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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na doçura de um Inverno - parte V

por golimix, em 01.04.15

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Decorria o processo de Miguel, cuja covardia não lhe permitiu afrontar a mãe.

Que iria ele fazer com apenas 18 anos? Como criar um filho? Não estava preparado para passar as dificuldades nomeadas pela progenitora e, além de tudo, o seu sonho era ter o curso porque tanto lutara. A mãe fora perentória em afirmar que não o ajudaria caso ele decidisse reconhecer o futuro bebé, que estaria prestes a nascer! E ele sabia bem até onde ela poderia chegar. Acatou as decisões de Sr.ª D.ª Antonieta surpreendendo-se com a conivência do pai, o único daquela casa capaz de a enfrentar. Não conseguia perceber qual a verdadeira opinião do seu ascendente tal era o seu semblante inescrutável. E não se atrevia a questionar nada. Sabia o quanto tinha errado…

Como estaria a sua amada? Certamente que neste momento teria a pior das imagens dele! Mas sentia-se de pés e mãos amarrados. E a solução que lhe parecera melhor fora a de deixar correr o processo movido contra ele. Talvez nem desse em nada! O pior é que não podia falar com ela. As aulas já tinham acabado e ele praticamente estava um recluso na sua própria casa. A sua mãe insistia em não lhe tirar a vista de cima!

 

Na casa da Sr.ª Gina tudo corria velozmente. A proeminência abdominal da filha era mais do que notória, não tardaria nada estaria com um neto nos braços! Não fora isto que imaginara para a sua única filha. Mas não era mulher de se manter durante muito tempo a carpir desgostos. Se tinha uma demanda enfrentava-a. Foi o que fez! Aquela gente dada à ostentação de riqueza, e pobre em caráter, teria de aprender que não se pisoteia assim as pessoas! Mas via o estado de prostração que se abatera sobre a sua pequena. A menina sentia em todos os poros da pele o amargor da rejeição e a deceção de um amor. Mas não se pode proteger os filhos de todas as quedas! A sua filha dera um grande, e espalhafatoso, trambolhão. Sentia que lhe competia a ela, como sua mãe, ampará-la para que a dor não fosse tão grande. Estaria ali para lhe limpar os ferimentos. Receberia o neto de braços abertos e ajudaria a filha a concluir os estudos. Pelo menos nisso não se desviaria do plano original. Permitir à sua menina um futuro diferente e melhor. Já que nem tudo poderia ser como sonhara…

Talvez, pensava, talvez depois de o bebé nascer aquela gente mude de ideias. Afinal a simplicidade de uma criança demovia o pior dos casmurros!

O marido, por sua vez, também parecera conformar-se. Estava sempre calado, muitas vezes apanhava-o de olhar vazio. Perguntava-lhe o que se passava mas um "Nada" era arrastado da boca com um suspiro. Homens... teimam em não expressar o que lhes vai na alma. Mas ela sabia que ele ia aceitar com o tempo. Ademais, que podia fazer?

 

Mais um mês se passou. E se o tempo parecia passar rápido para a futura jovem mãe, para Miguel parecia que uma lesma o carregava aos ombros! Já tinha data marcada para ser ouvido em tribunal, o pai nada fazia para evitar o decorrer do processo. E ele só pensava nela... amava-a profundamente. Não. Não se deitou com ela e esqueceu. A paixão e o amor ainda queimavam em sua alma e até no seu corpo. Não a queria a sofrer, como sabia que certamente estaria. Mas nada podia fazer.... Era assumidamente covarde. Até Artur, sei amigo, o visitava cada vez menos. E talvez para isso contribuísse os olhares que a sua mãe o presenteava. Mas ele sempre fora indiferente a isso. Sabia que o seu amigo reprovava a sua atitude. Mas cada um responde por si.

 

Passados uns dias soube que o seu bebé já tinha aberto os olhos ao mundo. E se por um lado isso lhe trouxe a maiores das alegrias, por outro infligiu-lhe uma profunda tristeza. No dia em que soube ia a passar por um corredor e ouviu a mãe a falar bruscamente com alguém num dos escritórios do piso térreo. Dirigiu-se até lá curioso. E cautelosamente escutou...

- Não. Não quero saber de bebé nenhum! Já lhe disse que não o considero meu neto e não será reconhecido como tal!

- Mas é uma menina tão linda! Dispus-me a vir até aqui com amor no coração esperando que ele também nascesse no seu, mas enganei-me... - Era a Sr.ª Gina quem falava. Tentava em vão acabar com aquele tormento. Já estava arrependida de ali ter ido. Mas se tudo se resolvesse a bem...

Miguel, por sua vez, ouvira muito bem o que fora dito "Uma filha?! Ele tinha uma filha! E diziam linda! Claro. Bastava que fosse parecida com a mãe!"

E nestas considerações foi apanhado em flagrante pela  Sr.ª Gina  que saia do escritório parecendo carregar peso do mundo!

- Presumo que você seja o rapaz que desgraçou a vida da minha menina!? Como é capaz de não reconhecer a sua filha? O produto de um acto seu? - Sr.ª Gina falava-lhe com os olhos rasos de lágrimas.

Miguel entreabriu a boca para falar mas a palavra foi-lhe cortada de imediato por sua mãe, sempre atenta como um falcão!

- O que é que o menino está aqui a fazer!? - Disse com um olhar fulminante. E, virando-se para a mulher humilde que ali tinha.

- Já lhe foi dito que não há aqui nenhum pai para a sua neta! Rua! - Disse, estendendo o indicador.

Sr.ª Gina endireitou-se, parecia que algo a tinha espetado - Pois bem! Tanto pior! Pensava em resolver as coisas de outra maneira. Mas parece-me que o seu filho prefere a prisão a desobedecer-lhe ou a ser o homem que devia ser. Mas soube sê-lo quando foi para fazer um filho! - Virou costas, não antes sem largar um olhar de profundo desprezo a Miguel. E ele sentiu-o. Acertou-o em cheio e lembrar-se-ia dele sempre!

 

Sempre e todos os dias em que esteve preso. Durante quatro longos e intermináveis anos!

 

Continua.....

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