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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na doçura de um Inverno - parte II

por golimix, em 29.03.15

Continuação daqui

liceu CCB.JPGLiceu Central de Camilo Castelo Branco - imagem retirada daqui

 

Corria  o ano de 1965. Apesar de estarem em Novembro, o Inverno ia ameno, coisa rara num interior Transmontano! Ainda não tinha nevado e os dias, apesar de frios, espreitavam solarengos a maior parte das vezes.

Miguel fazia parte do grupo de Jovens que frequentavam o Liceu Central de Camilo Castelo Branco em Vila Real, mas era dos poucos que usufruía de uma vida sem sacrifícios económicos para poder estudar. Pertencia às chamadas famílias de posses! Família essa que além de possuir vários terrenos nas zonas circundantes a Vila Real, muitos dos quais eram fonte de rendimento, tinha alguns imóveis, fruto de heranças de família. O pai era um conceituado advogado da cidade, o Sr. Dr. Diniz Belmonte e Castro. Portanto, Miguel vivia com seus pais desafogadamente, mas nem por isso era dado às folias, coisas mais vistas nos rapazes mais abastados. Muito pelo contrário! Quem o conhecesse pensaria, subtraindo a sua elocução e maneira de vestir que o denunciariam, que se tratava do filho de um agricultor, tal era simplicidade do seu carácter!

 

Acompanhava-o sempre um grande amigo de nome Artur Alves, filho de uma padeira da Cidade de Vila Real, outro simplório sempre bem disposto. No dia em que tudo começou, Artur e Miguel entraram no Liceu acompanhados de boa disposição, vinham a discutir um jogo de futebol qualquer que tinham assistido no domingo passado. Era, pois, início de semana. A entrada do Liceu estava cheia de jovens e pairava no ar o rumorejo das diversas conversas soltas e cheias da preguiça  habitual a uma manhã de segunda feira. A ninguém apetecia dar o primeiro passo em direcção às salas de aula.

Artur vinha distraído a discutir um pormenor do jogo, contrariando a opinião de Miguel, e incautamente esbarrou nas costas de uma jovem morena de óculos. O encontrão foi tal, contando com o facto de Artur não ser propriamente um modelo leve, que a jovem teve que valer-se dos seus bons reflexos para não ficar com as lentes, da sua preciosa ajuda ocular, espalhadas pelo chão de mosaico gasto dos anos de consecutivas esmagadelas!

 

Os rapazes desfizeram-se em desculpas, especialmente o autor da desdita. Valeu-lhes a simpatia da moça que aceitou, ruborizada, as desculpas de Artur. Entre eles gerou-se uma clima de uma certa cumplicidade, tanto que Miguel começou a sentir-se a mais. De mãos no bolso assistia à liquidificação do seu amigo em gentilezas. Ó Artur... - pensava ele - Mais um rabo de saia!

 

Foi então que reparou nela! E nunca percebeu como é que a sua figura lhe tinha escapado à sua observação sempre atenta a beldades. Era magra, mas sem ser exageradamente, cabelos de ébano que se soltavam em cachos largos pelos ombros e lhe envolviam uma pele de neve e um olhar intenso! Encerrava todo um mistério e paixão nos seus olhos verde escuro. Era simplesmente aparição! Devia estar acompanhada da tagarela simpática que cavaqueava singelamente com Artur. Sentindo-se observada desviou o olhar directamente para o ponto alvo, o seu espectador de ar embasbacado.

- Olá! - disse numa voz que lhe pareceu das mais melodiosas que ouvira até então. - parece que estamos a mais! - sorriu com cumplicidade

- Pois... - Pois!!?? Que raio? Só sabes dizer isso palerma? Tens uma beldade destas e perdes a língua vê lá se sabes falar! - e com este pensamento recompôs-se. - Olá! Eu sou o Miguel! Não me lembro de a ver por aqui! - disse estendendo a mão - obteve o seu nome, que lhe ficou retido na mente, e deteve-se na sensação que o percorreu ao tocar-lhe na pele. Sentiu uma espécie de corrente eléctrica, como se tivesse levado um choque, mas dos agradáveis, se é que tal existe!

Ao afastar-se ao toque ela continuou, com a face agradavelmente enrubescida - É natural que não se lembre de me ter visto, afinal é aluno do último ano e nós ainda temos um pouco para lá chegar.

Não, não é natural que eu não me lembre de ti! Pensava Miguel respondendo - Mas também não vos deve faltar muito, que ano são?

- Somos do 4º ano - soltou a sua voz cheia de mel

- Do 4ª ano?!? - Bolas ela tinha apenas 14 anos!! E ele 18! Como é que uma catraia o pôde colocar naquele estado! Decididamente não era nada bom a ver idades!

 

Trocaram mais meia dúzia de palavras sempre com Miguel completamente absorvido por aqueles lábios. Ele bebia-lhe os vocábulos como se saíssem do Santo Graal! Finalmente, e sem saber como, fora quase empurrado por Artur até à primeira aula.

