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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Como aprendi a nadar

por Corvo, em 30.04.15

Por volta dos meus onze anos, acompanhei o meu pai ao Ambriz, cidade costeira a norte de Luanda, quando ele teve necessidade de se deslocar até lá a fim de firmar contrato com um fazendeiro da zona para a construção de uma casa e de um armazém.
A aproximadamente três quilómetros para norte do mar citadino, desagua o rio Loge, que não sendo um dos maiores de Angola é, ainda assim, um rio de razoáveis dimensões, é provavelmente a par com o rio Cuanza um dos mais perigosos para quem, porventura se arme em aventureiro destemido e caia na palermice de ir molhar os pés.
O mar por sua vez não oferece melhoras significativas no que à segurança concerne. Grandes tubarões: branco e o toiro, vá-se lá saber porquê, entre os meses de Setembro a Novembro são tantos que a gente se admira de como há água suficiente para todos.
Como a Graça Divina nunca vem por pouco, ou tudo ou nada; os jacarés de água salgada saem do rio Loge e vêm disputar a pescaria com os tubarões, e eles para não ficarem por menos; vá, o toiro que o branco é um tímido do caraças; o toiro, portanto, entra-lhes pelo rio adentro e vai disputar a alimentação com eles.
De modo que naquele tempo, agora parece que já não que as obras portuárias correram dali com eles e só um ou outro resistente mantém a dignidade territorial, mas naquele tempo quem tivesse uns minutinhos disponíveis para os dedicar à observação, momentos havia que via o mar mais vermelho do que azul. Ora eu tinha não só esses minutinhos como o tempo todo do mundo disponível.
Contudo, a minha segurança estava mais que assegurada pelo medo, verdadeiro pavor que o mar me provocava. Depois do episódio do barco na minha viagem para Angola, - já aqui relatada em “Fintar o Destino”absolutamente verídica, - á água provoca-me um pavor imensurável, tanto que malgrado todo o esforço e empenho do meu pai em ensinar-me a nadar, nunca a praia tivera a honra de me molhar os pés. Por esse lado, ele, o meu pai, estava tranquilamente à vontade quando me via, ou sabia que eu ia para aqueles lados.
Entrava pelo mar dentro uma espécie de ponte com comprimento aproximado de uns cento e vinte metros por uns quatro de largura, que servia para que os camiões entrassem, em marcha atrás para depois de carregados poderem sair de frente, onde iam recolher a carga que os batelões indo-a recolher aos grandes navios que ficavam ancorados ao largo, a transportavam até ali.
Nessas ocasiões aquilo tinha algum movimento, mas fora disso era completamente deserto, salvo quando eu resolvia ir até ao fim da ponte deliciar-me com as lutas dos tubarões na disputa das caçadas, sobremaneira agravadas quando os toiros entravam na contenda.
E lá estava eu nesse fim de tarde na pontinha da plataforma, debruçado porque os patifes andavam à bulha por debaixo dela, e eu enervava-me porque queria ver e logo por azar os que circulavam à vista pelos vistos não tinham os ímpetos belicistas dos outros, e eu não desistia de querer ver, uma coisa leva à outra, debruça, debruça e cai aos baldões para dentro do mar agitado.
Fui ao fundo, bebi boa parte do mar, olhava para cima e a par com um barulho ensurdecedor via milhões de bolhas que subiam à superfície, esbracejei sem controlo e subitamente vi-me em cima, para logo uma pancada violenta na minha anca me mergulhar novamente nas profundezas. Tudo se repetiu e a esbracejar com pés e mãos em desespero, voltei à tona. Guiado pelo instinto, a esbracejar alcancei um dos pilares da ponte, que nada mais era que um tronco de árvore enterrado, e tentei marinhar por ele acima. Vã veleidade. A fauna lá agregada durante anos rasgou-me as mãos, as coxas e a barriga, mas mesmo assim eu subia. Estava quase quando uma onda provocada pelo mau feitio daqueles turbulentos, me atingiu em cheio e voltou a espetar comigo lá dentro.
Tudo se repetiu, a esbracejar e mesmo com pancadas de um e outro ladol que me jogavam ora para baixo, ora para cima e ou para os lados, tive uma ideia luminosa. Afinal, esbracejando não ia ao fundo. Ora isso queria dizer que sabia nadar. Quando isso me ocorreu, acalmei e comecei a controlar os movimentos e quando constatei que sim, a coisa melhorara significativamente, comecei a dirigir-me para a praia. Ora, eram só cento e tal metros.
Fui portanto nadando, à minha maneira e safava-me melhor se pancadas e roçaganços não me levassem ao fundo mais vezes do que seria recomendável, mas saí.
Senti-me feliz e realizado e rejubilei com a alegria do meu pai quando soubesse que eu já sabia nadar, e depois olhei para mim. Todo eu era uma chaga de sangue. Braços, pernas, barriga era uma sangria daquelas. Todo rasgado pelos mexilhões, mas nem um arranhão dos tubarões. Não liguei muito àquilo, sentia-me o rapaz mais realizado deste mundo por já saber nadar. Para comprovar, voltei a entrar na água e nadei deliciado para lá e para cá.
E perdi o medo da água, o que nem por isso seria muito bom para mim.
Fim.

Na alvura da tua pele me perco - parte V

por golimix, em 22.04.15

 

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continuação daqui

 

A vida numa grande cidade fora inicialmente um choque para Alice. Mas depressa se habituou! A casa que o irmão habitava não era tão grande como a fazenda, mas mesmo assim tinha bastantes cómodos. Além disso, havia alegria! Não havia trabalho escravo. O irmão alforriou-os todos os negros que tinham em casa!

 

Havia um jovem rapaz, Victor, um negro, que o acompanhava muitas vezes ou então ajudava nos trabalhos mas pesados da casa. Mas  Alberto pagava-lhe pelo trabalho. Bem como à cozinheira, uma viúva e a jovem filha da mesma, que tinha cerca de 16 anos, que tinham pequenas acomodações nas traseiras da casa principal, e que Beatriz mandara construir. A casa não era muito grande mas dava o seu trabalho mantê-la. E todos o faziam com boa disposição. Alice e a jovem negra, que dava pelo nome de Flor , filha da cozinheira, depressa se tornaram amigas. Quanto Beatriz, a sua jovem tia, transformou-se na irmã que ele nunca teve. Alice estava feliz, embora essa felicidade se turvasse sempre que pensava na fazenda e quando recebia as cartas da mãe, apesar desta lhe dizer que estava tudo bem, parecia que em cada frase estava escrito o contrário do que lia.

 

Os serviços de Alberto como médico começavam por ser, e devido à sua dedicação, muito requisitados, e ele tinha acabado de contratar outro jovem, filho de escravos, homem livre, para o ajudar num consultório que decidira estabelecer na cidade. O tio ajudava todos sempre que podia, e isso incluía homens, que devido à sua cor, não arranjavam emprego com facilidade.

 

Alice acordava lentamente para uma realidade completamente diferente da que estava habituada. Foi percebendo que por ali o tio não era o único que proclamava a liberdade para todos. Existiam com frequência reuniões onde se discutia a abolição da escravatura. Percebeu que o tio era um abolicionista! E pela primeira vez soube o significado dessa palavra. Soube também, que essas ideias não eram novas, já tinham a sua força desde 1870! Estavam em 1883 e ela nada sabia sobre isto! Nas fazendas de café, principalmente as mais afastadas de toda a informação, e que dependiam do trabalho escravo, tentava-se abafar toda um revolução prestes a estourar!

 

E com todas estas novidades o tempo foi passando e a fazenda foi ficando cada vez mais distante... Estava agora com 19 anos. O tio permitira-lhe estudar num colégio de freiras. Ajudava Beatriz no governo da casa e volta e meia iam a reuniões sobre a abolição com o tio. E foi numa dessas reuniões que o viu pela primeira vez.

