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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na doçura de um Inverno - parte IV

por golimix, em 31.03.15

 

Postal-Antigo-de-Vila-Real.png

 

Para a pobre florista saber que a sua filha, ainda há pouco uma criança, estava grávida fora como levar um tiro bem no meio do coração ficando este a esvair-se em sangue durante uma eternidade! Um valente murro no estômago! Como não percebera que algo se passava?

Ela andava cabisbaixa, triste e queixava-se com frequência de cansaço. Já se andava a questionar se seria melhor levar a catraia ao médico. Se assim fosse, a vergonha que teria passado! Antes assim. Saber pela boca da própria filha. Aquando a visita da Sr.ª D.ª Antonieta, mais a sua prosápia, a discussão em casa tinha sido feia e culminou com a revelação da sua menina.

- Chega! Por favor não me batas com o cinto pai ou ainda matas o teu neto! – Gritou em lágrimas a pobre rapariguita, de joelhos, e levando as mãos ao alto em súplica.

O marido deixou cair o cinto e ela perdeu os sentidos. Lembra-se de acordar na cama com a filha ao lado lavada em lágrimas.

- Ó minha filha que desgraça! O que foste tu fazer? – Gemeu a Sr.ª Gina

- Perdoa-me mãe. Mas ele ama-me e certamente casará comigo. E eu? Eu também o amo. Deixei cegar-me pelo sentimento que me dominou.

- Casar contigo? Minha querida menina, tenho pena de ti! Se ele o fizer, o que não acredito, do que irás enfrentar com “aquela” mulher e se ele não o fizer, com o que irás sofrer! Deus te proteja! – Disse a Sr.ª Gina deixando escorrer as lágrimas que pareciam vir de fonte inesgotável.

De comum acordo, a Sr.ª Gina e o marido deliberaram que a filha não sairia de casa sem ser na companhia, ora de um, ora de outro. Mesmo para ir à escola! Não que o mal já não estivesse feito. Mas a Sr.ª Gina tinha um mau presságio desde que falara com a mãe do rapaz. E pelo menos dela poderia protegê-la, já que não foi a tempo de a proteger do filho.

E apesar do sacrifício que essa decisão acarretava nas suas tarefas, pois tinham que levantar-se muito mais cedo para adiantar as suas vidas, achavam ter sido a melhor decisão. E o tempo veio a dar-lhes razão.

 

Miguel tentou por diversas vezes falar com a amada mas sem conseguir, pelo menos para ter a conversa que precisavam, e percebeu, pela escolta a que ela estava sujeita, que os pais já sabiam! Como tal, e covarde como era, decidiu manter a distância. Isso angustiava ainda mais a jovem apaixonada que esperava outra atitude do namorado. Mas, tinha a certeza, que ele iria, certamente na companhia dos pais dele, falar com os seus pais. Afinal de contas não devia ser fácil enfrentar os pais de uma menina que se sentiam ultrajados sozinho!?


Passaram-se duas, no máximo três, semanas nisto. Com um dos progenitores a acompanhar, e a buscar, a filha ao Liceu, o que também já deixava os seus colegas a questionar esta atitude. No início de mais um dia de labuta, a Sr.ª Gina percebeu que teria que tomar uma atitude quanto ao futuro da filha. Não tardaria que a barriga se notasse! Teria de ir à casa daquela gente! E era melhor que fosse só. O seu marido perderia de certeza as estribeiras, e não era ocasião para isso. A ocasião era para cautela. Aquela gente não era de fiar! E se bem o pensou, melhor o fez. Conseguiu, através de Amélia, a amiga da filha, que tanto a ajudou a enganar os pais, o endereço da família de Miguel. Como ela o obteve não lhe interessava, já o tinha nas mãos! E certa manhã, simulou que ia para a loja, mas fechou portas pouco depois. E a pé, demorou pelos menos 2 horas, e a bom andar, a chegar lá. Estava à frente dos enormes portões da casa dos fulaninhos cheios de apelidos e linhagens. Ao fundo via-se o grande casarão pintado de amarelo claro, com os seus telhados bem trabalhados. Um brasão em pedra por cima da enorme porta de entrada, onde se chegava através de escadas em pedra. Muitas janelas a iluminariam! E varandas também não faltavam! Sim senhor. Um casarão! Mas sem se deixar deslumbrar, pensou - Também não é nenhum Solar de Mateus! - E encostada ao muro em pedra, que circundava a casa, limpava o suor do rosto e pescoço o melhor que podia. Nesta lide foi vista por Joaquim que podava uns ramos de uma árvore que pendia para fora dos muros.

-Gina!? Mulher! Que fazer aqui?! – Joaquim era o jardineiro, e às vezes motorista, da Sr.ª D.ª Antonieta. E que sabendo da qualidade das flores da Sr.ª Gina ia muitas vezes à sua loja adquiri-las, bem como plantas para o jardim! Mal a Senhora da casa sabia de onde vinha tanta beleza! – Além disso, conhecia muito bem o seu marido. Viveram juntos no Bairro dos Ferreiros quando pequenos.

Ao ver pelo menos um sorriso, apesar de espantado, de uma cara amiga a Sr.ª Gina descontraiu-se um pouco. Estava deveras enervada!

- Ó Joaquim. Nem digas nada! Mais tarde saberás. Por agora, só necessito que me leves à tua patroa. – Disse a Sr.ª Gina com o semblante de angústia.

