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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na alvura da tua pele me perco - parte VI

por golimix, em 21.05.15

Peço desculpa a quem tem vindo a seguir a história, que sei que só são três ou quatro pessoas, mas importantes para mim, pela minha demora em continuar a história.

 

Continuação daqui

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Nos dias que se seguiram aquela reunião abolicionista, e que ficou a conhecer Maurício, as noite de sono de Alice eram muito agitas. Ela tinha que saber se Maurício era quem ela desconfiava. O irmão negro que ela perdera anos atrás.

 

Começou, sempre acompanhada por Flor, por aparecer algumas vezes no consultório do tio, com a desculpa, para não levantar suspeitas, por levar um bolo, ou um lanchinho para ele, já que trabalhava tanto...  Sempre que encontrava Maurício este aparentava um certo nervosismo. Cumprimentava-a sempre distante e formal, mas ela via em seu olhar aquilo que ele tão cuidadosamente tentava calar.

 

Um dia, num final de tarde, encheu-se de coragem e saiu de casa sozinha! Algo não muito visto naquela época. Mas ela tinha que saber! E para isso tinha de sair só. Vestiu uma roupas simples, que tinha tirado do armário de Flor, e envolveu-se numa capa preta, tento o cuidado de cobrir a cabeça com o capuz da mesma. Ninguém iria reconhecê-la.

Aguardou, escondida, que Maurício saísse do consultório do tio, e, imprudentemente, segui-o. Ele ia se afastando da cidade e ela também...

 

Alice, depois de muito andar, começava a achar que aquilo não fora boa ideia, mas já que tinha ido até ali, continuaria. Estavam agora perto de um conjunto de casas simples de madeira, todas seguidas e pobremente cosntruídas. Quando Maurício abrandara o passo... Alice já não tinha a proteção de edifícios para se esconder, estavam praticamente em campo aberto. Ele sabia que era seguido. Mas que interessava? Era para falar com ele que se dera a este trabalho.

Já junto dele viu fixá-la nos olhos.

- Menina Alice não devia estar aqui sozinha! Principalmente a estas horas! Venha, vou acompanhá-la a casa. - o jovem estava hirto, e transparecia alguma apreensão

- Não. Não vou enquanto não me disseres a verdade. És o meu Marco, não és? - Alice fora directa ao assunto, como seu costume, e cruzou os braços qual menina a fazer uma birra.

- Desculpe?! Não sei do que fala - Respondeu numa voz trémula - O meu nome é Maurício sabe-o bem. Não conheço nenhum Marco!

-Alice leva a sua mão ao braço dele e aperta-o, força-o a olhá-la, uma vez que ele evitava-lhe o olhar  - Eu sei que tens medo. Mas eu sou a tua amiga, a tua irmã de leite! Nunca te denunciaria.Preferia morrer!

- E eu preferiria morrer no seu lugar! - Dito isto, uma lágrima solta-se daqueles negros olhos e rebola por uma face com músculos contraídos.

Alice não precisou de mais nenhuma confirmação! Atirou-se nos braços do "seu Marco" e os dois liberaram anos de angústia por um destino que os separou prematuramente.

 

Marco segurou-a pelos ombros e afasto-a de si.

- Alice, por favor, serei sempre o Maurício, ouviste? - Estava sério e os seus olhos estavam vermelhos de chorar.

- Não te preocupes meu amigo. Nunca te poria em perigo - Disse limpando a face com as costas da mão.

- Agora vamos. Eu acompanho-te antes que alguém dê pela tua falta ou anoiteça.- Arranjarei maneira de te contar tudo, mas não nestas ruas. Aqui até as pedras da calçada têm ouvidos! Por isso, não me faças perguntas. Não agora.

 

Alice concordou. O mais importante do que precisava saber já o sabia. Marco não estava mais perdido para ela.

 

Dias depois, Marco conseguiu esgueirar-se do consultório do Tio Alberto, e sob o pretexto de buscar um livro ao escritório da casa do mesmo, conseguiu finalmente o encontro esclarecedor com Alice.

Ele e o seu pai, Justino, tinham fugido para um quilombo no meio do mato. Tinham sido bem recebidos mas o seu pai não se dera bem. Começou com febres que tanto vinham como iam. Começaram a achar que era por estar ali, fechado e rodeado de mato por todo o lado. Numa de suas melhorias resolveram, ele e mais três negros, aventurar-se até uma cidade maior. Sabiam que se preparava uma revolução e queriam estar à frente dela. A viagem foi horrível para o seu pai, já que estava fraco, e ele piorou. Conseguiram chegar à cidade mas o seu estado já não lhe permitiu aguentar muito tempo. Pouco depois faleceu.

 

Marco como que fora adoptado por dias negras vendedoras de legumes, que o ajudavam. Conseguiu emprego como carregador, varredor, enfim, fez de tudo um pouco. Mas o seu porte elegante, e o facto de saber ler, conseguiram o emprego junto do seu Tio Alberto, por pura sorte! Quando este foi visitar uma doente nas casas de madeira. O seu tio fazia serviço gratuito imensas vezes, e conheceu uma criança que acompanhava a mãe na venda de legumes, cuja respiração não lhe agradava, a partir daí começou a consultar a menina cujo estado casa vez inspirava mais cuidados. Essa era a casa de uma das mães adoptivas de Marco. Este vendo o tio de Alice atrapalhado com o trabalho,  e como forma de pagamento, ofereceu-se para ajudá-lo e daí até à oferta de emprego foi um instante.

 

Alice também lhe falara sobre a sua mãe, a Dôdo, e contara como o pai dela se tornara o pior fazendeiro para os escravos.

