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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Na doçura de um Inverno

por golimix, em 26.03.15

chuva.jpg

 Ouvia-se o concerto dado pela chuva que caía lá fora. Estava um dia cinzento. Tão cinzento que António, rapaz mais dado a dias solarengos, acendeu a luz do escritório em pleno dia!

Estava deliciado a olhar para as diversas lombadas de livros no escritório do apartamento de seus avós. Havia livros nas estantes, no chão, na secretária e até numa pequena poltrona do canto se sentavam lá alguns bem confortavelmente. Humm... certamente romances. Talvez esses gostassem mais do conforto de um belo cadeirão almofadado!

Um apartamento habitualmente solarengo, que em dias nublados de Inverno não fazia milagres... ficava numa zona privilegiada de Lisboa. Junto ao parque das Nações. Apesar disso, o T2 estava decorado de forma simples e confortável. Desde bem pequeno que se lembrava de se sentar ao colo do avô enquanto ouvia, duplamente deliciado, as suas histórias. Duplamente, já que a avó adorava dar presentes ao seu estômago! Por falar nisso, já sentia o aroma "daqueles" biscoitos no ar! De certeza que iria surgir por aquela porta, não tardava nada, um prato bem convidativo deles. Lá se ia hora de corrida da manhã... mas dia não são dias! E tinha tão pouco tempo ultimamente para ir visitá-los, podia dar-se a esse pequeno prazer guloso, e à satisfação de ver o sorriso da avó enquanto ele se empanturrava. Porque é que os avós gostam de ver os netos a comer?!?

 

Suas mãos percorriam alguns livros, afagando-os. Tirava à sorte ora um, ora outro. Folheava, sentia o aroma do papel... Sempre gostou desse aroma, agora cada vez mais perdido num mundo de tablet's, computadores e telemóveis faz tudo! Subiu para uns degraus móveis que permitiam chegar às prateleiras superiores, bem coladas ao teto. Decerto livros que não seriam tocados há muito tempo! Nunca se lembrara de ir aquela última prateleira. Primeiro era pequeno demais para o fazer, e depois anos de estudo para concluir o seu curso não lhe permitiam grandes viagens pelo escritório do avô.

Continuou a sua epopeia, sendo mimoseado com uma camada de pó de cada vez que tirava um livro. Mas eis que, além de pó, solta-se de dentro de um livro uma fotografia antiga. Humm... quem seria? Engraçado, nunca a vira aquela pessoa nas fotos espalhadas pela casa! Aquela mulher ali, estática, presa no tempo. Havia algo de reconhecível naquele semblante.

 

- Ó meu menino que fazes aí em cima? - irrompeu o seu avô pela porta do escritório transportando o esperado pratinho de biscoitos

António sorriu em resposta. O seu avô era jovem. Na rua passaria por seu pai à vontade.

- Já sabe o quando gosto de vir aqui e não o fazia há uns tempos. - arrumou o livro e foi saindo de onde estava, ainda segurando a foto numa das mãos, aproximou-se da secretária onde o avô havia pousado o prato e servia-se, já salivando de antecipação, de um doce.

- Avô quem é esta senhora, tão séria, da foto?

António pode ver seu avô a perder as cores a pegar na foto e balbuciar.

- Onde foste buscar isto?

- Caiu de um livro lá em cima. Ó avô sente-se aqui, não parece estar bem! - disse encaminhando-o para a cadeira na secretária. Mas houve resistência por parte do seu ascendente.

- Não! Temos que sair daqui e queimar isto longe da vista da tua avó! Agasalha-te e vem.

 

Momentos mais tarde estavam na rua. Cessara a chuva mas nem por isso o dia estava mais simpático. Passaram por um quiosque para comprar um isqueiro e estavam num café da rua. O avô João pedira um cinzeiro e preparava-se para queimar a fotografia sem qualquer pejo!

- Caramba! Ó avô mas quem é essa mulher que a avó não pode ver? Uma amante? Não te sabia dado a essas coisas? - António ria-se tentando desassombrar o ambiente.

- Estás doido?!? Qual amante? - o avô voltara ao mesmo depois de só restarem cinzas daquele olhar sério e carregado da foto.

- Se calhar já é altura para te contar esta história. Mas não fales nisto a tua avó Mariana por favor. Iria entristece-la e ela não merece saber o que encontraste.

- Bem... está a deixar-me cada vez mais curioso! Conta lá.

- Está bem. Tens tempo? - questionou o avô

- Tirei o dia para estar convosco. Tenho tempo sim! - recostou-se mais à cadeira não fazendo ideia do que vinha por ali

 

 

...... continua

 

 

 

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