- Chiii! Não sei se vais ter sorte. A Senhora anda de maus humores e tenho que anunciar-te. Duvido que te receba! – Coçava a cabeça Joaquim prevendo sarilhos pois conhecia o feitio, e o orgulho, da sua amiga.

- Ai recebe, Joaquim! Se não for a bem é a mal, mas hoje não saio daqui sem falar com a tua patroa, ou o teu patrão! E digam-lhe que se eles não me receberem eu virei para a próxima acompanhada da polícia!

- Polícia?! Cruzes! – Cada vez estava a perceber menos do caso. Apressadamente, Joaquim largou a tesoura da poda, e conduziu a sua companhia pelos jardim até a uma entrada lateral, bem discreta. Era a cozinha. Lá mandou chamar a criada que trabalhava dentro de casa, explicou-lhe o que se sucedia, e qual o recado que esta devia transmitir à Senhora, e despediu-se da Sr.ª Gina, pois sabia que a patroa não iria gostar de o ver ali, de conversas com alguém que chamaria a polícia se não falasse com ela!

A atitude de Joaquim, que transpirava medo à patroa, só veio dar mais certezas sobre a luta que estava prestes a travar! E que necessitaria de toda a sua coragem e argúcia. Mas estava bem preparada! Tinha tido umas conversas bem elucidativas com uma cliente, que era esposa de um Juiz.

 

A criada chegou, passados uns longos minutos, com ares superiores, para a encaminhar para um escritório. Abriu-lhe a porta e disse-lhe que esperasse pois a Sr.ª D.ª Antonieta blá… blá… blá, dissera-lhe para esperar ali.

- Arre para a mulher! Devia ter instruído a criadagem com aquela lengalenga dos Diabos! Raios para os apelidos! – Pensava Sr.ª Gina, ficando em pé, no meio do escritório.

A divisão era espaçosa e iluminava-a um enorme janelão com cortinas de veludo púrpura afastadas para o lado. Tinha alguns cadeirões com arrebiques no final do encosto, que estavam dispostos estrategicamente, cujos estofos eram da mesma cor da cortina de veludo. Cheia de livros, do chão ao teto, dispostos numa estante de cor escura e bem trabalhada. Uma carpete, em tons púrpura e azul, cobria o chão desde a secretária até quase à entrada da porta! Ah! A secretária era uma bela peça! Os pés virados para fora terminavam delicadamente. E a cadeira atrás desta era muito parecida aos cadeirões.

- Esta gente tem dinheiro e gosta de ostentação! Ó minha filha com quem te foste meter!?- Sr.ª Gina sentia a boca seca. E até a saliva lhe custava a engolir. O que não daria por um copo de água…

- O que faz em minha casa?!? Aqui só costuma vir quem é convidado! E isso é algo que nunca lhe vai acontecer! – A senhora da casa entrou com pompa e circunstância, deixando-se ficar à estrada da porta, pronta, ou para expulsar a visita inesperada, ou para fugir, caso fosse isso necessário!

- Creio, minha senhora, que temos de ter uma conversa – Disse calmamente a Sr.ª Gina. Hoje não podia deixar-se levar pelas emoções. O futuro da sua filha estava em jogo.

- Só a senhora para pensar que tem algo a conversar com a minha pessoa!? É preciso ser-se muito insolente para vir aqui desafiar-me! Desafiar-me? A mim? - Sr.ª D.ª Antonieta enchia o peito enquanto falava.

- Eu não a estou a desafiar minha senhora. Simplesmente quero uma reparação, uma solução, para tudo o que aconteceu com o seu filho e a minha filha! Não sei se sabe mas ela está grávida do seu filho e isto não pode, como calcula, ficar assim! - Suspirou ao sair o que estava preso desde que entrou na casa.

- Grávida do meu filho?! Ham! certamente ela deita-se com qualquer um! Uma rapariguinha que espera conseguir algo com o golpe da barriga! Pois veio ter à porta errada! - A dama sabia ser odiosa e fria nas palavras.

Foi necessário muita força de vontade para que a Sr.ª Gina não partisse a fronha de soberba da sua interlocutora! Mas precisava de agir com calma ou o feitiço virar-se-ia contra si. Ela sabia bem.

- Por favor - disse na voz mais calma que conseguia, embora lhe saísse trémula - não onfenda a minha filha que apenas tem 15 anos, acabados de fazer. Uma menor, portanto! E o seu filho, ao que sei, tem a maioridade. Resumindo um sedutor de meninas menores!

- Um sedutor!? Ela proporcionou-lhe divertimento, e talvez não seja a primeira vez, e ele simplesmente se divertiu! - Disse, soltando um sorriso falso e amargo.

- Eu sei que me quer fazer perder a paciência - a florista apertava as mãos com tanta força que lhe sangrariam se algo estivesse a ser apertado além de carne contra carne - mas isso não vai acontecer! Não sei se sabe sou a melhor florista da cidade, e a Senhora não é a única pessoa com posses e posição na sociedade por aqui. Conheço muita gente e sei como me valer dela! Já que, e ao contrário do que devem sentir pela sua pessoa, a simpatia que nutrem por mim sei-a verdadeira. Portanto lhe digo. Lhe rogo. A sua última palavra é a de que não vai reconhecer o seu neto? O filho do seu filho, que se abriga no ventre da minha menina? Não faça isso!