 

Alguém discursava, de forma eloquente, sobre as atitudes a tomar para acabar com o trabalho escravo. Nessas reuniões estava sempre muita gente, que incluía homens de todas as cores e também algumas mulheres. Sentiu que alguém a observava e foi ao encontro daquele olhar. Um jovem mulato contemplava-a, e ela teve a nítida sensação que conhecia o portador daqueles olhos negros. Mas depressa ele se diluiu no mar de gente que ali se encontrava, e só quando todos desaguaram dali para fora é que o tio Alberto, que saíra de perto delas com uma desculpa, ressurgiu com ele.

- Meninas quero apresentar-vos o meu funcionário, que trabalha comigo no consultório. Este é Maurício!

O jovem inclinou-se e Beatriz estendeu-lhe a mão, para ser segurada com gentileza, seguida por ela, Alice, que sentir aquele toque todo o seu corpo, todos os sentidos, ficaram em alerta. Como se a avisassem de algum perigo.

- Muito prazer! - O jovem falava numa voz doce e meiga. Música para qualquer ouvido.

- Olá meu jovem! Terá que ir a nossa casa um destes dias comer uma fatia de bolo da nossa querida cozinheira. Garanto-lhe que Anastácia faz um quindim maravilhoso! - Sorria Beatriz

Alice manteve-se calada todo o tempo. Quando chegaram a casa não susteve mais a curiosidade. E questionou o tio.

- Tio Alberto diga-me. O que sabe de Maurício?

- Minha querida, pouco sei... sei o que me interessa. Que é um bom trabalhador, esforçado, honesto, atento e que vive  numa pequena casa mais afastada. Mas porquê essa curiosidade?

- Não sei... há algo nele que me diz que o conheço...

 

E Alice não se enganava e mais um encontro inesperado com Maurício revelaria algumas surpresas e também lhe trariam acontecimentos imprevistos. O seu mundo estaria, mais uma vez, prestes a mudar.

Na alvura da tua pele me perco IV

por golimix, em 16.04.15

tronco escravos.jpg

 Continuação daqui

 

Após a partida de Marco, e do seu pai Justino, para parte incerta tornou-se mais difícil a vida para as mulheres que habitavam a Fazenda. Dodô envelheceu pelo menos uns dez anos, e apesar de continuar a cumprir zelosamente as suas tarefas, já que não podia ser de outra forma, a sua antiga, e tão habitual, alegria desvaneceu-se por completo. Mantinha sempre um semblante carregado, como se estivesse de luto por um filho e marido vivos, mas mortos para ela. Alice vivia numa tristeza inconsolável, não só pela partida do seu grande amigo de infância, mas também porque tomara conhecimento de como era o seu pai na realidade.

 

Ouvia muitas vezes o pai praguejando e gritando com a sua mãe, e desconfiava que as agressões não seriam só verbais, já que volta e meia ela aparecia com uma nódoa negra no braço, e passara recentemente a cobrir os seus braços com vestidos de manga comprida, mesmo no calor! Viver naquele lugar tornara-se impossível! Mas ela continuava uma moça pertinaz, com vontade de mudar o mundo e o próprio destino, que mãe Jurandi tanto falava. Discutia inúmeras vezes com o seu pai não lhe demonstrando medo, apesar de saber tudo o que aquele homem era capaz. Mas com ela a mão pesada tornava-se mais leve e ele lá ia aceitando, calado, as suas altercações, até ao momento em que lhe levantava a mão e um “Basta Alice!” terminava com o diálogo unilateral.

 

E dois anos se passaram nesta angústia. Felizmente, que ultimamente o Patrão se deslocava com mais frequência em negócios, e quando estava em casa ia muitas vezes aos cafezais. Quem sofria mais eram os pobres escravos, que cada vez com mais frequência, faziam uma visita forçada ao tronco, erguido no terreiro junto à senzala. Desgraçados que nem sabiam o que que os levava ali! Muitas vezes era porque andavam mais devagar, já que o calor apertava, e enchendo-os de preguiçosos mandava-os açoitar. Outras vezes porque os apanhava a cantar as suas músicas e ele não queria ali daquilo. E não eram raras as alturas, em que alguns escravos mais fracos, caíam de exaustam e eram espancados ali mesmo, onde se deixavam ir.

A Sinhazinha Alice, como todos lhe chamavam, quando era informada, escondia-se para ir à senzala tratar dos feridos. Tudo até ao danado do novo capataz, um homem da pior espécie, ter feito queixa destas suas atitudes e ela ter sido terminantemente proibida de chegar, sequer, perto do terreiro sob pena de ele mandar açoitar todos os escravos, incluindo crianças!

"Não te quero com aqueles animais, Alice!"  dizia-lhe o pai. Apesar dela saber que os animais estavam do outro lado da trincheira.

E Alice não teve outro remédio senão chorar cada grito ouvido ao longe. Aquilo tinha que mudar! Mas como? Que poderia ela fazer?

 

Certa tarde foram visitadas por um irmão de sua mãe. O tio Alberto era casado com uma bela jovem, de cerca de 20 anos. O seu próprio tio só teria uns 30 anos. Rapaz inteligente, e bom coração, fora estudar para a cidade e tinha-se formado em medicina.  Casara-se à cerca de meio ano com uma jovem de boas famílias. Estava, pois, bem na vida.

Alice mal conhecia o tio, exceptuando umas cartas e fotografias trocadas. Mas assim que sentiu a carruagem desceu a correr as escadas. Uma distração no meio do sufoco em que viviam era sempre bem vinda.

- Olá tio Alberto! Até que enfim vem ver-nos! E apresentar-nos a sua mulher! - Disse Alice mal os viajantes tinham pousado o pé no chão!

O tio sorriu-lhe - Está é Beatriz - disse, já com a sobrinha abraçando a esposa. E, seguidamente, beijando a sobrinha na testa, continuou -  Alice estás maior do que eu pensava! E as fotografias não te fazem justiça minha querida sobrinha! Mas onde está a tua mãe minha cara?!

- Venham para dentro! - Alice subia as as escadas enquanto lhes falava. - Minha mãe deve estar arrumando qualquer coisa na casa. Ela arranja sempre o que fazer - Precisam que vos ajude com algo?

- Não minha querida - Falou a esposa do tio acompanhando a sobrinha - deixamos todos os nossos pertences na casa do teu avô. Ficaremos por cá esta semana.

- Que bom! Ficam uma semana! Assim podemos conhecer-nos melhor! Embora um semana seja pouco para quem quase nunca cá vem! - Alice virou-se propositadamente para o tio.

- Minha menina sabes bem que a minha profissão não me permite grandes ausências! Além disso, estava a estabelecer-me na carreira. Agora tinha mesmo que vir. - tossicou, gesto que Alice veio a identificar mais tarde como um tique que o tio tinha sempre que se encontrava agitado com algo.

Mal tinham transposto a soleira da porta surgiu Amália.

- Meu irmão! Tanto tempo... Ainda bem que viestes- ambos se abraçaram. De seguida virou-se para a esposa do irmão.

- Claro minha irmã! Tinha que vir - Respondeu-lhe

- Minha querida irmã. Beatriz! Bem vinda a esta casa! - Disse Amália abraçando-a também.

- Por favor venham para a sala de estar que está mais fresca, vou pedir para a Dodô nos servir. Querem um suco ou um café? Sim. Café temos de sobra! - Sorriu

- Por mim, e com este calor, agradecia qualquer coisa refrescante! E penso que por Beatriz também, não minha cara? - Disse virando-se para a esposa e obtendo um consentimento desta.