 

O tempo foi passando, Alice e Maurício tinham cuidado para nunca serem vistos a conversar, muitas vezes encontravam-se nas reuniões, cada vez mais fervorosas sobre abolição e ocasionalmente o tio Alberto convidava-o para beber um licor no fim das mesmas.

 

Mas nada fazia esperar a notícia que espantou Alice. Flor andava feliz desde há uns dias e já todos sabiam que ela o motivo seria um jovem e não tardou até que a mãe dela, a cozinheira Anastácia , o quisesse conhecer. Beatriz oferecera-se para que o jantar fosse em sua casa. Afinal Flor era a melhor amiga da sobrinha e todos gostavam da jovem negra despachada e alegre.

 

Quando Flor o acompanhou até à sala Alice nem queria acreditar no que seus olhos viam. Era Marco, ou Maurício, que estava às sua frente!!!

Será que Flor sabia a verdade?

 

Meus incautos leitores, que um dia vos lembrastes de ler o que eu escrevo, já sabeis que não consigo abreviar histórias. Por isso, lamento, mas

 

continua

 

O mistério da delícia de chocolate - Fim

por Cris, em 17.05.15

continuação daqui

 

Aonde é que íamos? Ah, sim. Bitaites combinou seguir a sua amiga Guilhermina a ver se percebia o seu apetite repentino por delícias de chocolate às segundas, quartas e sextas. E, durante uma semana de trabalho, foi seguida e observada. No fim, Bitaites analisou os dados que havia apontado e descobriu o mistério. Telefonou a Guilhermina e foram comer um gelado à Spirito.

- Guigui, já descobri tudo!

- Então, Bitas, conta lá o que descobriste.

- É simples: às segundas, quartas e sextas passa um pai com a filha pela mão, levando-a à escola. Isso traz-te memórias do teu próprio pai e, por causa dessa emoção, sentes compulsão para comeres algo doce.

- Mas como é que chegaste a essa conclusão?

- Lembrei-me de um livro que me descreveram há pouco tempo e que ando a tentar arranjar. Chama-se "Overcoming Overeating: How to Break the Diet/Binge Cycle and Live a Healthier, More Satisfying Life", de Jane R. Hirschmann e Carol H. Munter, e fala da influência das emoções quando comemos. Agora que sabes a razão da tua compulsão, ser-te-á mais fácil conseguires controlá-la.

Fim

 

Nota da autora: o açucar cria habituação, pelo que também é necessário ter isso em conta. Não esperavam por este final pois não? Eu sou mazinha!

O mistério da delícia de chocolate - Parte II

por Cris, em 14.05.15

continuação daqui

 

Guilhermina (sim, esse é o nome da nossa heroína) começou a dissecar a sua rotina diária, à procura de uma resposta para o seu dilema. Mas não conseguia descortinar o que estava por trás da sua compulsão para a delícia de chocolate só em determinados dias. Em conversa com o seu amigo Bitaites (cujo verdadeiro nome era Etelvino), ao descrever a génese do seu problema, ouviu a seguinte sugestão (bitaite, portanto):

- Se fazes a mesma coisa todas as manhãs, o busílis da questão deve estar no percurso de casa ao trabalho. E tenho uma ideia...

 

E Guilhermina combinou que o seu amigo Bitaites haveria de a seguir, para observar o que se passava no trajecto de casa ao trabalho.

 

continua

O mistério da delícia de chocolate - Parte I

por Cris, em 11.05.15

Fazia, todos os dias, o mesmo percurso até ao trabalho. Cinco quarteirões a pé: uma sapataria, uma funerária, duas pastelarias e uma escola depois e chegava ao seu destino. Às segundas, quartas e sextas entrava pela Pastelaria Molotof e devorava uma delícia de chocolate até lamber os dedos. Às terças e quintas passava pelo estabelecimento sem vontade de comer o que quer que estivesse na montra apetitosa. Um dia, a Dona Idalina da pastelaria chamou-lhe a atenção para esse facto. E a nossa heroína começou a dar voltas à cabeça, tentando perceber o seu comportamento.

 

continua

Destino oculto, final.

