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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na alvura da tua pele me perco - parte V

por golimix, em 22.04.15

 

SP.jpg

continuação daqui

 

A vida numa grande cidade fora inicialmente um choque para Alice. Mas depressa se habituou! A casa que o irmão habitava não era tão grande como a fazenda, mas mesmo assim tinha bastantes cómodos. Além disso, havia alegria! Não havia trabalho escravo. O irmão alforriou-os todos os negros que tinham em casa!

 

Havia um jovem rapaz, Victor, um negro, que o acompanhava muitas vezes ou então ajudava nos trabalhos mas pesados da casa. Mas  Alberto pagava-lhe pelo trabalho. Bem como à cozinheira, uma viúva e a jovem filha da mesma, que tinha cerca de 16 anos, que tinham pequenas acomodações nas traseiras da casa principal, e que Beatriz mandara construir. A casa não era muito grande mas dava o seu trabalho mantê-la. E todos o faziam com boa disposição. Alice e a jovem negra, que dava pelo nome de Flor , filha da cozinheira, depressa se tornaram amigas. Quanto Beatriz, a sua jovem tia, transformou-se na irmã que ele nunca teve. Alice estava feliz, embora essa felicidade se turvasse sempre que pensava na fazenda e quando recebia as cartas da mãe, apesar desta lhe dizer que estava tudo bem, parecia que em cada frase estava escrito o contrário do que lia.

 

Os serviços de Alberto como médico começavam por ser, e devido à sua dedicação, muito requisitados, e ele tinha acabado de contratar outro jovem, filho de escravos, homem livre, para o ajudar num consultório que decidira estabelecer na cidade. O tio ajudava todos sempre que podia, e isso incluía homens, que devido à sua cor, não arranjavam emprego com facilidade.

 

Alice acordava lentamente para uma realidade completamente diferente da que estava habituada. Foi percebendo que por ali o tio não era o único que proclamava a liberdade para todos. Existiam com frequência reuniões onde se discutia a abolição da escravatura. Percebeu que o tio era um abolicionista! E pela primeira vez soube o significado dessa palavra. Soube também, que essas ideias não eram novas, já tinham a sua força desde 1870! Estavam em 1883 e ela nada sabia sobre isto! Nas fazendas de café, principalmente as mais afastadas de toda a informação, e que dependiam do trabalho escravo, tentava-se abafar toda um revolução prestes a estourar!

 

E com todas estas novidades o tempo foi passando e a fazenda foi ficando cada vez mais distante... Estava agora com 19 anos. O tio permitira-lhe estudar num colégio de freiras. Ajudava Beatriz no governo da casa e volta e meia iam a reuniões sobre a abolição com o tio. E foi numa dessas reuniões que o viu pela primeira vez.

 

Alguém discursava, de forma eloquente, sobre as atitudes a tomar para acabar com o trabalho escravo. Nessas reuniões estava sempre muita gente, que incluía homens de todas as cores e também algumas mulheres. Sentiu que alguém a observava e foi ao encontro daquele olhar. Um jovem mulato contemplava-a, e ela teve a nítida sensação que conhecia o portador daqueles olhos negros. Mas depressa ele se diluiu no mar de gente que ali se encontrava, e só quando todos desaguaram dali para fora é que o tio Alberto, que saíra de perto delas com uma desculpa, ressurgiu com ele.

- Meninas quero apresentar-vos o meu funcionário, que trabalha comigo no consultório. Este é Maurício!

O jovem inclinou-se e Beatriz estendeu-lhe a mão, para ser segurada com gentileza, seguida por ela, Alice, que sentir aquele toque todo o seu corpo, todos os sentidos, ficaram em alerta. Como se a avisassem de algum perigo.

- Muito prazer! - O jovem falava numa voz doce e meiga. Música para qualquer ouvido.

- Olá meu jovem! Terá que ir a nossa casa um destes dias comer uma fatia de bolo da nossa querida cozinheira. Garanto-lhe que Anastácia faz um quindim maravilhoso! - Sorria Beatriz

Alice manteve-se calada todo o tempo. Quando chegaram a casa não susteve mais a curiosidade. E questionou o tio.

- Tio Alberto diga-me. O que sabe de Maurício?

- Minha querida, pouco sei... sei o que me interessa. Que é um bom trabalhador, esforçado, honesto, atento e que vive  numa pequena casa mais afastada. Mas porquê essa curiosidade?

- Não sei... há algo nele que me diz que o conheço...

 

E Alice não se enganava e mais um encontro inesperado com Maurício revelaria algumas surpresas e também lhe trariam acontecimentos imprevistos. O seu mundo estaria, mais uma vez, prestes a mudar.

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