- Pois então, suco para todos! E provarão o maravilhoso bolo de fubá que Dodô fez de manhã! - Amália virou-se para a filha. - Alice por favor acompanha-os até à sala das traseiras, a mais fresca, que eu já vou.

 

A conversa foi animada durante toda a tarde, a empatia entre Beatriz e Alice  parecia instantânea! Falaram sobre diversos assuntos, mas escusaram-se a temas relacionados com política e escravatura. Amália sabia qual a opinião do irmão, e sabia também que uma das suas recusas em vir a casa era porque o pai tinha escravos. Mesmo que o pai nunca os tratasse mal, tal como o seu marido fazia! Ela lembrava-se das discussões acaloradas entre os dois, pai e filho! O irmão achava que todos deveriam ser pagos pelo seu trabalho e que isso também faria circular o dinheiro, o pai nem sequer imaginava como seria a vida dos donos de fazendas sem a mão de obra escrava!

Amália temia o encontro entre Paes de Andrade e o irmão, apesar de saber que por ela o seu irmão iria se conter. Ainda bem que naquela noite seu marido não jantaria ali. Mais um jantar de "negócios" o afastara.

Os tios ficram para jantar na fazenda.

Na despedida, Alice, ouviu o tio comentar com a sua irmã, Amália.

- Espero que conversem minha irmã. Sabes que só estarei uma semana, talvez seja melhor avançares com o assunto.

- Claro! Só esperava a tua vinda. - Votaram a abraçar-se e a carruagem partiu até à fazenda dos pais de ambos.

 

Curiosa como era, Alice, não resistiu em questionar a mãe.

- Mãezinha, de que falavam, tu e o tio Alberto? - Disse

- Minha querida filha, falávamos de ti! - Amália virou-se para a filha

Esta arregalou os olhos e respondeu prontamente apontando para o próprio peito - De mim? Não percebo!

- Sim. Querida, combinei com o teu tio que irás com ele para São Paulo - disse a mãe sem qualquer rodeio.

- Mãezinha! Nem penses! Nunca te deixaria aqui sozinha com... aqui na fazenda! - Disse Alice pensando no que seria a vida da mãe com o pai sozinhos por ali.

- Minha querida eu e o teu pai lá nos entenderemos. Já que sei que é isso que te apoquenta. E temo que tu vás acabar por odiá-lo e eu não quero isso. Além disso, eu tenho a Dodô, a Miká e a mãe Jurandi. Isto na fazenda não é vida para ti e quero que vás aprender algo na cidade. E o teu tio necessita da tua companhia para a esposa, e vi que se deram muito bem! - Amália era persuasora

- Já disse que não sou capaz! - Alice tinha os olhos rasos de lágrimas, pois se por um lado o que mais queria era ver-se longe dali, por outro, deixar a mãe parecia-lhe impossível!

A mãe colocou-lhe as mãos nas faces - Meu amor, não percebes? A decisão está tomada. Não. Nisto não posso pedir a tua opinião! Agora, por favor, nada de chorar e vamos aproveitar o tempo que nos resta.

 

E assim mais uma pessoa querida aquele lugar, àquelas pessoas, partia dali...

 

Continua...

Na alvura da tua pele me perco III

por golimix, em 14.04.15

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Continuação daqui

 

 

E foi assim, que naquela noite, tudo se precipitou!

E após a Dodô ter dado à luz um belo e forte rapaz, a sua Sinhá trazia ao mundo, pelas mãos da mãe Jurandi, uma menina com ar pequeno e frágil que tivera demasiada pressa em mostrar-se ao mundo e parecera responder a um chamado urgente que requeria a sua presença.

 

Mas a fragilidade nada mais era do que aparente, já que a criança revelara uma enorme vontade de se manter viva! E demonstrou essa firmeza crescendo e engordando a cada dia que passava. Claro que para isso contribuiu não só o leite materno, mas também leite que Dodô deixava que o seu filho partilhasse com a menina da sua Sinhá. Dado que ela era fraca e a negra tinha leite de sobra.

 

E foram crescendo aquelas duas crianças, partilhando o mesmo leite, mas de mundos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Alice e Marco, ditos assim, de forma simples tal como a vida deles era.

 

Sinhá Amália, que até então tinha períodos de desânimo, sentia que a sua vida fazia sentido e dedicava-se a ensinar aos dois a mesma coisa, o que a menina aprendia o menino também o fazia. Ela aprendia a ler e ele também. Aproveitava também as sua tardes para ensinar Dodô a pronunciar-se melhor na língua portuguesa, embora a empreitada  se estivesse a revelar uma verdadeira dor de cabeça!

 

Tais tarefas eram realizadas sem o conhecimentos do Patrão Paes de Andrade. A quem não agradava que a sua doce menina loira brincasse com aquele mulato com ares de negro, filho de uma escrava e de um homem branco sem juízo. Mas a sua esposa convencera-o que fazia bem a menina brincar com outras crianças, mesmo que negras, faria bem ao seu crescimento já que a felicidade da menina a faria crescer saudável. E que mais pretendia um pai? Olhar para aqueles cachos dourados amaciava-lhe o coração como nenhum outro ser o fizera. Além do mais, nada o impedia de no futuro se livrar daquele negrinho, que mesmo de tenra idade já se mostrava um petulante!

 

Mas não o fizera, nem quando ele tinha dez anos, nem doze...

A sua filha soube como frear-lhe a vontade, e deixou que aquele negrinho por ali ficasse, com ordens expressas de não passar da cozinha e não colocar um dedo que fosse no resto da casa. E permitiu que não fosse enviado para o trabalho pesado na roça desde cedo, como fazia com os outros negros quase mal começavam a andar! E mesmo que ele tivesse nascido na lei do ventre livre isso pouco lhe importava se o quisesse pôr no trabalho.

 

 Aquele dia porém tornou-se decisivo para que lhe acabasse com a vida mansa.

Vinha no seu cavalo regressado da Vila, onde fora a negócios, felizmente para todos ele necessitava de  se ausentar várias vezes, já que o café não se vendia sozinho. Resolvera tomar um caminho diferente do habitual, já que ainda era cedo, e passar pelo seu pomar e ver como se davam as árvores de fruto que sua esposa insistiu em plantar anos antes. Pediu, nessa altura, que fossem transplantadas algumas árvores já bem grandes para aquele local. E ainda bem que o fizera! E Homem sempre atento a um bom negócio, transformou esse pedido num projeto que até se revelara rentável. Para além de ter sempre fruta fresca em casa, ainda colocou dois escravos a vender fruta na Vila rendendo-lhe mais algum dinheiro.

Ao se aproximar dos terrenos  viu dois jovens, ao longe,  juntos do abacateiro. A princípio não os distinguiu. Mas mais perto pode ver que se tratava de sua filha! Aquele cabelo loiro era inconfundível! Mas com um homem! Quem seria?! Como é que Amália a deixava estar ali a sós com um homem e ainda por cima sem o seu conhecimento!? Não podia ver de quem se tratava, já que este estava de costas. Mas era um negro!!?? Como ousava!?

E açoitando o desventurado cavalo chegou em passo de corrida ao destino.

- Que fazes aqui seu negro atrevido? – Vociferou do alto do seu cavalo e fazendo este frear o passo de repente levantando um monte de terra na paragem brusca.

Os jovens olharam-no estupefactos e Alice interpôs-se não deixando a sua companhia falar.

- Pai vê lá como falas com o Marco! Ele é meu amigo! – falava ao mesmo tempo que se colocava em frente do amigo.

- Amigo?! – Riu-se num riso alucinado – A minha filha com amigos negros?! Este animal lá pode ser amigo de alguém! Já para casa sua desajuizada! Contigo e com a tua mãe entendo-me depois! ! E tu, meu negro, vais aprender qual é o teu lugar! – e dito isto saltou do cavalo e preparava-se para açoitar o rapaz ali mesmo com o chicote do cavalo.