por Corvo, em 08.05.15


Era a primeira vez, depois de há oito anos se ter definitivamente radicado no Canadá, - declarações gentilmente prestadas pela famosa escritora, - que visitava o seu país.
Infelizmente, compromissos inadiáveis com a sua editora e o cinema não lhe permitiriam permanecer mais do que umas duas horas no seu país. Apelava-se à compreensão dos fãs da autora e do público em geral para o tempo limite estabelecido para a sessão de autógrafos.
- Trá-la contigo. - Pedira-lhe a mãe dela, segurando-lhe as mãos - Trá-la.
“Trazê-la? Que sabia ele dela? O que os ecos da imprensa divulgava. A sua ascensão meteórica no mundo literário, que não se lhe conheciam relacionamentos sentimentais e que na companhia dos filhos, há oito anos adoptara o Canadá como seu país hospitaleiro .
“Trazê-la? A ela? Lembrar-se-ia ela, porventura, que um dia existira um Henrique na sua vida? Ela fora-se sem uma explicação, sem um adeus, sem nada. Fora-se, partira para longe, simplesmente”
Ao fundo do salão onde a sessão decorria, oculto por uma coluna, extasiava-se na contemplação da belíssima figura feminina, que sorrindo encantadora, ia distribuindo autógrafos e gentis palavras de simpatia entre a multidão que a afogava.
O imenso salão do grande hotel, pouco a pouco ia-se esvaziando de mundo e a pressa com que a sua agente se lhe dirigia, e os gestos de concordância que ela fazia com a cabeça, explicitavam o curto tempo que lhe restava. Com alguma pressa que não tentava esconder, levantou-se e viu-o à sua frente, estendendo-lhe o seu romance.
Foi devastador. Empalideceu intensamente, cambaleou e voltou a cair sobre a cadeira.
- Desculpa, Clara; não te roubarei muito tempo. Assinas o teu livro, por favor?
- Henrique, - balbuciou sem ver o livro pousado na sua secretária, esperando a sua assinatura. - Henrique, eu, tu…Henrique.
- Boa noite, Clara. Desculpa o incómodo, sei que estás com pressa. Assinas, por favor?
Os belíssimo verde, foi lentamente levantando-se para ele.
Ah! A voz indiferente, amarga com que se lhe dirigia, que os olhos embevecidos que ternamente olhavam para ela, desmentia.
- Não tenho muita. Falas um bocadinho comigo? Podemos ir até ao terraço. Queres?
- Não te podes demorar muito, Clara. Lembra-te que já tens pouquíssimo tempo para ti. - Chamava-lhe a atenção, a sua agente com ar de evidente preocupação.
- Vou já. Vens, Henrique, vens comigo?
Se ia com ela, Mãe Sagrada! Se ia com ela! Ah! O edifício que tão dolorosamente fora edificando ao longo dos anos, o coração que voluntariamente fora endurecendo e que julgava petrificado, toda a indiferença a que se forçara para a tirar de si, do pensamento e da sua alma, toda essa luta desigual contra a recordação de quem ela era, o que lhe trazia, o que com ela vivera, todos os sentimentos agrilhoados e que julgava bem aprisionados, afinal não passava de uma quimera, um projecto abstracto que aos simples olhos de uma mulher se desmoronara em pó. Se ia com ela?!
Depois falaram sobre…nada. Conversais banais, sem interesse, sem sentido, conversas de circunstância como se só agora se tivessem conhecido. Corações rebelando-se, sofrendo, exigindo.
“Oh, querido. Toma-me nos teus braços, aperta-me forte. Vê! Sou tua!”

Não! Não podia fazer isso. Ele já não era dela. Ela abandonara-o e ele fora para ela, Cristina. Um soluço do tamanho do mundo acompanharam-lhe as lágrimas escorrendo para dentro, afogando-lhe a alma.
A agente dela, de longe fazia-lhe desesperados sinais para que se despachasse. Com um triste sorriso olhou para ele, como que pedindo-lhe que compreendesse.
“Ah, perdi-te. Não és minha, nunca foste! Apenas como o desesperado náufrago que no alto mar agarra uma palha que seja que lhe permita uma ténue esperança de vida, assim, louco, julguei, pensei.”
- Tenho de ir, Henrique. Gostei tanto de te ver, de estar contigo. Mas, que indelicadeza a minha, desculpa: dá os meus cumprimentos à Cristina.
- Dou, sim, dou! - E quando ela já se afastava, - queres que te dê a direcção dela?. E do Daniel? Eles iam gostar de saber de ti.
Correu para ela quando a viu parar, vacilar e procurar apoio no espaço vazio, e tomou-a nos braços.
- Clara! Oh, Clara! - Com ela nos braços procurou com os olhos uma cadeira, um banco, alguma coisa em que a pudesse sentar, mas nada disso se encontrava por ali - Vou chamar alguém. Um copo de água!
- Não, fica, - estendia-lhe a mão. Que disseste tu? Diz, Henrique! Que me disseste?.
- O quê, Clara? Não sei, que te disse eu? Diz tu!
- Ela. Cristina, Daniel, direcção. Diz Henrique! - Atabalhoava-se, queria perguntar mas a ânsia que lhe que lhe explodia o coração, não lhe permitia ser coerente. - Onde está a Cristina?
- Está com o marido, o Daniel. Casaram quase logo a seguir a tu…a tu. - fez um esforço tremendo para calar a comoção, - Tu teres ido para o Canadá.
- Oh, Meu Deus do Céu! Oh, Henrique! Então tu, naquela manhã quando ela estava na tua cozinha, ela, tu, vocês…ela já namorava com o Daniel? Namorava?! Se casaram logo a seguir como tu disseste ela já namorava com ele. Namorava, não é, Henrique! - Muito mais do que perguntar, ela queria a confirmação do que indagava.
- Que manhã, Clara? Que manhã? - Debruçara-se ansioso sobre ela. Algo como uma aragem muito ténue, uma brisa suavíssima, vinha margeando o entendimento pedindo para ser escutada. - Que manhã, Clara? Que queres dizer? Fala, Clara, fala! Não vês que assim me desesperas?
- Naquela manhã quando eu vinha, eu vinha, quer dizer; a Cristina estava na tua cozinha a perguntar-te onde tinhas o café.
Ah! Naquela manhã! Recordava-se agora. Era isso! Ela viera. Que dissera ela? Viera?! Ela viera?!
- Sim, recordo-me agora. Eu sentia-me um pouco em baixo, e como também pensei que isso pudesse contribuir para os juntar, pedi-lhes que viessem passar uns dias a minha casa fazer-me companhia. Naquela manhã ela estava na cozinha a preparar café para nós todos. Ela eu e o Daniel que dormia ainda no quarto em que ela também dormira. Disseste que a viste naquela manhã?
Demorou algum tempo a responder. Parecia alheada deste mundo como se estivesse num universo paralelo, como se não conseguisse alcançar as coisas, ou que a felicidade fosse tanta que lhe  houvesse embargado a capacidade racional.
- Sim , Henrique, eu vi-a e e. OH Meu Deus! Que fiz eu. Que fiz, Henrique? - O pranto soltou-se e não conseguiu dizer mais nada.
Correu para ela e com o lenço percorrendo-lhe delicadamente a acerejada face, limpou-lhe carinhosamente as lágrimas. Inebriado de inefável felicidade, a sua boca secava enternecidamente aquelas lágrimas que corriam por ele.
- Clara, minha Clara, minha querida, minha vida, diz.
- O quê, Henrique? Eu digo! Digo o quê?
- Vieste cá naquela manhã. Porquê, Clara? Minha doce Clara. Porquê?
- Eu vim, eu vim, eu…sempre te amei, Henrique. Sempre! Tal como tu, sempre te amei desde criança, mas não sabia.
E aqueles dois corações feitos para viverem só num, encontravam-se finalmente e trocaram o seu primeiro beijo de amor.
- Clara, agora chega! - a sua agente irrompia deveras zangada. - Estão todos à tua espera. O senhor desculpe.
Do imenso abraço que a imergia, a sua voz soou transparente e cristalina .
- Assina tu tudo! Não assines nada! Cancela tudo!
“Ah, era bem dela. A sua Clara voltava” Sorriu abraçando-a ainda mais.
- Henrique, querido Henrique, leva-me para casa.
- Sim, Clara, minha doce Clara. Vamos para casa. Para a nossa casa.
Aconchegou-se nele, e partiram abraçados.
Fim.