Tudo decorreu com normalidade durante o resto do dia, exceptuando o facto de a sua mente estar a demorar-se, mais do que ele desejava, em considerações sobre a, mais que jovem moça, que conhecera de manhã! E por diversas vezes foi chamado à realidade dos acontecimentos à sua volta!

 

Viu-a mais algumas vezes durante a semana e sempre que isso acontecia sentia que o seu coração lhe iria pregar uma partida e ejectar-se para parte incerta. Tentava parecer descontraído mas  tudo lhe saía uma trapalhada! E isso enervava-o deveras! Caramba! Ele tinha 18 anos feitos recetemente, para o ano iria para a Univesidade, tornar-se-ia advogado como pai, e não estava a portar-se à altura da sua idade com uma estudante do 4º ano!! Do 4º Ano!? Que raio Miguel! Recompõe-te! - pensava aturdido

Por vezes dizia baboseiras disparatadas, o que nem era de todo mau, já que isso a fazia rir e esse som era música para os seus ouvidos. Numa vez, vinha a comer uma maçã,  passou por ela, engasgou-se, foi prontamente socorrido por Artur, que certamente lhe salvara a vida com um grande e estrondoso murro entre as omoplatas, e quando foi a olhar ela estava a observar a cena aflitíssima! Bem... pelo menos notou que ela se preocupava com a sua pessoa. Quando ele mais aliviado, e a respirar normalmente, pensou ter tempo para trocar dois dedos de prosa com ela, eis que está na hora de mais uma aula! Arre! Que não fazes nada direito! - Reflectia

 

Mas foi no final da semana que ele pôde ver o quando Artur lhe salvara, ou complicara, a vida.

- Meu amigo, tenho uma excelente novidade para ti! - Chutou dando uma palmada nas costas de Miguel com tal força que ele balançou o tronco para a frente. Tudo arte da inexplicável exibição masculina.

Após aclarar a garganta conseguiu responder - Ai sim! Imagino... Mais uma cartada na taberna do pai Luís!?

- Tás maluco!? Se bem que... até pode ser considerado uma cartada sim senhor. Sabes aquelas duas jovens que conhecemos na segunda de manhã? - E sem esperar resposta continua de uma assentada com outra palmada nas costas do amigo, desta vez mais comedido na força usada - Ohh! Mas claro que sabes! Pareces um parolo cada vez que vês a amiga da Amélia que até mete dó!! - Riu-se a bandeiras despregadas! - Foi a deixa esperada para a vingança de Miguel que lhe pregou um carolo bem dado no cachaço, mas isso não fez Artur perder a fala, e continuou. - Marquei um encontro com elas no Jardim da Carreira hoje à tardinha. Mas não podemos demorar que elas têm que ir para casa cedo. Portanto não te entusiasmes muito!!!- Disse voltando a rir-se a bandeira despregadas. O palerma! Dava-lhe vontade de rir - pensou Miguel

- Quem disse que eu estou entusiasmado? - disse Miguel tentando parecer o mais casual possível

- Hummm.... É que se calhar pensas que eu não te conheço. Ó magano! - sorria Artur.

 

E parece que nesse dia o Senhor Tempo resolveu ser uma lesma e passar o mais lentamente possível pelas horas! Tudo para desespero de Miguel, que não se cansava de olhar para o seu relógio de bolso, oferecido pelo pai, duvidando se a corrente que o prendia aguentaria tanta investida!

No fim das aulas, com os alunos a saírem numa onda, elas estavam junto a uma árvore mesmo em frente ao Liceu. Artur seguia à frente com Amélia e a sua pessoa desfrutava da bela companhia que seguia ao seu lado descontraída e alegre.

 

E foi assim, a olhar para ela, e a escutar as reacções do seu próprio corpo, que percebeu que estava perdido para aqueles encantos. Mas como? Como poderia ser?

 

Alguns meses se passaram com alguns encontros fortuitos mas a sua maioria foram bem calculados que acrescentaram o fermento necessário ao evoluir de um doce amor juvenil. Nada fazia prever a grande tempestade que as suas inexperientes almas teriam que enfrentar.

.......

-Vá meu neto por agora chega! - Terminou o avô colocando o dinheiro certo na mesa do café, atitude própria de um cliente habitual, e levantando-se da cadeira.

- Como chega?!? E deixas-me assim? No que parece o melhor da festa! Mas queres que eu morra de curiosidade! Afinal a mulher da foto é a jovem paixão do Miguel? É que se era mudou muito! Aquela não parecia nada dada a doçuras!

- Não. Ainda não está nada explicado. Tudo a seu tempo meu menino. Aprende a esperar e a desfrutar do que te conto! Logo continuo, mas agora a tua avó espera por nós para o jantar.

- Mas meu caro avozinho nem penses que te deitas sem me contares o resto! - foi a vez de António se juntar ao avô, espreguiçando-se discretamente.

- Tudo bem. Mas só continuo depois de saber a tua avó adormecida! - Avisou sério

- E pronto. Consegues mesmo dar cabo da calma! - Riu-se António e abraçados saíram para a noite que entretanto caíra.

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