Marco estava sem reação! A mãe já o tinha prevenido do feitio do patrão, aliás, ele via-o na vida que os outros negros, seus semelhantes, levavam, mas estivera, ou quisera estar, até aquele momento, de olhos fechados, e aquele acontecimento foi como um renascer para a vida real que até ali negara, já que a sua estadia dentro de casa o poupara a certas dificuldades. E mesmo vendo o patrão Paes de Andrade dirigindo-se até ele de chicote em riste não se moveu, ou sequer se agachou amedrontado por uma surra iminente!

- Não pai! – Alice atirara-se ao braço do pai e prontamente fora sacudida caindo no chão desamparada e nesse momento o chicote desfere um golpe certeiro na face de Marco que leva a mão à cara e mesmo assim, a juventude dos seus treze anos,  não o fez  curvar-se com a dor. Nunca se curvaria aquele homem!

Alice solta um grito horrorizada e pendura-se novamente na mão do pai. E grita.

- Foge Marco! Foge por favor!

Mas marco não move um músculo. Se Paes de Andrade o queria açoitar? Pois que o fizesse! Na presença da filha para que ela também visse o mesmo que ele via naquele homem! Já que era a única que parecia gostar daquele monstro.

- Larga-me! Ouviste Alice? Larga-me o braço e não me faças aleijar-te! E com a outra mão, e o quase o triplo,  ou quádruplo, da sua força empurrou a filha e voltou a levantar o chicote acertando com um segundo golpe no peito de Marco. – Seu negro petulante que ousas não te dobrar nem pedir desculpa por estares aqui com a minha filha!

A gritaria de Alice tinha atraído Sinhá Amália e Dodô, que na verdade não estavam longe dali a recolher fruta. E providencialmente Amália segurou a mão do marido impedindo um terceiro golpe  a um estático rapaz. Dodô abraçara-se ao seu filho de face e peito ensanguentado não percebendo a extensão, nem a gravidade, dos golpes.

E vendo o seu intento interrompido pela esposa Paes de Andrade resolve virar a sua fúria para esta.

- Larga-me sua cadela! – Atira-a ao chão e desfere-lhe um golpe no ombro fazendo a esposa gritar de dor.

-Por favor pare que está ali a sua filha! – Amália colocou a mão a frente da cara e lembrou o marido que a sua filha estava a ver um monstro e não o seu pai que tanto a mimava.

Paes de Andrade dominou-se e urrou.

- Quero este negro fora da minha casa! Amanhã mesmo o venderei para longe!

- Me filho nã pode ser vendido – Gritou Dodô. Ele ser livre! Nasceu no ventre livre!

- Não quero saber do raio dessa lei! Essa peste é minha propriedade! Nasceu na minha casa! E vai render-me um bom dinheiro já que se mostrou forte mesmo a apanhar! - Montou no cavalo e saiu dali ignorando os rogos das mulheres.

 

- Ó mê filho que vai ser de tu?! - Dodô abraçava-se ao filho que se mantinha contraído e punhos fechados.

- Não se preocupe minha mãe. Eu não vou ser escravo! - Marco, com a face ensanguentada, mantinha o sangue frio.

Sinhá Amália também recuperara e, sem se importar com o sangue e a dor no seu ombro, começou a arquitectar um plano - Foge meu menino. Foge com o teu pai! Dodô, tu é melhor ficares, pois se forem os dois o meu marido poderá  mandar caçar-vos! Mas indo só ele e o pai a raiva não será tanta. Além disso, um homem branco e rapaz mulato serão mais bem acolhidos.

Dodô não respondeu, só chorava.

E a Sinhá continuou - Alice, minha filha - disse virando-se para a menina e segurando-a pelos ombros - Diz à Miká que procure Justino com urgência, fá-la entender isso, e vai para casa. Tenta acalmar o teu pai.

- Sim. Mas não vou ao meu pai. Nunca mais o quero ver! - disse limpando o rosto com as costas da mão.

- Minha filha não há tempo para discussões, faz o que te digo. Pelo bem do Marco! - Frisou a mãe. E Alice partiu a correr. Não sem antes dar uma abraço ao seu amigo sussurrando-lhe um "Desculpa" ao ouvido.

- Minha querida Dodô acalma-te. - Disse Sinhá Amália aproximando-se da mãe negra aflita abraçada ao seu filho ensanguentado - temos que agir rápido para que eles possam fugir sem serem perseguidos. Eu arranjarei algum dinheiro. Agora, por favor, vai e trata do teu filho.

Dodô limpou o rosto ao avental e ganhou forças, como só uma mãe consegue, e pelo filho ela sabia que tinha de o deixar partir. Seguiu dali levando o jovem com ela.

Amália inspirou fundo e dirigiu-se à sua casa. A "Fazenda Grão Dourado", uma enorme casa que tinha um ar feliz por fora mas por dentro albergaria uma tristeza enorme.

 

Os preparativos para a fuga foram céleres. Amália tratara de tudo sem se importar com as consequências que tais actos pudessem ter para com a sua pessoa. Só lhe importava colocar a salvo uma criança que ela ensinara, ajudara a criar e também amava. Além disso, sabia que Alice não a perdoaria se não fizesse algo. E assim pai e filho partiram dali numas despedidas apressadas e prometendo que uma dia  voltariam a ver uma Dodô angustiada.

Alice e Marco tinham uma amizade bela e singela, desprovida de qualquer maldade. Uma dádiva deste mundo. A despedida fora feita com uma promessa.

- Voltarei alguma dia a ver-te Marco? - Disse a jovem colocando a mão ao de leve na face sem a marca de chicote.

- Sim. Prometo-te que um dia. Um dia, eu serei um verdadeiro homem livre e poderei estar contigo sem ser açoitado! - Deu-lhe um abraço rápido e partiu com seu pai.

 

Pensando na sua mente, apesar das promessas feitas, nunca mais pisar aquelas terras! Não enquanto aquele monstro ali viver! Mas  a vida, tal como diz o povo, dá muitas voltas e ainda nem a metade tinha chegado...

 

Continua....

 

 

 

Lei do Ventre livre:

"Surgiu a 28 de setembro de 1871, e considerava livre todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir da data da lei. Segundo esta lei, as crianças ficariam sob a custódia dos seus donos, ou do estado, até os seus 21 anos, depois desta idade poderiam ficar livres.

Até lá, no entanto, eles acabariam servindo como escravos da mesma forma."


Ler mais em: http://www.webartigos.com/artigos/a-escravidao-no-brasil-uma-analise-apartir-dos-livros-didaticos-de-historia/114476/#ixzz3XJ8jCSfk

Na alvura da tua pele me perco II

por golimix, em 10.04.15

BebeNegro.jpgContinuação daqui

 

Estávamos em Setembro, e pelas contas de Dodô, o seu rebento nasceria lá para o fim do mês. Embora a parteira, uma negra habilidosa que contava já com uma certa idade, e que a pedido da Sinhá Amália ajudava no trabalho da casa, lhe tivesse dito que havia mudança de lua no início do mês, portanto, que contasse com o moleque antes! Sim. Ela também parecia ter dotes de adivinha e insistia que o bebé seria um rapaz. Mas Dodô pouca importância dava às sua premonições e ao seu lançar de búzios que  Mãe Jurandi, ou como alguns, na Senzala, chamavam de Unkulu, fazia às escondidas. Pois ai dela se o patrão a apanhasse naquilo!! Já uma vez a açoitaram no tronco porque a tinha visto a chocalhar as conchas. Fora levada de rastos pelos cabelos e, depois de terrivelmente açoitada, ficara essa noite presa, sem pinga de água nem comida! Valera-lhe a ajuda da mãe do patrão, no tempo em que estava viva, que fora tratar-lhe das feridas às escondidas. Pois, se eledescobrisse até a mãe era capaz de mandar açoitar! "O Mbungula!", como mãe Jurandi lhe chamava!