 

Destino oculto 7

por Corvo, em 08.05.15

Uma semana passou sem que ele a procurasse, e ela por sua vez também não o procurara mais,. Agradeceu essa tomada de decisão por parte dela. Dissera-lhe o que durante tanto tempo o sufocara, libertara-se do tremendo fardo que durante todos esse anos carregara e sentia-se liberto, livre como o prisioneiro que se liberta das correntes que o agrilhoaram. Agora ela sabia e nada mais poderia fazer do que esperar a decisão que tomasse.
Quando, mentindo à sua consciência com o pretexto de umas assinaturas que o pai dela deveria assinar se dirigiu a casa dela, soube pela mãe dela, que dois dias antes a filha embarcara para Portugal. Afligiu-se primeiro, aliviou-se de seguida quando constatou que deixara os filhos com os avós e embarcara sozinha. “Ela vai voltar.” Exultou num arroubo de indescritível esperança. “Vai voltar”
Sairia de casa dos pais dela já tarde na noite, depois de ter passado toda a tarde a brincar com as crianças. A mãe dela acompanhou-o até à porta e ao franqueá-la, deteve-o e olhou-o com extrema meiguice.
- Henrique, sempre sonhei que casasses com ela. Nunca vi mais nada para ela, para vós. Tanto conversámos sobre isso, eu e a tua mãe.

 

Acedera a jantar com ele, acedera a que a levasse a casa dele, a casa que lhe dissera ser agora a de ambos.
- Vais gostar, Clara. É exactamente como a outra e decorei-a aos teus gostos. A nossa casa, Clara. A casa nossa e dos nossos filhos. Perdoa-me, amo-te. Dá-me uma oportunidade, uma só e farei tudo para seres feliz. Dedicarei toda a minha vida a fazer-te feliz. Juro, Clara. Estou tão arrependido. Vamos recomeçar, esqueçamos o passado e pensemos em nós, no nosso amor e nos nossos filhos. Amo-te tanto.
Veio delicada e meigamente aproximando-se dela. Ficou à sua frente, de voz suplicante jurando promessas de fidelidade eterna. Amo-te Clara, amo-te, amo-te; amo-te espalhando-se pela sala, inundando o espaço, repercutindo-se, eco trazido chocando com o som incessante. Amo-te, amo-te, amo-te…perdendo o sentido.
A boca dele procurando a dela, os lábios que se encostam, a boca que não se abre. “Henrique, Henrique, meu Henrique, meu amor”
Ela já não esta ali. Não sente a boca sôfrega que desvairada esmaga a dela, que força a  que ela se abra. “Henrique, onde estás, meu amor?”
Não! Empurrou-o afastando-o de si e com as costas da mão esfregando a boca, atravessou as dependências a correr e achou-se na rua.
Henrique. Um táxi, Deus do Céu.” Procura-o em desespero olhando para todos os lados, quase se precipita para a frente de um que é forçado a travar no limite, abre a porta antes de ele se imobilizar completamente e pede que a leve ao aeroporto. Se não podia, por favor, ir um pouco mais depressa.
“Henrique. Espera um pouco, meu amor. Só mais um pouquinho”
Eram seis horas da manhã, quando a chave foi nervosamente introduzida na porta da casa dele e precipitadamente rodada. Entrou afogueada e precipitou-se para as escadas que levavam ao quarto de Henrique, mas da cozinha deteve-a a voz alegre da Cristina, em timbre elevado para se fazer ouvirconvenientemente.
- Onde disseste que está o café, Henrique? Não o vejo.
- Na prateleira ao alto do lado esquerdo. Procura bem que vais encontrar.
Como que atingida por um raio de enorme potência, cambaleou e ia cair, mas a parede amparou-a. O tecto rodopiou por cima dela, sufocou-se e abriu a boca procurando inalar o ar que lhe faltava, o cérebro recusando-se a aceitar o que vira. Cristina, de robe, alegre e feliz, às seis horas da manhã procurando café na cozinha dele, rindo e galhofando com ele esperando, indubitavelmente, que ela lho servisse no quarto, ...no quarto.
Sentiu o mundo desabar e um soluço que atabafou com as duas mãos levadas a boca, despedaçou-lhe o coração.
Sentada e apoiada à parede, dobrou-se sobre si mesma levando as mãos comprimindo o peito pela dor lancinante do punhal que lhe rasgava o peito, aprofundando, rasgando. Levantou-se e sempre apoiando-se a parede, foi quase rastejando que saiu dali como pôde.
- Henrique! O matabicho, ( pequeno-almoço ) está quase pronto. Vai acordar o Daniel.
Do outro lado da porta, ela já não ouviu.

