muito tempo que não vamos à fazenda. Tens razão. É injusto para contigo e a tua mãe. Mas infelizmente a enorme distância que nos separa e o meu trabalho não têm deixado que tal visita se proporcione. Mas irei tratar de tudo para que brevemente possamos ir à fazenda. Agora, por favor come este quindim que Anastácia fez que deve estar uma delícia e dá um sorriso - Alberto olhava-a sorridente.

Alice correspondeu ao seu sorriso. Como seria bom que o seu pai fosse assim...

 

A noite chegou e quando todos dormiam Alice esgueirou-se do seu quarto. Abandonara os seus longos vestidos e trajava como se fosse um homem. Calças pretas e uma camisa escura para se misturar com as cores noturnas. Apanhara o cabelo numa única trança e cobrira uma capa pelas costas com um capuz para ocultar suas feições femininas.

Marco já a esperava no ponto acordado por ambos, com dois cavalos, e o seu amigo, Joel, já montava o terceiro animal. E dali saíram todos a galope. Teriam ainda muito caminho para andar. Antes de libertarem os irmãos negros teriam de se encontrar com o segundo amigo de Marco, o Xavier, que os esperava num casebre abandonado, outrora a casa de alguém, e que ficava bem afastado da fazenda. 

 

As horas naquela noite, e dia seguinte, passaram devagar e os três cavaleiros nada falavam. Engoliam as palavras junto com o medo que algo corresse mal. Chegaram ao casebre já noite alta. Xavier esperava-os alerta. Naquela noite o sono foi premiado com agitação. Tinham de descansar pois esperava-os uma tarefa nada fácil! Quando Alice acordou já os três rapazes estavam a pé e conversavam em surdina fazendo riscos no chão. Aproximou-se e percebeu que falavam do ataque à fazenda do seu pai! O seu coração bateu mais depressa. Tentou sossega-lo e sentou-se junto de Marco e serviu-se do pão que este lhe estendeu.

 

O plano, apesar de perigoso, não parecia complicado. Além disso, Xavier tinha conseguido avisar uma das negras da fazenda que vira na cidade a carregar mercearia para uma carroça. Os seus irmãos estava à espera! Tinham, pois, que calar os dois guardas à entrada da fazenda, para poderem ter acesso até à senzala. Aí teriam de anular mais dois vigilantes. Tudo teria que ser feito com o maior silêncio possível! Nenhuma arma podia ser disparada para que não fosse dado o alarme! Depois abririam as portas da senzala e, enquanto Joel e Xavier ficariam de vigia à casa dos guardas, Marco e Alice fariam sair todos dali até à orla da fazenda e daí seguiriam para o quilombo mais próximo. Os cavalos já os esperavam no mato, num ponto estratégico, para transportar os mais idosos e crianças. O resto seguiria a pé. A liberdade dar-lhes-ia força! Contavam que na Senzala estivessem cerca de 20 pessoas, crianças incluídas. Não sabiam se iam ter tempo de avisar Dôdo e quem estava na cozinha e isso estava a ser difícil de aceitar. Mas achavam que por um bem maior valeria a pena soltar a maior parte das pessoas. Mais tarde se veria o que fazer com Dodô, Mãe Jurandi e Miká.

 

 Chegou a hora de agir e com ela a apreensão de Alice agravou-se. Nada mais natural. Ela temia sobretudo pela mãe e pelas escravas da cozinha, assim que seu pai percebesse o que havia acontecido. No seu íntimo ela sabia que seria impossível ir buscar a Dôdo. A menos que ela tivesse sido avisada!

 

Fora fácil derrubar os guardas da entrada. Depois disso, os quatro seguiam numa mescla com a escuridão e em silêncio até à senzala. Aí seria o ponto mais crítico!

Quando o branco das casas se distinguiu na obscuridade, quais felinos prontos a atacar a sua presa, rentes ao chão, avançavam para posicionarem o ataque. Afastaram-se... não viam os guardas! Como é que a senzala estava sem guardas!?!