 

Durante o dia Sinhá Amália tinha estado indisposta e Dodô, e o seu enorme barrigão, resolveu fazer-lhe um chá das ervas especiais, de Mãe Jurandi, para amenizar o mal estar. isto apesar de ela própria sentir uma certa agonia ao fundo das costas. Parecia que tinha ali fogo a arder-lhe no baixo da espinha! De repente sentiu-se molhada!

- Ai! Tu qué vê que a veilha tinha razõe?! Ai Bida! Ó Miká! MiKÁÁ! - gritou o quando lhe permitiam as forças

- Ai Deus! Tu qui qué! Tou trabalhandu tu num vêi! - Responde uma moçoila negra muito bem disposta abanando um pano à entrada da porta, mas vendo a colega a segurar as costas, e com ar de quem parecia esperar a morte! Aproximou-se mais um pouco.

- Vai chamá a maê Jurandi! Rápido! - Parecia que depois da queda de água agora resolveu cair-lhe uma montanha na espinha! O que a fazia contorcer-se de dores! - Nã olhi pa mim! Vae!

E pernas para que te quero! Saiu dali a correr trazendo dali a pouco a mãe Jurandi praticamente arrastada por um braço. Que logo que deu de olhos com a Dodô soube que chegara a hora.

- Eu disse a ti mulher! - e baixou-se para lhe palpar o ventre - parece que a notê irá trazê a ti um Ujitu!- Vai pa junto da tê cama. Ma nã te aconchegues! Quero a vê tu andando! - Dodô era das poucas negras que se podia dar ao luxo de ter uma cama, com colchão de palha! Tudo obra da sua querida Sinhá! Senão estaria a dormir no chão da cozinha como a Miká, grávida e tudo!

- Nã sê se vá trazê Utijú, mas sê qui mim quéie ir deitá no mê cochão! - Disse Dodô com beiço e fazendo birra! Diabos da velha que a queria por andar e ela cheia de dores e com um colchão tão bom!

- Tu vá andá! Nem qui mim  puxá tua orelha assim! - E vai de dar-lhe um puxão e fazê-la andar a gritos e a segurar com uma mão no barrigão e outra amparando a espinha! - Mê dexa! Mê largá! - Gritava a Dodô e vendo que teria mesmo que obedecer!

Pondo a grávida a fazer o que ele ordenou mãe Jurandi deu ordens para que fosse aquecida água e se arranjasse panos limpos. E ela mesma foi levar um chá a Sinhá Amália e avisa-la do que se ali passava! Para sorte o patrão não estava hoje! Tinha ido negociar café com vendedores.

Entrou no quarto e deu com uma Sinhá pálida e suada.

- Tu qui tem minha linda Sinhá? - Disse aproximando-se, colocando o tabuleiro de chá na mesa junto à cama e colocando-lhe a mão na testa suavemente

- Não sei mãe Jurandi! Tenho-me sentido mal, com vontade de deitar fora e desde o início da tarde perece que tenho um cão a morder-me o ventre de tempos a tempos!

- Tu tem Imbua mordendo? Um cão? - e imediatamente lhe colocou a mão no fundo do ventre - Ó minha filha! Pairece que tê filho qué saí hoje tombém!

- Não! Não pode! Ainda faltam dois meses! - Amália estava petrificada.

- Nã é tu que manda! É ele - disse segurando a barriga - E os Orixás! - Abrindo os braços ao alto- Com a sua Sinhá podia falar à vontade. O Mbungula não estava!

- Ó Deus! O que vai ser de mim!? O que vai ser do meu filho!? - As lágrimas corriam-lhe pela face

- Vai sê tudo bem Hojti! E manhã nascerá sol! Tu vai vê! - Disse sorrindo e acalmando, sem Amália perceber como, a aflição que ali pairava naquele coração.

 

Duas crianças estavam para nascer naquele dia, mas uma teria que lutar muito para vingar. Nasceria ali uma alma lutadora!

Continua....

Tradução

Presente-Ujitu

Cão - Imbua

Unkulu-Avó

Mbungula-Espírito das trevas 

Na alvura da tua pele me perco

por golimix, em 09.04.15

escravos.jpg

Estamos numa época onde a escravatura ainda é usada como mão de obra nas fazendas produtoras de café. Ainda virá um tempo feliz em que isso não acontecerá, e a jornada na roça será paga. Mal paga, é certo, mas ainda assim sem o chicote nas costas e as noites mal dormidas no chão de uma senzala onde sobejam os negros e carece o espaço. E é aqui, nesta fazenda do sudeste Brasileiro, onde nascerão duas crianças alheias ao ódio, ao racismo, e sobretudo a esta era de homens de mentes tacanhas.

 

Maria das Dores a escrava, tratada por Dodô, a preferida da Sinhá Amália tomou-se de amores por um dos guardas de escravos. Um dos moles, que se deixam levar pelos encantos de uma bela negra, dessa paixão ilícita resultou uma gravidez. O homem quase fora expulso da fazenda pelo seu terrível patrão, que era tratado por Patrão Paes de Andrade! Mas veio em seu auxílio, e da Dodô, a sua jovem patroa que, apesar de tudo, criara uma certa habilidade para persuadir o marido a seguir as suas ideias fazendo-o crer que eram dele. Até porque ela mesma também estava de esperanças e nunca se deve deixar uma mulher nesse estado sem se tentar cumprir os desejos pretendidos. E lá casaram a Dodô e o seu pobre Justino Silva, que nem sabia bem o que lhe acontecera. E passou de guarda de escravos a ajudante da casa grande. Um posto mais adequado a quem tem por esposa uma negra.

 

Sinhá Amália mantinha um casamento sem amor, como tantas vezes acontecia naquele tempo, com um homem viúvo, rude e quase trinta anos mais velho que ela! Mas tivera que obedecer ao pai, que devia uns favores ao seu vizinho de terras, o Manuel de Oliveira Paes de Andrade. Ela fora educada para viver para a casa e para o marido. Era sua obrigação ser uma  boa esposa. No início fora-lhe difícil a vida ali. Longe de quem conhecia, já que para se chegar à fazenda vizinha era necessário percorrer-se quilómetros. Valeu-lhe a abençoada companhia de Maria das Dores, a Dodô. Rapariga inteligente e excelente cozinheira, além de devotada à sua amiga Sinhá. As duas engravidaram mais ou menos ao mesmo tempo, Dodô levava um avanço de dois meses. E isso tornava a vida de Amália um pouco mais alegre. Ela era uma mulher doce, amável, solidária e amiga. Enfim, a antítese do seu marido. Mas deu Deus essa sorte aquele lugar. Uma beleza suave, uma lua para amenizar a agrura dos seus dias do intenso calor solar.

 

E foi naquela noite que tudo se precipitou....

 

Continua...

Bailarico de almas penadas

por golimix, em 08.04.15

luzes .jpg

 

A história que vos contarei a seguir foi-me transmitida pelo meu avô. Não sei qual o ano em que aconteceu a façanha que vos descreverei, talvez por volta dos anos 40 , sei é que a mesma revela que além de ser um grande contador de histórias, o meu avô era também um homem que se guiava por uma certa lógica.