Oito anos depois.

A famosa escritora Maria Clara de… com oito best-sellers traduzidos em mais de trinta línguas, seis adaptados ao cinema, vinha a Angola, seu país Natal, fazer o lançamento do seu último romance .
A imprensa mobilizou-se e medidas de segurança foram tomadas a fim do esperado evento, amplamente divulgado pela imprensa europeia e africana, tivesse o sucesso esperado.

 

 

Segue o final dentro de momentos.

Destino oculto 6

por Corvo, em 07.05.15

Nessa noite, quase um ano depois dela ter regressado, encontrava-se sozinho em sua casa. Passara o fim de tarde com ela e com os amigos e ao cair da noite levara-a a casa dela.
Não se sentia particularmente bem nessa tarde, dissera-lhe ela. Não adiantara mais nada e ele nada mais indagara Deixara-a na casa dela e viera ele para a sua, onde agora, preso de inexplicável preocupação, se interrogava do porquê? Por que se sentia assim tão estranhamente desinteressado, apático como quem não compreende o porquê das coisas nem da vida, como se do mundo estivesse alheio ou nem nele habitasse? Assim, estando ali por estar, olhar sem ver, escutar sem ouvir, falar sem saber. E sobretudo, porquê esse inexplicável receio de sabia lá o quê. Uma estranha  sensação de irrealidade.
Ela mudara. Os seus prolongados silêncios angustiavam-no. Sentia-a como que mais distante, mais longe de si. Como se de um sonho se tratasse em que algo que sempre se desejou intensamente esteja ali ao alcance de uma mão e quando finalmente se alcança, o corpo separado da nossa vontade não nos obedece prendendo-nos ao solo e vemo-lo afastar-se, mais e mais e dissipar-se num horizonte inalcançável.
Lá fora a chave rodou na fechadura, e ela entrou. Viu-o ali parado dentro da sala e, estranhamente, quase nem se admirou.
- Henrique, o André, ele… ele…quer falar comigo. - Como se o esforço tivesse sido demasiado, mais do que se sentar, deixou-se cair sobre o sofá.
Ainda não lhe dissera nada, nem aos pais nem aos amigos, mas desde há uns meses que o André entrara em contacto com ela. Jurara-lhe arrependimento, que não podia viver sem ela nem os filhos, que lhe perdoasse a loucura, nunca mais aconteceria. Via agora como a amava, sempre a amara mas uma vez acompanhara uns amigos ao jogo, perdera e na ânsia de recuperar o perdido voltara lá. Perdera novamente e perdera-se a si mesmo. Emigrara, trabalhara intensamente e com a ajuda do pai conseguira pagar as dívidas e ainda lhe sobrara algum, mas precisava dela e do seu amor para seguir em ,porque sozinho não era ninguém. Que lhe perdoasse, estava mudado e que lhe desse uma segunda oportunidade. Tinha perdido muito naquela noite, estava bêbedo e nem soubera como acabara na cama dela, mas jurara-lhe que nunca mais se repetiria. Fora só daquela vez e nunca mais a vira, nunca mais a quisera ver. Pedia-lhe que fosse ter com ele, por favor, apenas como amigo e pai dos filhos dela. Nada exigiria, mas por favor, que fosse e lhe desse a oportunidade de falar com ela e beijar os filhos.
Contara tudo de rajada como quem tem pressa em explicar o que pretende justificar. Depois, manteve-se silenciosa.
- Clara, vais ter com ele, não é? Voltar para ele, é isso? - A sua voz era calma, pausada, triste.
- Não sei, - balbuciou. - Só vou conversar com ele.
- Voltas para ele, Clara. Porquê?
- Eu não disse isso. Não me ouviste? Só vou conversar com ele. - Sem ela mesmo compreender porquê, a sua entoação soara agressiva.
- Voltas; Clara, voltaste para ele. Nem sequer colocaste a hipótese de não ires, de recusares. Vais sim! Por isso reitero. Porquê?
- Não sei. Ele é, ele é…o pai dos meus filhos. - Suspirou como quem se alivia de um peso incomodativo.
- Ama-lo? - Ela baixou a cabeça e não respondeu. - Responde, Clara. Ouviste-me! Ama-lo? Ainda o amas?! É isso?! … Responde!
Por… por que não se surpreendia? Aquela inflexão de voz, aquele tom bem timbrado, calmo, firme, seguro de quem tem a certeza de que sabe o que diz. Aquela entoação que só a certeza da verdade, permite. Nunca lha ouvira.
- Eu, eu, …não sei.
- Amas! Amas aquele homem que te traiu? Que não te respeitou? Qte atraiçoou? Aquele homem que com a tua amiga te desrespeitou. Amas?! É isso que me estás a dizer, Clara?!
- Ele … estava bêbedo naquela noite. Vê! Nunca mais se encontraram. Até emigrou, ele…
- Que estás a dizer, Clara! - Interrompeu-a quase com brusquidão. -É verdade o que acabo de ouvir? Tu…ama-lo? Ainda podes amá-lo depois de tanto te ter humilhado?
- Pediu-me perdão e eu…
- Cala-te! Não te humilhes mais. Onde está a criança traquinas e desobediente? A rapariga arrogante e dona da sua vontade? Onde está? Onde está a mulher decidida e responsável? Onde estão todas as que em ti conheci? Amas?! Amas o homem que te desrespeitou e envergonhou? Onde estás tu, Clara? Onde está a Clara que conheci?
Sem responder, ela afundou a cabeça no peito, e ele soube que chorava. Nada fez para a ajudar. Após um longo silêncio, a voz dele, calma onde uma inequívoca mágoa se entendia, quebrou a quietude há tanto tempo instalada
- E eu?
Levantou a cabeça, e os olhos humedecidos fitaram-no sem compreender.
- Tu…Tu o quê?
- Eu, Clara. Eu que te amo.
- Amas?! Amas quem?! - Esbugalhou o imenso verde olhando-o surpreendida como se não compreendesse, ou o cérebro se recusasse a processar o que ouvira.
- A ti! Amo-te, sempre te amei.
Abriu a boca, tentou falar e balbuciou alguns sons ininteligíveis. Levantou-se de supetão, correu para ele e com as mãozinhas cerradas lá em cima golpeando-lhe o peito, extravasou o que o que o instinto lhe ditava e a inteligência recusava:
- Estúpido! Por que nunca mo disseste?! - Caiu em si e com o peito sacudido por soluços, voltou a deixar-se afundar no sofá. E numa voz sumida e chorosa, as palavras saíram-lhe dolorosas. - Não me podes amar, não nos podemos amar. Somos como irmãos.
- Mas não somos! - Soltou num grito de alma. - Não somos! És a Clara, a Clara que sempre amei. A Clara que me despedaçou o coração desde criança! A Clara, a razão de toda a minha vida! A Clara que não é minha irmã, não quero que seja!
Ela não respondeu e ele também não. Imersos em profundos pensamentos, ele pediu-lhe que deixasse ali o carro dela que a trouxera e foi no dele levá-la a casa. Não pronunciaram uma palavra durante o percurso, e um olhar intenso trocado entre ambos, foi a despedida