 

Alice estremeceu ao sentir-se agarrada pelo pescoço! E tudo se passara muito rápido a partir daí! Alguém lhe segurava os pulsos atrás das costas e lhe impedia qualquer movimento, sentindo o pescoço apertado com um braço musculado não conseguia emitir um pequeno aviso que fosse.

Pelo canto do olho viu que Marco lutava contra dois homens sem sucesso. Foram traídos! Estavam à espera!

 

O seu corpo frágil e feminino não suportava a força desmesurada que usavam sobre si. Eram arrastados, ela percebia que os levavam até onde estava o tronco da tortura. O que lhes iriam fazer? Onde estaria o seu pai? O que faria quando visse que a sua própria filha estava ali?

 

No largo estavam já erguidos quatro troncos. Definitivamente foram traídos! Mas quem faria isso?

 O seu pai, Paes de Andrade, imponente e arrogante como sempre, ordenou que os obrigassem a ajoelhar no chão. Queria olhar nas suas caras para ver quem tivera a ousadia de o enfrentar. Mas antes mandara ir buscar o "outro".

O outro? Mas quem, se não havia mais ninguém com eles?

Arrastado por dois guardas surgiu Victor! Ele que trabalhava com o seu tio Alberto há anos. Porquê?

 

O grande senhor de escravos soltou uma gargalhada quando o viu, espancado e desorientado.

- Pensavas que por denunciares os teus compinchas eu te deixava sair daqui sem provar da nossa hospitalidade para com os negros!!?

 

Fora Victor quem os denunciara e seguira. Mas porquê se dera a tanto trabalho?

 

Victor não lhe respondeu, estava muito mal tratado. Seguidamente Paes de Andrade dirigiu-se a Xavier, que tentou, infrutiferamente libertar-se das mãos que o empurravam e mantinham no chão. Seguiu-se Joel e Marco. Parou no Marco.

- Conheço-te não é? - E deu-lhe uma valente pancada acertando num ombro com um chicote curto e rígido - Afinal voltaste? Sentias saudades do meu chicote, ora diz lá? - E levanta outra vez a mão desferindo outro golpe que, desta vez, acertara no pescoço e Marco não conseguiu abafar um gemido. - Isso fez Paes de Andrade sorrir de regozijo.

 

Nisto um grito se fez soar.

- Pára!! Por favor, chega de tanto ódio! - Era a mãe de Alice, Sinhá Amália, que surgia acompanhada de uma Dôdo angustiada e de uma Miká espavorida.

 

Paes de Andrade virou-se e ordenou.

- Não te aproximes! Não te metas nestes assuntos! - levantou gorda e possante mão num sinal de aviso.

Amália não se deixou intimidar - Não me metes medo! Já não... Se quiseres podes colocar-me no tronco mas não serei mais conivente com isto! Não me calarei mais! Esse rapaz partilhou o leite com a tua filha e ... - Paes de Andrade cortou-lhe a palavra e do nada estava perigosamente próximo dela. Dôdo tentou proteger a sua Sinhá mas foi prontamente afastada pelo patrão, e com tal violência que caiu desamparada no chão! - Amália deixou de olhar para o marido e tentou socorrer a amiga negra, mas um puxão dado no seu braço obrigava-a a levantar e enfrentar os olhos do patrão de escravos. Estava magra, débil, mas notava-se que possuía uma força poderosa, que entretanto, também encontrara a liberdade.

- Queres ir para o tronco sua vadia? Queres ser amiguinha dos negros? Pois serás um deles! Ponham-na no tronco para que comece já aprender a ser uma negra! - Disse virando-se para um dos seus guardas. A uma pequena hesitação deste Paes de Andrade, completamente enlouquecido, parte para cima dele e dá-lha novamente a ordem em tom ameaçador - Já!!

 

Alice que até então perdera a voz recupera o controle do seu corpo e grita com todas as forças

- Não!!!