 

Numa certa noite primaveril, uma senhora que contava com uns 65 anos neste mundo, e vizinha do meu avô, ao dirigir-se ao seu quarto, por volta das 10 da noite, deparou com um espetáculo de luzes na parede em frente à sua casa. O que a deixou boquiaberta, já que não podiam vir de onde ela habitava, uma vez que aí reinava a completa escuridão. Não querendo ser alarmista resolveu rezar o terço para que lhe passasse a preocupação e afastasse os pensamentos acerca de almas penadas, e achou, sem saber como, que aquilo pudesse ter sido uma coincidência. Escusado será dizer que a reza não surtiu efeito, nem para uma coisa nem para outra… coisas de um tempo em que as crendices, e os medos, do oculto nasciam nas cabeças das pessoas quase tanto como os piolhos!

 

Segue-se que ao outro dia, e nos que se seguiram a esse, mais ou menos à mesma hora, surgia novo espetáculo de luzes! Já eram muitas as pessoas, essencialmente mulheres, que se deslocavam à casa da tal senhora para rezarem desde que as luzes apareciam até que desapareciam, o que demorava cerca de 20 minutos. Já muitas eram as conjeturas acerca do que seria aquilo. E todas elas andavam à volta de almas de pessoas que tinham partido ou contra a sua vontade, o que certamente alargava imenso o leque de hipóteses, ou então aqueles que tinham deixado pendências do lado de cá. Seja como for, rezar parecia ser a solução. Mas eis que a vizinha do meu avô começou a ter medo da casa dela e preparava-se para acampar nas casas ao lado, nos seus vizinhos. Bem, nesse caso, ele achou-se na extrema necessidade de explicar o facto.

- Ó mulheres do catrino venham daí e mostrem-me lá as luzes! E lá foram todos. Ele, mais um dos vizinhos, parte interessada na solução, e uma parte considerável do mulherio da aldeia.

Às 22:00 começaram as luzes dançantes e isso continuava quer se apagassem, quer se acedessem as luzes da casa em frente. Tentou-se apagar e acender as luzes da casa o lado e isso não reproduzia qualquer efeito no “baile das almas penadas”. A mulher cada vez mais aflita achava que a casa dela estava embruxada, já que ali, na janela do quarto dela, é que se podiam ver as almas penadas e aflitas. Ainda por cima a casa em frente, onde tudo era refletido, estava abandonada! Só podiam ser os antigos donos que ali voltavam aquela hora, ou então era algo pior com certeza. “Ó minha nossa Senhora valei-me! Aqui D´el Rei que já não consigo viver, nem dormir, mais aqui!”.

 

Como ninguém queria ter por vizinhos almas penadas e ainda menos a dormir em casa alguém que tem casinha para estar, resolveu-se que “aquilo” tinha que ter solução. Tinha que ser um reflexo vindo de algum lado… mas de onde?

Verificou-se que, para aquela parede embruxada, estava virada a janela da casa do um outro vizinho, interessado também na resolução da questão. Mas ele não tinha nada acesso! O que ia ele refletir?

Mas, pelo sim, pelo não o meu avô assim começou o baile de luzes, no dia a seguir, mandou alguém ir com um saco de serapilheira tapar a janela do vizinho. As luzes foram embora! Hummm… então é algo que reflete ali, naqueles vidros e que depois é transportado para aqui. O que fez ele?


Às 22:00 horas, hora da reza, ele deu a volta por ali, mais ou menos na direção de onde ele pensava que poderia ser o início de tudo.

O que é que ele descobriu?

Naquele dia não revelou a ninguém. Pediu, no dia subsequente, que todos se sentassem, no quarto a vizinha em paniquenta. E às 22:00 começaram as luzes.

O meu avô profetizou.

- Daqui a uns poucos minutos elas vão parar!

E como de facto pararam!

- Como é que sabias? Elas falaram contigo?

- Falaram pois! Ora vão ver como vão já começar!

E lá surgiram outra vez!

-Pronto, agora vão estar a bailar até que o Joaquim acabe de pensar as vacas e desligue a luz que fica atrás da figueira dele!

- Ahhhh…..

 

Pois é minha gente. As almas penadas que dançavam na parede em frente ao quarto da vizinha do meu avô eram nada mais, nada menos, que o reflexo de uma luz, acesa atrás de uma figueira cujos ramos de moviam com a brisa, transportados para os vidros de outra janela que as transformava em luzes dançantes numa outra parede. Será importante também saber que naquele tempo as casas eram menos e mais baixas. E nada de casas vindas de Andorra, nem Suíça ou França. Eram todas dali mesmo. O que pode explicar a viagem das luzes vindas quase do fundo do povo até meio dele!


Para tudo há explicação. Basta que se queira, e saiba, procurar!

A Mamã, parte3

por Corvo, em 07.04.15

Depois, a vida seguiu o seu curso. A ele, ao assassino, nada aconteceria. Lavara a sua honra, como então não só se aceitava como normal, como sendo lei.
Os factos falavam por si: apanhara-a na cama com outro, era facto objectivo e concreto, nada mais carecia de averiguação. O chefe de posto deslocou-se à sua casa com dois cipaios e trouxe-o com ele para o posto. Ouviu-o, confortou-o que essas coisas aconteciam, que um homem nunca estava livre de uma mulher o atraiçoar e com uma palmadinha nas costas despediu-se dele, que tivesse coragem que infelizmente não era o primeiro nem seria o último a ser atraiçoado por uma mulher adúltera.
Regressou portanto a sua vida, se não glorificado, pelo menos deveras respeitado. Principalmente pelas mulherzinhas da época, almas sãs e devotas, e sobretudo, abençoadas virtuosas.
“ Cruzes! Já viram? Coitado! …Na cama dele!”
“ Tens razão, Nina: não que não fosse boa rapariga, que até era, mas há coisas que não se fazem a um homem. E logo na cama dele, credo!”
Na cama …dele! E para quem não saiba ou desconheça a realidade da época, tudo era dele… deles.
A casa, o camião, a mesa, a cadeira, a cerveja, a mulher, - leia-se amante e servidora, - a comida, o dinheiro, os pensos da mulher, a vida dele e a dela, tudo era dele. … deles!
Do amante, saber-se-ia que era o antigo namorado que ela deixara na Metrópole que sabendo-a infeliz com o casamento, viera propositadamente para a roubar ao marido e fugir com ela para a África do Sul.
Que o marido soubesse ou desconfiasse, o facto é que fingira essa viagem, deixara o camião algures e, de pistola em punho, abrira a porta e desfechara dois tiros na mulher.
Matara a mulher e poupara-lhe o amante. Talvez alguns resquícios de consciência sepultados naquele cérebro culpado, tivessem muito parcamente emergido mostrando-lhe as “pretinhas” todas que ele não poupava a troco de uma simples boleia
Na casa do Luís, outro drama se passava. A bebé não resistiria à doença e acabaria por falecer.
Alguns meses depois o pai venderia aquela casa e compraria um terreno noutro bairro, onde construiria uma nova casa para onde iriam viver.

Dezoito anos depois.