continua..

Destino oculto 5

por Corvo, em 07.05.15

Depois soube as coisas; sabê-las-ia . Ela estava ali. Não lhe falava em regressar, nos seus objectivos, projectos, presentes nem futuros; estava ali, simplesmente. E ele agradecia ao destino o ensejo que lhe permitia a suprema felicidade de usufruir da presença querida. Estava ali com ele, com os amigos como se nada se tivesse passado, como se o acontecido não tivesse existido, como se por passe de magia o tempo tivesse parado ou que por mistério inexplicável, numa viagem regressiva tivesse viajado no tempo a um passado não tão distante quanto isso.
Clara, a sua Clara, toda a razão da sua existência, estava ali com ele. Esperaria, Deus do Céu! Já tinha esperado tanto, esperaria um pouco mais. Esperaria todo o tempo do mundo que a vida lhe permitisse viver, mas não agora. Não se aproveitaria da sua fragilidade para lhe declarar o seu imensurável amor, aquele amor que mesmo não o sabendo ainda definir na sua essência, fora, contudo, a força que sempre o levara para ela, que sempre o arrastara para ela desde a primeira vez que a vira aos quatro anos de idade.
“Henrique, viste a tua irmã? Sabes dela? Não queres ir ver onde está a mana?”
Não é minha irmã, nunca foi, não quero que seja! É a Clara! A Clara que me irrita, que faz tudo ao contrario do que eu digo”
A Clara que se metia em tudo, que mudava a meio do jogo as regras do berlinde, que voltava a repetir porque lhe falhara o dedo, a Clara que decidia que era golo com a bola a ser jogada no campo contrário, a Clara que nunca ele nem mais ninguém ganhara uma corrida do arco que não fosse ela, a Clara que não se preocupava em fazer os trabalhos de casa porque sabia que ele lhos faria, a Clara o terror de todos os rapazes do bairro, a fura-regras e estraga tudo.
“Henrique, vem ali a tua irmã. Não jogo mais”
“Ficas aqui, não ficas, Clara?”
“Fico! Quem é que está a ganhar?”
“São eles”
“Ah, então também quero jogar. É penálti, não viste que é penálti?”
“Não é nada, ele é que escorregou”
“É que eu vi que é! O meu irmão vai marcar”
“ Não sou teu irmão, não és minha irmã. És a Clara, a …minha Clara”