 Todos os olhares se viraram para ela! Ninguém percebera que era uma mulher que ali estava! Além da capa, com o devido capuz, prendera cuidadosamente o cabelo  debaixo de um masculino chapéu de abas. Nada a denunciava.

 

A surpresa fora tal que os guardas que os agarravam relaxaram na sua força o que permitiu ao Joel, o mais forte de todos, libertar-se do seu carcereiro e tirar-lhe a arma. A partir daí gerou-se uma grande confusão de braços, murros, socos e pontapés. Mas tudo cessa quando se ouve o som de um tiro. Alice que também se libertara vê o seu pai apontar uma arma para Marco e ato contínuo coloca-se à sua frente amparando o tiro! Que, certeiro, a atinge no peito.

 

Ela cai e Marco consegue, aproveitando a surpresa de todos, amparar-lhe a queda. Afasta-lhe frenétricamente as roupas para ver o que pode fazer, mas nada pode ser feito, o sangue perde-se na alvura daquela pele branca...

 

Paes de Andrade que ficara estático fora desarmado. Levantou os olhos e com estes, raiados de sangue e ódio, viu que um negro lhe apontava a arma. Um negro da sua senzala! Mas como??!!

 

O homem, alto, musculado, e de voz forte saciou-lhe as perguntas que não foram feitas - Chegou a nossa hora! Chegou a hora de mandarmos! Queres saber quem nos libertou? - mas não esperou pela resposta e continuou - Miká conseguiu a chave na confusão e deu a liberdade aos seus irmãos! Liberdade que a sua filha nos ia dar! A filha que você, seu diabo, matou!

 

Paes de Andrade respondeu inchando o peito, nunca perdendo a pose - Nunca! Nunca serão livres! Eu paguei por cada um de vós! Pertencem-me posso fazer-lhes o que eu quiser! - parecia não querer ver que estava a ser rodeado pelos negros mais fortes. Todos os seus guardas haviam sido derrubados e alguém, entretanto,  os fechara na senzala. Só restava ali ele para satisfazer a sede de justiça daquela gente.

 

Um dos negros grita.

- PARA O TRONCO!! - e todos respondem a uma só voz

- PARA O TRONCO COM O PATRÃO DE ESCRAVOS!

 

Alice já não tinha forças para resistir ao peso dos seus olhos. Não sentia dor, apenas cansaço. A mãe, alheia a tudo o resto, aproximara-se dela e ajoelhada no chão beijava-lhe a face.

- Minha menina, não me deixes! Resiste! - rogava Amélia.

Marco apertava Alice nos braços, ela tentou falar - Marco protege-a... - tentou articular mais uma palavra mas as suas forças abandonaram-na. O seu olhar, preso no de Marco, disse o que os lábios calaram.

 

Amália soltou um grito. Dôdo, que se encontrava ao lado, chorava copiosamente a morte da sua menina. Marco levantou-se, segurando Alice no colo, e abalando dali. Amélia deixava o marido entregue à sua sorte. Nunca lhe perdoaria!

 

Xavier e Joel seguiram Marco e aconselharam-no a que saíssem o mais rápido da fazenda. Foi aprontada uma carroça. Que levaria Marco, Sinhá Amália e o corpo de Alice, os restantes seguiriam a pé. Iriam buscar os cavalos e sairiam daquela fazenda onde o ódio e a raiva consumiam qualquer alma.

 

Amália afagava a filha, como se a vida ainda estivesse ali. Como se ela sentisse aquele afago. Não olhara uma única vez para trás. Paes de Andrade morreria espancado, naquela noite, às mãos dos negros que ele torturara.

Souberam, mais tarde, que Victor os havia denunciado por ciúmes de Marco e Flor.

 

Fim.

 

Finalmente.... Agora é a vez da Cris ou do Corvo. Por mim, prometo que tentarei para uma próxima ser mais sucinta nos meus contos!!!

 

 

 

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