O Luís, rapaz a fazer 27 anos, tendo há pouco mais de três anos sido desmobilizado do exército português e depois de várias e perigosas peripécias deveras interessantes, apresta-se para dar um rumo à sua vida mais de acordo com a idade. Não porque verdadeiramente o pensasse, mas mais pelo que as mães das meninas suas conhecidas lho recomendavam mal ele tinha a desdita de as encontrar. E por uma estranha e inexplicável coincidência até na sopa as encontrava. Por esse compreensivo motivo procurou um trabalho que o levasse para bem longe de casa, se possível para fora de Angola, mas não o tendo conseguido achou que o Huige, a quatrocentos quilómetros de casa, já remediava.
Era a noite de véspera da sua partida para lá. Sairia quase de madrugada e resolveu terminar o dia indo comprar cigarros ao bar de um amigo, e se porventura encontrasse um amigo, beber uma cerveja com ele e cavaquear um pouco. Não encontrou nenhum portanto comprou o tabaco e bebeu uma cerveja ao balcão. Aprestava-se para sair quando reparou num homem, para aí com uns cinquenta anos ou à volta disso, que olhava insistentemente para si. Aliás; até já reparara na noite anterior mas não lhe prestara grande atenção, mas agora fazia-o e desagradava-lhe ver-se sujeito a um escrutínio tão rigoroso. Encolheu os ombros e não pensou muito mais no assunto. Pagou, despediu-se e saiu porta fora. O estranho levantou-se também e segui-o. Parou, virou-se e esperou que ele chegasse até si para saber o que se passava. O homem, como que receoso, parou também, hesitou mas depois decidiu-se. Chegou até ao rapaz, cumprimentou-o educadamente e explicou-se. Perguntou-lhe se se chamava Luís de… que de pequenino habitara em tal lado na Vila Clotilde. O rapaz confirmou. Perguntou-lhe então se se recordava de uma senhora muito bonita, sua vizinha que gostava muito dele e brincava com ele, e o Luís não respondeu. Encarou-o olhos nos olhos e exigiu saber o motivo de tanta curiosidade. Ele desculpou-se e apresentou-se como sendo o namorado dela, que ele, Luís, uma vez o vira beijá-la.
Uma raiva surda até então reprimida, espoletou como a sanha do leão predador e a sua primeira reacção foi levar as mãos ao pescoço dele e estrangulá-lo até a morte, mas dominou-se a contra gosto. Intuitivamente algo lhe dizia para ouvir esse homem. E ele disse. Disse-lhe que talvez gostasse de saber que o assassino já não vivia, matara-o ele. Depois da morte dela, ele, o namorado, fora para a África do Sul mas há coisa de uns quatro anos, tendo a sua vida estabilizada naquele país, viera a Angola propositadamente para o matar. Seguira-o várias vezes até que a oportunidade surgira. Era de noite, ele tinha feito uma paragem para se aliviar e enquanto puxava as calças, ele saltara-lhe em cima, dominara-o, amarrara-o e tendo regado a cabine com gasolina, ateara-lhe fogo com ele vivo lá dentro. Tudo do mais simples que havia. Mais um trabalhinho dos costumeiros atribuído à UNITA, claro. Pensou que ele, Luís, gostaria de saber.
Sim! Gostara! Gostara muito e agradeceu-lhe sinceramente, mas agora não o queria ouvir mais.
Admiradíssimo, perguntou-lhe porquê, e o rapaz disse-lhe. Reiterou-lhe os agradecimento por ter matado o assassino, sobretudo por tê-lo queimado vivo mas que só lhe prestara atenção pelo respeito e o amor que a ele, Luís, a sua mamã lhe merecia, por ter sido ele, o homem à sua frente, o que ela amara .
Como ele parecia não ter compreendido, o rapaz explicou-lhe melhor. Culpou-o de ter sido o verdadeiro assassino. Se de facto fora o marido a disparar, a causa da sua morte fora a sua cobardia. Se viera de Portugal para a roubar ao marido e fugir com ela para a Africa do Sul, por que hesitara na tomada de decisão e protelara-a até o assassino ter tido tempo para a assassinar.
Cabisbaixo, humilde e numa voz dorida, ouviu dele a terrificante declaração :
- Não sabe?
- Não! O quê?
- Quisemos fugir a tempo, sim . Tantas vezes ela esteve dentro da minha carrinha com a mala feita pronta a partir. mas… Desistia sempre no último momento. Dizia que não podia deixar o seu menino, não podia abandonar o seu filho.
Não se recorda bem o que se passou a seguir. Vê-se numa corrida desesperada para casa, não escutar nem compreender pai e mãe, pegar nas chaves da carrinha e disparar para lá, para o velho e inoperante cemitério fechado há mais de doze anos.
Deixou a carrinha ao abandono e com um salto demencial galgou os quase três metros do muro do cemitério, correu como um louco, passou pelas campas das duas irmãs e com um mamã que lhe arrancou a alma, foi cair na campa dela onde lá passou toda a noite a chorar e a pedir-lhe perdão.
Rompia a alva quando de lá saiu. Sem tomar banho, sem se barbear, sem se mudar nem comer, foi buscar a mala a casa e partiu para o trabalho que o aguardava.

 

Fim.

A Mamã, parte2

por Corvo, em 07.04.15

E assim se passaram quase dois meses da mais perfeita realização para uma mãe que não era mãe e para um filho que não era filho.
Quando a conheceu ela era bonita e triste, mas agora transfigurara-se para uma beleza esfuziante. Soltara-se, brincava, ria exuberante. Desabrochara, enfim.
Estavam quase sempre juntos. O marido, que devido ao mau estado das estradas de então; lamacentas e acompanhando o relevo paisagístico o que fazia com que um camião estivesse mais tempo enterrado do que em movimento levando a que uma simples viagem de oitocentos quilómetros demorasse uma semana, ou mais; raramente estava em casa. Era nesses fugazes momentos da presença do marido em casa que alguma frustração emergia entre eles, mas nada que não se suportasse com a certeza que no breve espaço de um dia, dia e meio, ele se fazia novamente à picada. E como um rio caudaloso afogando aquelas duas almas, que tinham tanto de gémeas como de carentes, a felicidade irrompia em toda a sua plenitude.
Comprazia-se em levá-lo pela mão para todo o lado, e sempre que a ocasião ou um displicente motivo surgia, não o desaproveitava para se passear com ele.
Num sábado, por volta das dez da noite, a quietude noctívaga foi ultrajada por dois estampidos provocados por uma arma de fogo. Nunca soube, tão-pouco alguma vez se preocupou indagar o impulso angustiante que o levou a correr disparado para a casa dela,
Alguma gente corria para lá, mas ele foi dos primeiros a chegar. Sobre uns lençóis imaculadamente brancos que rapidamente se tingiam de um vermelho vivo pelo sangue que os empapava, ela estava nua sobre eles. Ligeiramente inclinada sobre o lado esquerdo, o braço pendia fora do leito por onde o sangue que em golfadas jorrava do seio trespassado, o conduzia livremente até ao chão formando uma poça no lajedo, que com uma rapidez estonteante alastrava como um lago. Sentado numa cadeira e ainda com a pistola na mão, o marido repetia incessantemente:
- A minha honra. A minha honra. A minha honra manchada.
Depois os acontecimentos precipitaram-se. Viu chegar o pai a correr e, sem se deter, com toda a rapidez sacar um cobertor de uma gaveta e com ele cobrir o corpo desnudo. … “a minha honra, a minha honra manchada.” Repercutindo-se-lhe no cérebro, martelando-o, destroçando-o. Uma vontade louca de correr para ela, de a abraçar e beijar: de ser abraçado e beijado. “Mamã”

continua.