- A minha última palavra!? Nunca existiu outra palavra que não fosse a de não querer nada, nem consigo, e muito menos com a sua filha! O meu filho não reconhecerá criança nenhuma! Não será pai de nada que saia de dentro da sua filha! E agora rua! - Virou-se sem sequer olhar para trás! Deixando a mulher que falara com ela praticamente a desfalecer. Mas isso não aconteceu! Ela tinha declarado a guerra, ia, pois, tê-la! Nunca tivera medo da luta! Endireitou a saia, num movimento automático e saiu dali o mais depressa que pôde.

 

Não tardou, passados alguns dias, que o Sr. Dr. Diniz Belmonte e Castro entrasse em casa de semblante carregado. Procurou pela esposa e foi encontra-la numa das salas com um livro no colo e a fornecer as últimas instruções para o jantar.

Estendeu uma carta à esposa.

- Diz-me o que sabe disto Maria Antonieta? - era assim que a chamava quando algo o chateava.

Retirou do envelope, já aberto, uma carta. E entreabriu os lábios. Atirou o livro para o lado e ruborizada vociferou.

- A petulância daquela mulher de baixa estirpe! Daquela gente desclassificada! Quem é que ela pensa que é para difamar o meu filho?! - Sr.ª D.ª Antónia estava à beira de perder o controle.

- Difamar o teu filho? Ao que parece, minha cara, foi ele quem desonrou uma menina de, agora, 15 anos. Mas quando tudo começou teria 14. Ela está grávida. Grávida! O que sabes disto? E ao que parece sabes alguma coisa - Dr. Diniz, habituado à tensão, aparentava um certo controle, mas todo o seu corpo estava contraído.

- O que sei? Sei que essa miúda e a família são uns oportunistas! Querem obter dinheiro, é o que é! Mas não de mim! Está grávida? Certamente que se deita com todos! - andava de um lado para o outro agitando os braços.

- Minha cara. Vê-se que não entendes como são estas coisas. A menina tem imensas testemunhas abonatórias sobre o seu carácter. E mais! Há mais testemunhas ainda sobre os encontros que mantinha com o nosso filho! Por isso, te peço que penses com clareza. E não insultes uma jovem injustamente - Dr. Diniz era sensato e pensava com lógica.

- Certamente que tu, como advogado, hás-de saber desenvencilhar-te disto - Disse abanando a carta - E te garanto que nada vai acontecer. Afinal deves saber muito bem como se pode fazer por trás do pano.

Isto deixou Dr. Diniz furioso, que nunca tinha levantado a voz, até então, para a esposa.

- Nunca! Minha cara. Nunca me movi da maneira que sugeres, atrás do pano! Não foi assim que aprendi nem com meu pai, nem com meu avô. E pelo que vi, os teus caprichos, serão a tua perdição. Mas lembra-te, não te perdes só a ti. Está o futuro do teu, do nosso, filho em jogo! - falou determinado.

- O futuro do nosso filho? Não vais certamente deixar que algo daqui vá avante? - Voltou a Sr.ª D.ª Antonieta a acenar-lhe com a carta.

- Sim minha cara. Não farei nada. Ou melhor, farei. Deixarei que a justiça siga o seu curso. Tal como deve ser. E sabe que por detrás disto está o Sr. Dr. Juíz da Comarca! A esposa dele, ao que parece, é conhecida da mãe da menina. Como vês, o caso está feio. Por isso, tens duas hipóteses. Ou o nosso filho vai preso por sedução e conjugação carnal de, e com, menor. E a pena poderá ir até 5 anos! Ou aceitas essa criança e deixas que ele a reconheça! Sim. Porque sei que és tu que dominas todos os actos do nosso filho que parece não ter palavra! Portanto, decide-te bem e com calma - Dr. Diniz parecia fornecer as alegações finais de um caso.

- Eu decido? Pois bem. Irá preso! Mas nunca reconhecerá qualquer criança que venha dali como sua! NUNCA! Ouviste? - Sentenciou a Sr.ª D.ª Antónia atirando com a carta para cima de um sofá.

- Então, pede para chamarem o nosso filho e comunicar-lhe a "tua" decisão. - Dr. Diniz frisou bem esta última palavra. Achava sinceramente que o filho tinha que aprender a soltar-se das saias da mãe e crescer. E se tivesse que ser assim? Tanto pior. Assim seria!

 

Continua....

 

 

Na doçura de um Inverno - parte III

por golimix, em 30.03.15


jardim carreira.jpgJardim da Carreira em Vila Real - retirado da net

 

 

Enquanto prosperava o amor entre Miguel e a sua doce musa, com Artur e Amélia crescia uma bela amizade, e foi com eles que contaram para os seus encontros, já que as mulheres não gozavam de liberdade para saídas. Muitas vezes era Amélia quem encobria a amiga com  mentiras simples.

 

Mas a mãe de Miguel, mulher rígida, austera, e deveras elitista, que insistia em demonstrar a sua preeminência sobre, o que ela considerava, a populaça, não tardou em descobrir que algo se passava com ele. É difícil esconder quando se está muito apaixonado, que era o caso do seu filho, e meteu na cabeça que iria descobrir quem estava a atrapalhar os seus intentos de enviá-lo para Coimbra e ser um excelente advogado, tal como o pai, sem qualquer distracção. A menos que essa distracção fosse filha de alguém de ocupação condigna na sociedade. Mas o seu instinto de mãe dizia-lhe que isso não era o que estava a acontecer.

