Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Na doçura de um Inverno - parte VI

por golimix, em 02.04.15

 

coreto JCVR.jpgCoreto no Jardim da Carreira - retirado da net

 

 

Enquanto Miguel enfrentava o cárcere e os seus fantasmas, a jovem mãe, sua amada, tinha na sua filha, Ana, a força para os seus dias, porque à noite, na escuridão, a mágoa foi, durante anos, a sua companheira de lençóis. Dedicara-se com zelo aos estudos, agradecendo todos os dias aos pais a segunda oportunidade, e a preciosa ajuda que davam com a sua filha. E o escândalo que foi a sua gravidez e o fruto da mesma, próprio a uma região pequena, foi sendo esquecido. Não há nada que o tempo não leve.

 

Terminou o liceu com  mérito e seguiu para o Magistério pretendendo ser professora.  Amélia continuava a ser uma grande amiga, apesar de se verem cada vez menos, uma vez que esta seguiu para a Faculdade de Medicina do Porto. Uma outra amizade lhe surgiu na vida. Artur! Este tivera que deixar os estudos em Coimbra para se dedicar a ajudar a mãe, já que o seu pai morrera jovem, com um enfarte, talvez fruto da vida sem regra que levava. Mas Artur, que também sonhara um dia ser advogado ou Juiz, tinha um dom extraordinário para o negócio! Fez prosperar a padaria, abriu uma pastelaria, que já contava com uma certa reputação em Vila real, e pensava já em abrir umas quantas filiais. Ia longe o rapaz! Foi muitas vezes o ombro amigo que ela usava para chorar. Até que aos poucos foram deixando de falar do passado, pois assim, mantinham-no bem sepultado de onde não devia sair. Assim, a dor foi aliviando. Nunca desaparecera mas tornou-se suportável. Isso o tempo não lhe levara...

 

 

Certo dia, já ela dava aulas, numa aldeia ali perto de Vila Real, e estando num domingo a passear a sua pequena na Avenida Carvalho Araújo encontrou Artur também a passeio.

- Posso acompanhar-te? - perguntou Artur sorrindo, como sempre.

Ela sorriu-lhe de volta - Claro que podes! És sempre bem vindo como companhia!

 

A sua filha saltitava à frente, tal como convém a uma menina divertida, parando a sua diversão para cumprimentar o "tio" Artur, como ela lhe chamava.

- Estás cada vez mais bonita e grande! - Disse-lhe afagando-lhe a cabeça.

- O avô está sempre a dizer-me isso! Riu-se a pequena mostrando os seus dentes alvos!

 

E virando-se para a mãe - Como te vês sozinha?! Ela agora deve dar um trabalhão!

- Sozinha? Nunca estive sozinha! Os maus pais estão, e estiveram, sempre presentes! E tu Artur? Tu sim precisas de uma mulher! Afinal tu e a Amélia?

- Huh! Não deu em nada... Ela tinha muito que estudar e a distância não ajudou nada. Bem... não ajudou porque não existia sentimento profundo. - Encolheu os ombros.

 

Chegaram ao fundo da rua e sentaram-se num banco. Permitindo a menina agachar-se no chão e continuar a brincadeira rabiscando a terra. A ela juntaram-se mais umas duas crianças que por ali passeavam com a família naquele maravilhoso dia de sol outonal.

- Preciso falar-te... - Artur agitava a sua boina, adereço que tinha passado a usar.

- Pois então fala rapaz! - Sorriu-lhe ela de volta, e olhando para a filha volta e meia.

- Já falei com os teus pais e eles aprovam a minha ideia mas a última palavra, como esperado, é tua.

Olho-o antevendo, com o coração estreito, o que ali vinha. Já que tinha ouvido a mãe falar muito bem do Artur a semana toda! - Fala Artur!

- Queria dizer-te que amo a tua filha, e sobretudo amo a mãe dela! - e sem olhar para ela continuava, pois temia que se o fizesse não iria dizer tudo a que se tinha proposto. - Por favor, aceita-me como teu esposo, deixa-me dar-te tudo o que mereces! ..... E aqui, o seu olhar foi de encontro a ela.

- Ó Artur... meu bom amigo! Não posso. Sabes bem que não posso! - A sua voz saia trémula

- Compreendo que não me ames, já desconfiava isso. Mas posso fazer-te feliz e sei que o amor, ou um sentimento parecido há-de surgir. Aliás há relações duradouras que se baseiam na amizade e isso já temos. - Continuava ele esquecendo o seu orgulho, pois quem ama como ele a amava não podia dar-se a esse luxo.

- Não Artur. Não é só por não te amar, mas.... - Ela hesitava.

- Não me digas que passados estes anos todos ainda o amas?!? Ainda pensas nele? Ele não o merece! Sabes que está em Vila Real? Pensa voltar para cá? Sei que a mãe dele está muito doente. Procurou-te o crápula? Procurou a filha dele?

Aquela notícia deixara-a sem quase sem forças... Ele estava de volta... parecia que todo o sangue lhe fugia das veias. Mas continuou tentando parecer indiferente, mas isso só o olhar comum acreditava, ele Artur, percebeu o quanto ela ficou abalada. 

- Ele não me importa! Não procurou pela filha, só ele sai a perder! Olha-a - E estendeu a mão em direcção à criança - Não. Não posso casar contigo. Porque no meu coração não há espaço para mais ninguém que não seja a minha filha! E te rogo não me voltes a falar mais nele. Pensei que isso já estava ajustado entre nós! - Estava contraída e segurava a carteira pronta a levantar-se.