    - Não sabia. Ele dizia que ficava a trabalhar e andava no jogo. Só soube quando a ordem Judicial me disse que a casa estava hipotecada. A minha casa. A casa que os meus pais me deram quando fui estudar para Portugal e fiquei sem ela. Nunca pensei, Henrique.
   - Todo o mal fosse esse, rapariga. Dou-te outra. - confortava-a o pai, tentando dissipar para longe o desânimo da filha.
   - Mas até passava. Amava-o tanto e jurou que estava arrependido e que nunca mais jogava, quando soube que andava metido com a mulher de um tenente, um casal nosso amigo que frequentava a nossa casa e nós a deles. Uma amiga minha.
   - Nunca devias ter casado com ele. - A virtude de tolerância da mãe não era propriamente a do pai - Avisei-te! Tanto te avisei, tanto fiz força para não o ouvires, mas tu nunca ouviste ninguém. Sempre fizeste as coisas pela tua cabeça.
   - Amava-o! Ficas com os meninos, mãe? Henrique, vamos ao cinema? Passamos pela casa da Cristina e vamos ver o Doutor Jívago? Dizem que tem uma música tão bonita.
   - Vamos! Porquê a Cristina?
   - Por nada. Pensei que gostavas dela, só isso!
   - Não gosto. Quem gosta dela é o Daniel. Tu sabes isso, não sabes?
Por que se comprazia em magoá-lo?…Ou…Não?! E se não fosse para o magoar e pensasse sinceramente que ele gostava dela e fizesse tudo para o ver feliz?
Sim! Era isso! Conhecia-a desde criança, travessa, impetuosa, irreverente; inoportuna, vezes demasiadas, mas nunca mentirosa e sempre generosa e verdadeira. Queria sim que se sentisse feliz, não era culpada se o inverso acontecia.
Mas depois que desabafara com ele, na casa dela e na presença dos pais o seu desgosto e aquilo que lhe atormentava a alma, sentia, via-a muito mais solta, liberta e quase exuberante como antes .
“Amo-te, Clara, vou-to dizer. E vais amar-me também. Não pode, não é possível que tanto amor não tenha correspondência. Talvez te surpreendas um bocadinho, mas depois vais amar-me. Aliás, sei, sinto, vejo como que um pequeno envolvimento diferente nos teus olhos quando olhas para mim. Amo-te Clara! Querida, ama-me também, ainda que, só um bocadinho”
Continua.

Destino oculto 4

por Corvo, em 06.05.15

Foi ao casamento, seria o padrinho dela e depois retirou-se. Voltou a Luanda, conversou com os pais e foi para França tirar o curso. Recebia cartas dela ao ritmo de uma por semana onde lhe exprimia toda a sua felicidade, depois uma por mês e três anos depois deixou de as receber, de todo. Não forçou correspondência e respeitou o seu desejo. Se não lhe escrevia só lhe restava inclinar-se à sua vontade. Dois meses depois da sua última carta, decorridos três anos de incompreensível silêncio, era recebedor duma missiva dela onde lhe comunicava a sua gravidez, e nove meses depois a comunicação de que era mãe de duas crianças. Um menino e uma menina.
Ah! E deixara de exercer a profissão para se dedicar a tempo inteiro aos filhos.
Imaginas o que faço nos momentos que eles me deixam livre? Não te surpreenderás, seguramente, sempre me vaticinaste esse futuro. Sim, meu querido irmão, escrevo. Quero dizer, rabisco. Nem sei se terei coragem de apresentar os meus gatafunhos a um editor.
Beijo-te, querido irmão. Muitos beijos da tua irmãzinha que morre de saudades tuas
Nem uma palavra sobre as suas expectativas futuras, sobre o marido, nada. Só ela e os filhos.
Acabou o curso, voltou para Angola, abriu consultório e tornou-se um advogado de sucesso.
Dois anos depois, seis desde a última vez em que a frase sacramental, “Pode beijar a noiva” lhe desmoronara a derradeira esperança que hipoteticamente pudesse ter, ao chegar nessa manhã ao escritório, a sua secretária comunicou-lhe que tinha uma senhora muito bonita, - frisara com um sorriso de instintiva simpatia, o pormenor, - no seu gabinete, esperando-o.
- Linda, doutor. Não lhe conhecia essa cliente. Nem nenhuma de tanta beleza e classe.
- Disse o nome? - Indagou com ar indiferente
- Não, não disse. Queria falar consigo, apenas.
- E deixou-a entrar para o meu gabinete? Disse, ... que me espera no meu gabinete?
- Sim, foi o que ela disse, - respondeu, deturpando deliberadamente o sentido interrogativo - Que o esperava no seu gabinete.
- Sim, estou a ver. E portanto deixou-a entrar sozinha para o meu gabinete, onde, suponho, ainda estará esperando-me. Que isso me agrade ou não, é indiferente.
- Oh, não, doutor: ela disse que o senhor não se incomodaria.
Já não lhe respondeu e com semblante de real preocupação dirigiu-se para o compartimento, ao fundo do corredor. “Mulheres”, pensou depreciativamente, “tão responsável e eficiente e, disse que o doutor não se incomodaria” Pois ia ver se se incomodava ou não. Logo hoje que por sorte ou azar fora dar com uma foto da Clara, esquecida num livro que folheara. Bonita ou feia ia ela pagar a factura.
Com alguma brusquidão empurrou a porta, e quedou petrificado. Sentada na sua cadeira e reclinando-se num descontraído à vontade, a belíssima Clara recebia-o com o mais encantador sorriso. Antes que algum som pudesse articular, as alegres palavras acompanhadas do cristalino riso que lhe despedaçava o coração quando o recordava, soaram-lhe como a mais bela música jamais ouvida:
- Bonito gabinete, doutor; está-se bem aqui.
- Cla…ra. És…és bem tu?!
- Claro, mas…deixa-me ver bem. - Levantou-se e fingindo olhar para si mesma, examinou-se com ar divertido. - Sim, sou eu. Estou assim tão modificada?
Não respondeu, tão-pouco a ouvira. Sentindo-se flutuar num espaço de irrealidade, devorava a belíssima aparição. No mar encrespado em que as suas emoções se atropelavam, instintivamente uma réstia de raciocínio prevaleceu e melhor ou pior, alguma coisa disfarçou. Tentou compor um semblante normal, quando se lhe dirigiu.
- E que fazes aqui? Quando vieste? Onde estás? E os teus filhos? E o teu mari…ele, o André?
- Xiiii, tantas perguntas de uma vez só. Tem calma, rapaz. - O riso divertido dava-lhe toda a felicidade do Universo, mas roubava-lhe a quase inexistente calma que, porventura,  ainda lhe restasse.
- Cheguei ontem à noite, estou na minha casa, dos meus pais e deixei os meus filhos com a minha mãe para te vir visitar. Satisfeito, senhor curioso?
- Sim, Mas, e tu? Quer dizer, visitar-me…porquê? Não não, espera! - Ajuntou atabalhoadamente, - queria dizer, enfim….porquê?
Respirou finalmente, tendo concluído como principiara Ufa, saíra!.
- E o André, o teu marido? Não te acompanhou? - Ah! Agora que já se recompusera, com que naturalidade as coisas lhe ocorriam: e melhor! Como as exprimia. Congratulou-se vivamente com ele mesmo.
- Já não tenho marido, - entendeu-lhe mais do que nas palavras, num sussurro dorido. Depois, numa voz estrangulada pelos soluços, que malgrado o esforço que fazia para os tentar evitar eram perceptíveis para ambos. - Divorciei-me.
Lançou-se-lhe para os braços e desabafou o seu desgosto
- Meu Deus! Amei-o tanto. - Soluçou soltando as lágrimas.
Quereria ter correspondido aos seu abraço, abraçá-la fortemente contra o coração e entranhar-se nela, fundir os seus corpos num só e beijá-la loucamente, secar com a boca aquelas lágrimas que corriam livremente e gritar-lhe todo o seu louco amor mas, os braços que a receberam baixaram-se desalentados ao longo do corpo .
“Amei-o tanto” Ah! Não eram por ele que aquela lágrimas corriam, soltaram-se-lhe por outro. “Amei-o tanto” Fatalidade! Nunca seria sua! Amava-o ainda! Amá-lo-ia sempre.