E o que fez? Ordenou a um de seus criados que seguisse Miguel e a avisasse quando, e onde, é que ele estaria de encontros secretos com uma moça. Tinha por intento surpreender os amados, e descobrir de quem se tratava a rapariguinha que certamente se tinha apoderado do seu filho. Para ela um inconsequente que não percebia nada da vida! E já que o pedido para a conhecer pelas vias tradicionais lhe fora sumariamente negado. Mais! Seu filho havia negado que, sequer, existisse algum amor na sua vida. Ela recorreria ao que fosse necessário para tratar da oportunista, tal como o seu instinto lhe dizia que era. Valer-se-ia de toda sua precisão e obstinação para cumprir o seu propósito.

 

Numa tarde solarenga, já a Primavera ia a meio, a Sr.ª D.ª Antonieta da Maia Belmonte e Castro fora avisada pelo seu criado sobre o encontro que seu filho estava a ter com uma jovem moça no Jardim da Carreira, ao que parecia era o ponto de encontro preferido dos amados. A moradia onde habitavam era algo afastada da cidade, mas nada que não se resolvesse com recurso ao automóvel que possuíam. Pediu ao motorista, que além disso realizava também algum serviço de jardinagem, que largasse tudo o que estava fazer no momento e a transportasse até ao ponto pretendido. Obviamente, o funcionário obedeceu sem questionar aquilo que lhe parecia, apesar dos muitos pedidos extravagantes que a patroa lhe pedia, uma insânia. Que raio queria a patroa fazer àquela hora no Jardim da Carreira?

 

Pediu que estacionasse a uma certa distância para que o carro não fosse avistado e ordenou que esperasse por ela, pois não demoraria. Colocou-se num ponto estratégico, e sem ser vista, observou, gravando a imagem da moça que estava com o seu filho na sua mente, e foi sentar-se em silêncio, e a ferver, novamente no automóvel. Esperou que o jovem par saísse do seu lugar. Viu Miguel acompanhá-la rua abaixo. Ordenou que seguissem o casal. Mais à frente esperava-os outra moça acompanhada pelo Artur, que ela tão bem conhecia, e de quem nunca gostou muito. De muito longe, e argutamente, viu-os a despedirem-se. A aproveitadora e a outra jovem, dirigiam-se em direcção à ponte, e era para aí que ela iria, perseguindo a sua presa. Tinha que a apanhar só!

Mas o seu desígnio estava difícil de conseguir! Depois de atravessarem a ponte ainda percorreram algum caminho até junto da estação, aí chegadas entraram as duas numa das muitas lojinhas que por ali havia, e de lá só saiu a jovem que estava com Artur. Mas ela não desistia! Tinha que resolver o mais rápido a questão! Esperou com paciência. Sem precisar de o fazer durante muito tempo, já que não tardou a que a rapariguinha saísse, pouco depois, acompanhada de um homem que havia entrado minutos antes carregado de cestos de flores. Provavelmente algum familiar ou sabe-se lá quem mais! Estava à espera de tudo!


Bem, se não a conseguia apanhar sozinha a ela tanto melhor. Talvez estivesse ali mesmo outra oportunidade mais eficaz servida prontamente à sua frente. Saiu da viatura. E dirigiu-se, ostentando soberba, à simples loja. À entrada recebeu-a um jacto de ar carregado de diversos aromas florais, o que a fez retirar o seu lenço de bolso, ostensivamente, e tapar imediatamente a boca como se em vez de uma brisa perfumada tivesse sentido um terrível odor putrefacto. Tratava-se de uma florista.

A loja era pequena, e dentro de vários baldes com água dispunham-se uma certa variedade das mais singelas belezas que existem no mundo. Mas isso não a comoveu. Ninguém estava à vista. Que descuido! Mas ouviam-se barulhos vindos do interior trazidos por uma pequena entrada, sem porta, que certamente daria para uma pequena a arrecadação, já que o espaço não parecia muito grande. Tossicou. E este sinal produziu o seu efeito. Surgiu à entrada uma jovem mulher, suja de verde no peito e com um avental meio molhado. Reparou no seu ar de espanto e compreendeu-o, afinal não seria todos os dias que teria visitas daquele calibre!

- Deseja algo minha senhora? Tenho as flores mais frescas da cidade! E o meu marido acabou de colher, e trazer algumas agora mesmo! – A mulher falou numa voz alegre e despretensiosa, sem sequer imaginar o que tal figura estaria ali a fazer. Mas não era a primeira vez que atendia damas da sociedade, já que algumas preferiam escolher o que desejavam pessoalmente, não relegando a tarefa a ninguém.

- Não, minha querida, guarde as suas flores – disse numa voz dissimulada – preciso só de saber se conhece a jovem que saiu daqui ainda agora com aquele homem?

A florista tomou um ar sério, não estava a gostar do rumo da conversa – É a minha filha! E o homem meu marido. Para que deseja saber? E quem deseja saber? – Soltou numa voz firme. Não se deixava assustar por madames com ar caprichoso!