A Mamã, parte 1

por Corvo, em 06.04.15

No início de noite de uma quinta-feira do mês de Novembro do longínquo ano de 1948, ao regressar do colégio, o pequeno Luís deparou com grande agitação dentro da sua casa. Fora-lhes fazer uma visita de cortesia um casal que há pouco tempo se mudara para o seu bairro. Vila Clotilde, hoje quase centro da cidade de Luanda mas naqueles tempos, arredores bastante afastados.
Fizera nesse mês oito anos e por motivos do trabalho do pai só há um mês entrara para a primeira classe. Até então habitara, desde os cinco anos, altura em que o pai mandara vir a família para junto dele, até quase aos oito numa casa de cantoneiros no interior da selva angolana; hoje também parte integrante da cidade de Luanda, e a sua vida resumira-se, na companhia de um negro grandalhão para ai à volta de uns quarenta anos que assumia as funções de seu guardião particular mas que de juízo tinha seguramente menos do que ele com seis, que tinha como única e exclusiva incumbência recomendações restritas de não o deixar pôr pé a mais de cinquenta metros de casa; resumira-se, dizia; a empoleirados numa árvore ver a chita a perseguir a presa e os mabecos e as hienas a encurralarem caça.
De modo que quando aos oito anos entrou para o colégio era um pequeno selvagem que conhecia incomparavelmente melhor a savana e os seus habitantes do que as crianças da sua idade.
Ela, a visitante, era uma senhora belíssima. Nunca soube a sua idade mas deduziu que não teria mais de 26 anos. Rapariga, portanto, mas para ele, criança, era uma senhora como a mãe, um pouco mais nova só que incomparavelmente mais bonita. Ele era um homem para aí à volta de 40 anos, rude, tosco e bruto. Falava muito alto, gesticulava e interrompia as pessoas, sobretudo a esposa e ria-se das suas próprias piadas.
Ainda sobre ela e porventura o enigma que um tal casamento completamente desfasado, tanto pelas idades como pelas educação e formação, possa suscitar. Era filha de um grande agricultor, culta, até chegara a frequentar o Liceu; coisa que nesses tempos era raríssimo para um rapaz e aconselhadamente desapropriado para uma rapariga, mas a guerra e a politica de Salazar arruinara-lhe o pai, assim como tantos outros pais, e ele, o marido, era camionista, portanto rico, ou para lá caminhava porque naqueles tempos o feliz proprietário de um camião era um senhor já que toda a mercadoria que circulava na colónia era através dos camiões que se fazia. Deve ter sido esse o motivo que a levou a casar-se com ele, quando, uma vez, ele apareceu por lá rotulado de rico.
E desde o primeiro momento em que ela viu o rapazinho, nunca mais os seus olhos se afastaram dele e um encantador sorriso de afabilidade, acompanhavam-nos. Prestava a máxima atenção ao que ele fazia e dizia, mostrava-se solícita e prestável no que entendia ser de mais difícil execução para ele. Veementemente interessada, perguntava-lhe tudo, interessava-se por tudo que lhe dissesse respeito e praticamente deixou de prestar atenção às três irmãs e, sem se dar conta, já quase nem conversava com a sua mãe. Toda a sua atenção e palavras eram para o Luís. E sorria, sorria sempre.
Na tarde do outro dia ao regressar do colégio, ela estava à janela e não disfarçou que o esperava. Convidou-o a entrar aliciando-o com um bolo de coco que fizera especialmente para ele, pois já se informara pela sua mãe que ele era doido por bolos de coco, como aliás, é doidice que perdura.
Dentro de casa ela rodeava-o de atenções. Insistia para que comesse mais uma fatia, que lhe dissesse se estava ao seu gosto senão que lho dissesse como queria que ela fazia, interessou-se pelo seu aproveitamento escolar e, sobretudo, sorria e enternecida, olhava muito para ele.
Com isto o tempo foi passando e quando ela deu conta ficou muita aflita. Pegou-lhe pela mão e foi levá-lo a casa. Desculpou-se com a mãe dele que a culpa era toda dela e, timidamente e a medo, perguntou-lhe se não se incomodava que ele a visitasse de vez em quando. Claro que a mãe não pôs objecções a algo que lhe aliviava o trabalho de ter de o aturar, mas mesmo que pusesse ele já estava mais que determinado a desobedecer-lhe.
No outro dia a cena repetiu-se, e tinha um livro para ele, o que seria o seu primeiro livro. “A Gatinha Encantada.” Com ar enternecido disse-lhe que era muito bonito, o menino mais bonito que já vira na sua vida, que as suas três irmãs não eram feias mas que ele era muito mais bonito. Ficou pensativa, perdeu o sorriso e olhou fixamente para ele, e, praticamente falou para si mesma que feliz era mãe dele com quatro filhos e só a ela Deus não lhe dava nenhum.
Voltou a pegar-lhe pela mão e foi levá-lo a casa. Lá dentro reiterou com a mãe o que a ele lhe dissera na sua casa. Que ela devia ser a mulher mais feliz do mundo abençoada com quatro filhos, e a mãe disse-lhe que a mais infeliz, isso sim, que nem ela imaginava o trabalho que os quatro lhe davam, especialmente agora que a bebé adoecera. Ela respondeu-lhe se lhe queria dar o Luís que era o seu maior sonho ter um filho como ele. A progenitora ficou muito séria a olhar para ela, e parou de rir. Ficou muito atrapalhada e desculpou-se que estava a brincar.
No outro dia lá estava ela esperando-o. Passaria a ser um ritual. Mais bolos de coco, mais laranjadas, mais livros, mais brincadeiras, mais risos, mais juras dela que era a mulher mais feliz do mundo desde que o conhecera e lhe fazia companhia.

E assim se iam passando os dias para completa realização de uma rapariga ansiosa por um filho, e de um filho de outra ansioso por lha propiciar.
Adorava levá-lo pela mão à loja fazer as compras. Fazia inauditos esforços para carregar os cartuchos das compras num só braço para poder ter o outro livre a fim de o trazer pela mão, no regresso.
Uma tarde em que por motivos de saúde da professora o irrequieto Luís não teve aulas, resolveu explorar um caminho suspeito por onde se dizia aparecer um lobisomem sinistro, e deparou-se com ela abraçada a um rapaz, a beijarem-se. Ela quando o viu soltou um grito, afastou-se do rapaz e correu a fugir para casa. Ficou atónito e sem nada compreender. Tinha oito anos, e muito ao contrário das crianças de hoje a quem a TV e a Net, já para não falar dos beijos públicos que se vêem em profusão pelos casais por tudo quanto é sitio alguma coisa ensina, ele desconhecia isso tudo. Culpou-se veementemente pela maldita ideia de ter passado por ali, porque não obstante a sua ignorância algo lhe dizia que não era normal o acontecido, mas atribui -se a culpa de tudo. E agora? Como é que ela podia voltar a gostar de si depois do seu horrendo crime? Já não o quereria voltar a levar pela mão? Mas é claro que não. Tinha tanta certeza disso como a da estúpida veleidade do veado lá na anhara a pensar que escapava à onça.
Durante dois dias não voltou a passar pela casa dela. Fazia um desvio mais longo e vinha pela parte de cima, tal era a sua vergonha. Mas vinha sempre triste e amaldiçoando a maldita curiosidade pelo licantropo que dera azo ao seu nefando crime.
À tarde do terceiro dia quando regressava pelo mesmo caminho e no mesmo estado de profunda comiseração por si mesmo, ela estava à sua espera. Fora fazer compras a uma outra mercearia que ficava naquela rua. Mostrou-se muito surpreendida por o ver, balbuciou um não-sei-quê inatendível para ambos e muito timidamente perguntou-lhe se não queria acompanhá-la a casa porque, mesmo por acaso, fizera um bolo de coco muito especial. Para o rapazinho, foi como o Céu abrindo-se.
Ela ajeitou os cartuchos das compras contra o peito segurando-as num só braço para poder ter o outro livre e dar-lhe a mão. E talvez, os dois corações mais felizes deste mundo nesse momento, assim se encaminharam para a casa dela.
Lá dentro ela mostrava-se tímida e receosa e era com voz muito comprometida que lhe perguntava se estava a gostar do bolo. Inopinadamente e sem que a razão, o discernimento e muito menos o conhecimento tivesse alguma coisa a ver, ouviu o rapazinho numa voz sumida.
- Eu não digo nada.
Soltou um grito e os olhos esbugalhados olharam-no como se não acreditasse no que eles testemunhavam. Correu para ele e apertando-o num abraço cerrado contra o peito, mais do que falar, soluçou.
- Meu filho! Meu querido filho do meu coração.
E sem pensar nem nada conjecturar, o rapazinho de oito anos disse o que a condenaria.
- Eu também quero que seja minha mamã.

Continua.

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