As suas lágrimas confundiram-se com as dela, mas ela não se aperceberia.
Continua.

Destino oculto 3

por Corvo, em 05.05.15

Ainda se passariam dez dias de aflitiva angústia emocional para o terrível enamorado antes que o loiraço regressasse às origens, e na noite de véspera da sua partida fez questão de convidar, - com o beneplácito do papá, outro patego da mesma estirpe do filho, segundo profunda análise comportamental ajuizada pelo enamorado da bela Clara, - amigos e conhecidos, e alguns outros e outras rapazes e raparigas dispersos pelas redondezas circundantes.
Apareceu,… oh, surpresa inopinada! Um gira-discos e o tango e o Elvis causaram furor e devastaram corações. Bem; não teria sido tanto assim. Abalara alguns mas nada que não se recompusesse com uma lagrimita aqui e um suspiro desolado ali, e devastação avassaladora só mesmo o dele, Henrique, que nem por uma vez conseguira dançar com a deslumbrante Clara, a mais esfuziante estrela candente a iluminar a noite. André açambarcara-a e ela, por sua vez não se mostrara particularmente esquiva.
Para terminar a noite em beleza, o derrete corações de miúdas parvinhas, - ainda segundo o prolongamento analítico de caracteres perniciosos, do infeliz Henrique - propôs uma partidinha de poker entre amigos. Coisinha leve, a modos que como para desenfastiar.
Limpou-os a todos e ele, Henrique, rejubilou de bolso vazio mas de coração cheio. Ah! Sorte ao jogo? Tás feito, tratante albino.
“Vai, vai lá para Lisboa, para a tua santa terrinha dos parolos de onde nunca devias ter saído, meu patego albino e deixa as miúdas dos outros sossegadas. Forma-te lá na tua engenharia e vai construir estradas de jeito que aquilo é só carreiros de cabras. Estúpido!”
Mas, ela não ia também? Acabara o liceu, tinha dezassete anos e não estava destinado que iria para Portugal, para a faculdade formar-se em Direito, assim como ele mesmo já deveria ter ido há dois anos não fora a prolongada doença do pai que voluntariamente o fizera interromper os estudos para dirigir as empresas do progenitor? Afinal ele, esse malfadado branquinho de má morte, ia agora mas ela ia um pouco depois.
“Mas não!” Uma permitida pausa à sua atribulada alma. “Ela vai para Coimbra e ele está em Lisboa. Não têm por que se ver, ainda é longe. Ela vai esquecer, deve, … esquecer. Vai!”
“ E depois para o ano também vou lá estar, vou repreender os meus estudos e cursar direito como ela, em Coimbra e ao pé dela e vou-lhe declarar todo o meu amor, este gostar protector pela criança de quatro anos, exuberante e divertida, alegre e traquina que gradualmente se foi modificando para este sentimento avassalador que me enlouquece, transtorna e lançou a minha vida em eterno desespero. Casamos, fazemos as alegrias dos nossos pais e seremos felizes para sempre. Porque sem ela, sem ela, não tem valor nem faz sentido a minha existência”
Ela foi, portanto, e ele ficou mais uma ano pensando nela, enchendo-se dela, inebriando-se dela, da sua imagem e do seu amor.
Um ano depois quando se preparava para se juntar a ela, o MPLA em Luanda e a UPA no norte de Angola, fizeram-no trocar a faculdade pela guerra e, três anos depois, quatro desde a última vez que a vira e dela recebera o último beijo de…irmã, já desmobilizado da vida militar e quando se preparava para finalmente a ver e declarar-lhe o que há quatro anos contingências do destino tinham cancelado, recebia dela o desmoronamento da sua estrutura tão laboriosamente construída
Não poderia, querido Henrique, neste momento de suprema ventura para mim, iniciar a minha felicidade sem a tua presença ao meu lado, sem o beijo do meu irmão querido. Quero que sejas o padrinho da noiva mais feliz deste mundo.
Beijos dos teus irmãos, Clara e André.”

Continua.

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