- Quem deseja saber não lhe interessa, pelo menos para já. Sabe por acaso onde a sua filha esteve ainda há pouco? – soltou a seguir uma risada nervosa - Ó que pergunta a minha?! Deve saber certamente, pois parece-me pensar que lhe deve ser conveniente - Disse, olhando-a de cima abaixo, e de seguida olhando brevemente, e com ar enojado, para a loja.

- Mau, mau Maria! – A Florista tomava uma postura defensiva. Mãos na anca - Não estou a gostar nada da conversa! Eu não a conheço, não faço ideia do que possa querer dizer com isso! E ou diz directamente ao que vem, ou, se não quer flores, pode sair por onde entrou!

- Uh! Já desconfiava da sua educação mal lhe coloquei a vista em cima! – Gracejou  cheia de prosápia – mas uma vez que "finge" - disse frisando - não saber ao que vim eu digo-lhe. O meu nome é Maria Antonieta da Maia Belmonte e Castro e pertenço a antiga linhagem dos Maia e Alvarenga , mas nem deve saber o que isso é. Linhagem! – Soltou Sr.ª D.ª Antonieta  mais os seus apelidos.

- Bem! Ó minha Sr.ª D.ª da linho e dos carrinhos de linha todos, faça o favor de sair já por onde entrou, isso antes que eu perca a minha paciência, que está, lhe garanto, por fio! Olha que uma destas! – Maria Angelina, Sr.ª Gina, nome como era conhecida, começava a julgar que a mulher, dada a ares de dama, que tinha a sua frente sofria de uma perturbação mental qualquer.

- Não arredo pé daqui enquanto não me prometer que a sua filha não perseguirá o meu filho! Porque eu tratarei de o afastar dela! E ele obedecer-me-á, como sempre. Só necessito é que colabore e mantenha a sua "menina" - disse fazendo questão de acentuar a última palavra - longe! Bem longe. Ouviu?  – Firmou Sr.ª D.ª Antónia, sem mover um músculo de onde se encontrava.

- A minha filha com o seu filho? Ainda por cima a persegui-lo? – a pobre florista até entreabriu a boca de espanto – Mas quem lhe disse tal?

- Ninguém me disse, eu vi com os meus olhos! E lhe afianço que tenho boa visão! E mais. Não pense a senhora, e a sua descendente, que obterão algo desta relação! Eu nunca deixaria que isso sequer avançasse a tal, apesar de achar que se trata de um namorico sem consequência, não quero o meu filho misturado com gente como vós! Muito menos distraído dos propósitos que temos para o seu futuro.

 

A Sr.ª Gina, mulher inteligente, percebera tudo num ápice. Afinal talvez os trabalhos de estudo que tanto tinha com a Amélia não fossem só trabalhos… mas isso resolveria em casa. Agora, só tinha que espantar aquela ave rara dali!

– Minha querida – Soltou no ar mais exageradamente afectado que conseguiu – quem não quer nada com a sua família sou eu!! Com a minha filha entendo-me eu! Entenda-se a senhora como o seu filho. Porque a minha menina tem 14 anos e vamos ver quem persegue e quem é o perseguido aqui!!! Ponha-se já daqui para fora! Não quero, e nem preciso, dos seus nomes todos ou do que eles possam trazer, e até lhe dizia onde os enfiar não fosse a minha mãezinha ter-me ensinado a respeitar mesmo quem não me respeita! Portanto, a ser superior! 

- Você a ser superior?! - Olhou-a com desdém a Sr.ª D.ª Antónia - Nunca o conseguirá! E sim, vou-me já embora antes que apanhe um problema respiratório ou outro mal qualquer - voltou-se para a porta não sem antes virar a cabeça e ainda proferir - está avisada, mantenha a sua catraia bem longe! Ou não sabe do que sou capaz!

 

E saiu, não ouvindo as bravatas e calões que saíram da boca de Sr.ª Gina. Ah! Mas a sua filha ia levar que contar! Ai se ia!

 

Por sua vez, a Sr.ª D.ª Antónia, chegara a casa a praticamente a cuspir fogo! Subiu aos quartos,  dirigindo-se prontamente ao quarto do filho, esperava encontra-lo aí. E assim foi. Miguel estava estendido de costas na cama e olhar fixo no teto. Certamente a sonhar com ela. Ia acabar com isto e já! E de rompante atirou.

- Menino Miguel já sei quem é a fedelha com quem se tem encontrado e já tratei do assunto com a terrível mãe que ela tem. Nunca mais! Ouviu!?!  Nunca mais quero que a veja! Não quero sequer  que lhe fale! Afaste-se dela ou vai ter que se haver comigo! 

- Mãe! Ó mãe o que foste fazer? - Miguel levantou-se de olhos esbugalhados e aturdido.

- O que fui fazer? Fui libertá-lo de uma aproveitadora. Uma catraia de 14 anos que já sabe mais do que devia! E o menino devia ter juízo! Já se divertiu? Agora chega! está na hora de voltar à realidade. O que não falta são jovens mais adequadas para si.

- Mãe, mas é a ela que amo. Quem disse que quero ser liberto? Afinal só tem menos 4 anos que eu. O que é isso? Além do mais não me posso afastar dela.

- Não pode?! Mas quem pensa que manda? Pode sim! Ouviu?

- Mãe, ela está grávida! Vai ter um filho meu!