- Certo. Peço desculpa se fui inconveniente... mas pensei que podias... que querias... - O desgraçado do rapaz estava de olhos no chão, atrapalhadíssimo. Amava-a mas preservava muito a amizade que os unia.

- Estás desculpado. Mas respeita a minha decisão por favor. - Olho-o, e como ele levantou o olhar, fê-lo perceber a importância do seu pedido.

- Está bem - deu-se por vencido - mas não deixes que a nossa amizade fique constrangedora por causa disto.

Ela sorriu-lhe de volta - Não querido. Quero-te muito para deixar que algo atrapalhe esse sentimento singelo. Que quero que fique assim.

Felizmente para ambos Ana atirou-se para cima deles numa risada. E a conversa seguiu para assuntos banais.

 

Não tardou a que chegasse o frio, próprio de uma terra Transmontana, e que convidava a um bom agasalho. Mas os dias de sol estavam ainda com visita assídua, apesar de estarem já em Novembro, ia, pois, um Inverno ameno. Resolvera, depois de mais uma semana de trabalho árduo, ir naquele sábado à missa na Igreja da Sé. Seriam as três e meia da tarde quando terminou. Apetecia-lhe dar uma volta, aproveitando que, para variar, estava sozinha. Estava um sol tão bom! Subiu a rua. E, distraída com seus pensamentos cansados, os seus pés levaram-na até à entrada do Jardim da Carreira! Quando percebeu que onde estava um calafrio percorreu-lhe a espinha. Foi prontamente dominado. Já não era a menina de outrora. Nove anos se tinham passado... Nove anos!  Que mal lhe poderia fazer entrar ali. Nunca mais lá fora, devia estar bem mudado.

 

Foi percorrendo os canteiros bem desenhados, olhando cada flor que ainda aproveitava, como ela, aquela dádiva de calorzinho ameno. As árvores iam perdendo as folhas e algumas quedavam no chão  estendendo um tapete colorido, que não tardaria a ser varrido pelos funcionários eficientes da Câmara Municipal. E foi então que parou junto ao coreto. Seus pés não conseguiram mais mover-se. O seu coração ardia-lhe no peito. E o motivo de tal reacção estava cada vez mais junto dela.

Sai daqui. Ordenava-se. Mas o corpo não obedecia à mente! Como se fossem de pessoas diferentes!

- Mariana. Minha doce Mariana estás uma bela mulher! - deixou ele, Miguel, escapar na sua voz bem timbrada. Os seus olhos rasos de lágrimas.

- Como pudeste?! Como ousas? - conseguiu ela dizer. Apertando a carteira junto a si. Como se o seu coração estivesse ali dentro!.

- Não ouso... Que direito tenho eu em ousar!? Vi a nossa menina! É linda! Linda como tu! - Pode-lhe ele sorrir, drenando mais uma lágrima.

- Viste-a? Como a viste? - Soltou ela.

- Quando passeavas aqui há uns dias na Avenida. - Sorriu ele continuando a verter uma, e outra lágrima, e sempre  próximo mas a uma distância que respeitava o espaço dela.

- Viste-me? Então viste-me com o Artur? - Ela estava boquiaberta.

- Sim. O bom Artur... Parece que vos dais bem... - Ele ansiava por saber mais, mesmo sabendo que não tinha esse direito.

- Sim. Foi o meu amparo amigo durante estes últimos anos. - Continuava a olhá-lo, como não acreditando no que seus olhos viam. Estava com uma barba de dois dias. Esbelto. Bem constituído, não parecia mais o rapaz frágil de outrora. Usava um casaco comprido azul escuro e tinha o pescoço protegido por um cachecol com padrão xadrez, também em tons de azul.

- Amigo? Sois apenas isso?- atreveu-se, arrependendo-se de seguida e emendando - Perdoa-me. Não tenho que te perguntar isso. Não posso...

- Não. Não podes. Mas eu digo-te. Sim. Só amigos. - Apoderara-se dela uma segurança, e calma, inexplicável.

- Mariana... nunca te esqueci... será que algum dia me perdoarás?

....

 

O avô levantou-se do cadeirão, esticou as pernas, foi até à janela, afastou as cortinas e ficou a olhar para a noite, num ponto distante.

- Avô? Então? - Disse António ao avô e quando este se virou pode ver-lhe algumas gotas salgadas escorrendo de seus olhos. O seu avô estava a chorar! Mas porquê?

- Avô que relação tem esta história contigo?

- Não adivinhas? - Disse embargado pela emoção.

- Não faço ideia, mas alguma coisa deve ter! - António encolhia os ombros.

- Meu querido, a Mariana é a tua avó Mariana e eu, o teu avô, sou o Miguel!

António abriu muito os olhos como se tivesse sido dito qualquer coisa numa língua imperceptível.

- Como?... Hã?... - balbuciou atónito.

- O meu nome completo é João Miguel, claro que os apelidos saíram-me entretanto, os verdadeiros sabes quais são, Albuquerque Bacelar.

- Então ela perdoou-te? - pode questionar ainda com a engrenagem cerebral a chiar.

- Sim. Não logo, pois tive que me provar merecedor. Mas tudo acabou com a morte da minha mãe que assinou definitivamente a minha carta de alforria! A tua mãe, Laura, é a nossa filha, a filha que eu não reconheci quando devia. E o teu tio Tomás o filho que mais tarde tivemos.

- E aquela fotografia queimada era...? António já adivinhara de quem se tratava.

- Sr.ª D.ª Antónia, descendente dos Maia e Alvarenga. Isso mantive. Morreu de cancro, em pura agonia. Era tua bisavó.

 

 

Fim

 

 

13 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D