 

E assim começou a época mais negra da vida de Miguel. No futuro, uma nuvem negra o esperava, pacientemente, para tragar toda a felicidade que sentira até então...

......

O avô interrompeu a história levantando-se do cadeirão do escritório onde outrora se acomodavam livros, interrompendo deste modo a intensa narrativa.

- Ó avô, outra vez? Não me vais deixar assim pois não? - António abriu os braços em súplica.

- Caramba! Se queres que continue deixa-me ir fazer um pouco de café. Já é tarde e preciso de uma dose de cafeína. Já continuo......

Na doçura de um Inverno - parte II

por golimix, em 29.03.15

Continuação daqui

liceu CCB.JPGLiceu Central de Camilo Castelo Branco - imagem retirada daqui

 

Corria  o ano de 1965. Apesar de estarem em Novembro, o Inverno ia ameno, coisa rara num interior Transmontano! Ainda não tinha nevado e os dias, apesar de frios, espreitavam solarengos a maior parte das vezes.

Miguel fazia parte do grupo de Jovens que frequentavam o Liceu Central de Camilo Castelo Branco em Vila Real, mas era dos poucos que usufruía de uma vida sem sacrifícios económicos para poder estudar. Pertencia às chamadas famílias de posses! Família essa que além de possuir vários terrenos nas zonas circundantes a Vila Real, muitos dos quais eram fonte de rendimento, tinha alguns imóveis, fruto de heranças de família. O pai era um conceituado advogado da cidade, o Sr. Dr. Diniz Belmonte e Castro. Portanto, Miguel vivia com seus pais desafogadamente, mas nem por isso era dado às folias, coisas mais vistas nos rapazes mais abastados. Muito pelo contrário! Quem o conhecesse pensaria, subtraindo a sua elocução e maneira de vestir que o denunciariam, que se tratava do filho de um agricultor, tal era simplicidade do seu carácter!

 

Acompanhava-o sempre um grande amigo de nome Artur Alves, filho de uma padeira da Cidade de Vila Real, outro simplório sempre bem disposto. No dia em que tudo começou, Artur e Miguel entraram no Liceu acompanhados de boa disposição, vinham a discutir um jogo de futebol qualquer que tinham assistido no domingo passado. Era, pois, início de semana. A entrada do Liceu estava cheia de jovens e pairava no ar o rumorejo das diversas conversas soltas e cheias da preguiça  habitual a uma manhã de segunda feira. A ninguém apetecia dar o primeiro passo em direcção às salas de aula.

Artur vinha distraído a discutir um pormenor do jogo, contrariando a opinião de Miguel, e incautamente esbarrou nas costas de uma jovem morena de óculos. O encontrão foi tal, contando com o facto de Artur não ser propriamente um modelo leve, que a jovem teve que valer-se dos seus bons reflexos para não ficar com as lentes, da sua preciosa ajuda ocular, espalhadas pelo chão de mosaico gasto dos anos de consecutivas esmagadelas!

 

Os rapazes desfizeram-se em desculpas, especialmente o autor da desdita. Valeu-lhes a simpatia da moça que aceitou, ruborizada, as desculpas de Artur. Entre eles gerou-se uma clima de uma certa cumplicidade, tanto que Miguel começou a sentir-se a mais. De mãos no bolso assistia à liquidificação do seu amigo em gentilezas. Ó Artur... - pensava ele - Mais um rabo de saia!

 

Foi então que reparou nela! E nunca percebeu como é que a sua figura lhe tinha escapado à sua observação sempre atenta a beldades. Era magra, mas sem ser exageradamente, cabelos de ébano que se soltavam em cachos largos pelos ombros e lhe envolviam uma pele de neve e um olhar intenso! Encerrava todo um mistério e paixão nos seus olhos verde escuro. Era simplesmente aparição! Devia estar acompanhada da tagarela simpática que cavaqueava singelamente com Artur. Sentindo-se observada desviou o olhar directamente para o ponto alvo, o seu espectador de ar embasbacado.

- Olá! - disse numa voz que lhe pareceu das mais melodiosas que ouvira até então. - parece que estamos a mais! - sorriu com cumplicidade

- Pois... - Pois!!?? Que raio? Só sabes dizer isso palerma? Tens uma beldade destas e perdes a língua vê lá se sabes falar! - e com este pensamento recompôs-se. - Olá! Eu sou o Miguel! Não me lembro de a ver por aqui! - disse estendendo a mão - obteve o seu nome, que lhe ficou retido na mente, e deteve-se na sensação que o percorreu ao tocar-lhe na pele. Sentiu uma espécie de corrente eléctrica, como se tivesse levado um choque, mas dos agradáveis, se é que tal existe!

Ao afastar-se ao toque ela continuou, com a face agradavelmente enrubescida - É natural que não se lembre de me ter visto, afinal é aluno do último ano e nós ainda temos um pouco para lá chegar.

Não, não é natural que eu não me lembre de ti! Pensava Miguel respondendo - Mas também não vos deve faltar muito, que ano são?

- Somos do 4º ano - soltou a sua voz cheia de mel

- Do 4ª ano?!? - Bolas ela tinha apenas 14 anos!! E ele 18! Como é que uma catraia o pôde colocar naquele estado! Decididamente não era nada bom a ver idades!

 

Trocaram mais meia dúzia de palavras sempre com Miguel completamente absorvido por aqueles lábios. Ele bebia-lhe os vocábulos como se saíssem do Santo Graal! Finalmente, e sem saber como, fora quase empurrado por Artur até à primeira aula.

Tudo decorreu com normalidade durante o resto do dia, exceptuando o facto de a sua mente estar a demorar-se, mais do que ele desejava, em considerações sobre a, mais que jovem moça, que conhecera de manhã! E por diversas vezes foi chamado à realidade dos acontecimentos à sua volta!

 

Viu-a mais algumas vezes durante a semana e sempre que isso acontecia sentia que o seu coração lhe iria pregar uma partida e ejectar-se para parte incerta. Tentava parecer descontraído mas  tudo lhe saía uma trapalhada! E isso enervava-o deveras! Caramba! Ele tinha 18 anos feitos recetemente, para o ano iria para a Univesidade, tornar-se-ia advogado como pai, e não estava a portar-se à altura da sua idade com uma estudante do 4º ano!! Do 4º Ano!? Que raio Miguel! Recompõe-te! - pensava aturdido

Por vezes dizia baboseiras disparatadas, o que nem era de todo mau, já que isso a fazia rir e esse som era música para os seus ouvidos. Numa vez, vinha a comer uma maçã,  passou por ela, engasgou-se, foi prontamente socorrido por Artur, que certamente lhe salvara a vida com um grande e estrondoso murro entre as omoplatas, e quando foi a olhar ela estava a observar a cena aflitíssima! Bem... pelo menos notou que ela se preocupava com a sua pessoa. Quando ele mais aliviado, e a respirar normalmente, pensou ter tempo para trocar dois dedos de prosa com ela, eis que está na hora de mais uma aula! Arre! Que não fazes nada direito! - Reflectia

 

Mas foi no final da semana que ele pôde ver o quando Artur lhe salvara, ou complicara, a vida.

- Meu amigo, tenho uma excelente novidade para ti! - Chutou dando uma palmada nas costas de Miguel com tal força que ele balançou o tronco para a frente. Tudo arte da inexplicável exibição masculina.

Após aclarar a garganta conseguiu responder - Ai sim! Imagino... Mais uma cartada na taberna do pai Luís!?

- Tás maluco!? Se bem que... até pode ser considerado uma cartada sim senhor. Sabes aquelas duas jovens que conhecemos na segunda de manhã? - E sem esperar resposta continua de uma assentada com outra palmada nas costas do amigo, desta vez mais comedido na força usada - Ohh! Mas claro que sabes! Pareces um parolo cada vez que vês a amiga da Amélia que até mete dó!! - Riu-se a bandeiras despregadas! - Foi a deixa esperada para a vingança de Miguel que lhe pregou um carolo bem dado no cachaço, mas isso não fez Artur perder a fala, e continuou. - Marquei um encontro com elas no Jardim da Carreira hoje à tardinha. Mas não podemos demorar que elas têm que ir para casa cedo. Portanto não te entusiasmes muito!!!- Disse voltando a rir-se a bandeira despregadas. O palerma! Dava-lhe vontade de rir - pensou Miguel

- Quem disse que eu estou entusiasmado? - disse Miguel tentando parecer o mais casual possível

- Hummm.... É que se calhar pensas que eu não te conheço. Ó magano! - sorria Artur.

 

E parece que nesse dia o Senhor Tempo resolveu ser uma lesma e passar o mais lentamente possível pelas horas! Tudo para desespero de Miguel, que não se cansava de olhar para o seu relógio de bolso, oferecido pelo pai, duvidando se a corrente que o prendia aguentaria tanta investida!

No fim das aulas, com os alunos a saírem numa onda, elas estavam junto a uma árvore mesmo em frente ao Liceu. Artur seguia à frente com Amélia e a sua pessoa desfrutava da bela companhia que seguia ao seu lado descontraída e alegre.

 

E foi assim, a olhar para ela, e a escutar as reacções do seu próprio corpo, que percebeu que estava perdido para aqueles encantos. Mas como? Como poderia ser?

 

Alguns meses se passaram com alguns encontros fortuitos mas a sua maioria foram bem calculados que acrescentaram o fermento necessário ao evoluir de um doce amor juvenil. Nada fazia prever a grande tempestade que as suas inexperientes almas teriam que enfrentar.

.......

-Vá meu neto por agora chega! - Terminou o avô colocando o dinheiro certo na mesa do café, atitude própria de um cliente habitual, e levantando-se da cadeira.

- Como chega?!? E deixas-me assim? No que parece o melhor da festa! Mas queres que eu morra de curiosidade! Afinal a mulher da foto é a jovem paixão do Miguel? É que se era mudou muito! Aquela não parecia nada dada a doçuras!

- Não. Ainda não está nada explicado. Tudo a seu tempo meu menino. Aprende a esperar e a desfrutar do que te conto! Logo continuo, mas agora a tua avó espera por nós para o jantar.

- Mas meu caro avozinho nem penses que te deitas sem me contares o resto! - foi a vez de António se juntar ao avô, espreguiçando-se discretamente.

- Tudo bem. Mas só continuo depois de saber a tua avó adormecida! - Avisou sério

- E pronto. Consegues mesmo dar cabo da calma! - Riu-se António e abraçados saíram para a noite que entretanto caíra.

Na doçura de um Inverno

por golimix, em 26.03.15

chuva.jpg

 Ouvia-se o concerto dado pela chuva que caía lá fora. Estava um dia cinzento. Tão cinzento que António, rapaz mais dado a dias solarengos, acendeu a luz do escritório em pleno dia!

Estava deliciado a olhar para as diversas lombadas de livros no escritório do apartamento de seus avós. Havia livros nas estantes, no chão, na secretária e até numa pequena poltrona do canto se sentavam lá alguns bem confortavelmente. Humm... certamente romances. Talvez esses gostassem mais do conforto de um belo cadeirão almofadado!

Um apartamento habitualmente solarengo, que em dias nublados de Inverno não fazia milagres... ficava numa zona privilegiada de Lisboa. Junto ao parque das Nações. Apesar disso, o T2 estava decorado de forma simples e confortável. Desde bem pequeno que se lembrava de se sentar ao colo do avô enquanto ouvia, duplamente deliciado, as suas histórias. Duplamente, já que a avó adorava dar presentes ao seu estômago! Por falar nisso, já sentia o aroma "daqueles" biscoitos no ar! De certeza que iria surgir por aquela porta, não tardava nada, um prato bem convidativo deles. Lá se ia hora de corrida da manhã... mas dia não são dias! E tinha tão pouco tempo ultimamente para ir visitá-los, podia dar-se a esse pequeno prazer guloso, e à satisfação de ver o sorriso da avó enquanto ele se empanturrava. Porque é que os avós gostam de ver os netos a comer?!?

 

Suas mãos percorriam alguns livros, afagando-os. Tirava à sorte ora um, ora outro. Folheava, sentia o aroma do papel... Sempre gostou desse aroma, agora cada vez mais perdido num mundo de tablet's, computadores e telemóveis faz tudo! Subiu para uns degraus móveis que permitiam chegar às prateleiras superiores, bem coladas ao teto. Decerto livros que não seriam tocados há muito tempo! Nunca se lembrara de ir aquela última prateleira. Primeiro era pequeno demais para o fazer, e depois anos de estudo para concluir o seu curso não lhe permitiam grandes viagens pelo escritório do avô.

Continuou a sua epopeia, sendo mimoseado com uma camada de pó de cada vez que tirava um livro. Mas eis que, além de pó, solta-se de dentro de um livro uma fotografia antiga. Humm... quem seria? Engraçado, nunca a vira aquela pessoa nas fotos espalhadas pela casa! Aquela mulher ali, estática, presa no tempo. Havia algo de reconhecível naquele semblante.

 

- Ó meu menino que fazes aí em cima? - irrompeu o seu avô pela porta do escritório transportando o esperado pratinho de biscoitos

António sorriu em resposta. O seu avô era jovem. Na rua passaria por seu pai à vontade.

- Já sabe o quando gosto de vir aqui e não o fazia há uns tempos. - arrumou o livro e foi saindo de onde estava, ainda segurando a foto numa das mãos, aproximou-se da secretária onde o avô havia pousado o prato e servia-se, já salivando de antecipação, de um doce.

- Avô quem é esta senhora, tão séria, da foto?

António pode ver seu avô a perder as cores a pegar na foto e balbuciar.

- Onde foste buscar isto?

- Caiu de um livro lá em cima. Ó avô sente-se aqui, não parece estar bem! - disse encaminhando-o para a cadeira na secretária. Mas houve resistência por parte do seu ascendente.

- Não! Temos que sair daqui e queimar isto longe da vista da tua avó! Agasalha-te e vem.

 

Momentos mais tarde estavam na rua. Cessara a chuva mas nem por isso o dia estava mais simpático. Passaram por um quiosque para comprar um isqueiro e estavam num café da rua. O avô João pedira um cinzeiro e preparava-se para queimar a fotografia sem qualquer pejo!

- Caramba! Ó avô mas quem é essa mulher que a avó não pode ver? Uma amante? Não te sabia dado a essas coisas? - António ria-se tentando desassombrar o ambiente.

- Estás doido?!? Qual amante? - o avô voltara ao mesmo depois de só restarem cinzas daquele olhar sério e carregado da foto.

- Se calhar já é altura para te contar esta história. Mas não fales nisto a tua avó Mariana por favor. Iria entristece-la e ela não merece saber o que encontraste.

- Bem... está a deixar-me cada vez mais curioso! Conta lá.

- Está bem. Tens tempo? - questionou o avô

- Tirei o dia para estar convosco. Tenho tempo sim! - recostou-se mais à cadeira não fazendo ideia do que vinha por ali

 

 

...... continua

 

 

 

Porquê outro blogue?

por golimix, em 25.03.15

blog-readers.jpg

Numa altura em que até nem tenho muito tempo para me dedicar ao "Eu tento..."  porque raio me dá para criar outro blogue?!?

 

Bem... eu explico a ideia. Este blogue será só, e unicamente, para contar histórias. Algo que já experimentei no "Eu tento..." mas que achei que não ia de encontro à minha ideia original sobre o que queria ali escrever. Além disso, acho que ficam muitos post's misturados com a história que quero contar. Pretendo pois, começar aqui algo,  por exemplo uma história que me baile na cabeça há uns dias,  e seguir a mesma sempre que me apetecer escrever levando a "direito" a publicação.

 

Se vai resultar?

Logo se vê... pelo menos eu vou navegando nas letras e quem quiser juntar-se ao barco venha daí!

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