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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na alvura da tua pele me perco IV

por golimix, em 16.04.15

tronco escravos.jpg

 Continuação daqui

 

Após a partida de Marco, e do seu pai Justino, para parte incerta tornou-se mais difícil a vida para as mulheres que habitavam a Fazenda. Dodô envelheceu pelo menos uns dez anos, e apesar de continuar a cumprir zelosamente as suas tarefas, já que não podia ser de outra forma, a sua antiga, e tão habitual, alegria desvaneceu-se por completo. Mantinha sempre um semblante carregado, como se estivesse de luto por um filho e marido vivos, mas mortos para ela. Alice vivia numa tristeza inconsolável, não só pela partida do seu grande amigo de infância, mas também porque tomara conhecimento de como era o seu pai na realidade.

 

Ouvia muitas vezes o pai praguejando e gritando com a sua mãe, e desconfiava que as agressões não seriam só verbais, já que volta e meia ela aparecia com uma nódoa negra no braço, e passara recentemente a cobrir os seus braços com vestidos de manga comprida, mesmo no calor! Viver naquele lugar tornara-se impossível! Mas ela continuava uma moça pertinaz, com vontade de mudar o mundo e o próprio destino, que mãe Jurandi tanto falava. Discutia inúmeras vezes com o seu pai não lhe demonstrando medo, apesar de saber tudo o que aquele homem era capaz. Mas com ela a mão pesada tornava-se mais leve e ele lá ia aceitando, calado, as suas altercações, até ao momento em que lhe levantava a mão e um “Basta Alice!” terminava com o diálogo unilateral.

 

E dois anos se passaram nesta angústia. Felizmente, que ultimamente o Patrão se deslocava com mais frequência em negócios, e quando estava em casa ia muitas vezes aos cafezais. Quem sofria mais eram os pobres escravos, que cada vez com mais frequência, faziam uma visita forçada ao tronco, erguido no terreiro junto à senzala. Desgraçados que nem sabiam o que que os levava ali! Muitas vezes era porque andavam mais devagar, já que o calor apertava, e enchendo-os de preguiçosos mandava-os açoitar. Outras vezes porque os apanhava a cantar as suas músicas e ele não queria ali daquilo. E não eram raras as alturas, em que alguns escravos mais fracos, caíam de exaustam e eram espancados ali mesmo, onde se deixavam ir.

A Sinhazinha Alice, como todos lhe chamavam, quando era informada, escondia-se para ir à senzala tratar dos feridos. Tudo até ao danado do novo capataz, um homem da pior espécie, ter feito queixa destas suas atitudes e ela ter sido terminantemente proibida de chegar, sequer, perto do terreiro sob pena de ele mandar açoitar todos os escravos, incluindo crianças!

"Não te quero com aqueles animais, Alice!"  dizia-lhe o pai. Apesar dela saber que os animais estavam do outro lado da trincheira.

E Alice não teve outro remédio senão chorar cada grito ouvido ao longe. Aquilo tinha que mudar! Mas como? Que poderia ela fazer?

 

Certa tarde foram visitadas por um irmão de sua mãe. O tio Alberto era casado com uma bela jovem, de cerca de 20 anos. O seu próprio tio só teria uns 30 anos. Rapaz inteligente, e bom coração, fora estudar para a cidade e tinha-se formado em medicina.  Casara-se à cerca de meio ano com uma jovem de boas famílias. Estava, pois, bem na vida.

Alice mal conhecia o tio, exceptuando umas cartas e fotografias trocadas. Mas assim que sentiu a carruagem desceu a correr as escadas. Uma distração no meio do sufoco em que viviam era sempre bem vinda.

- Olá tio Alberto! Até que enfim vem ver-nos! E apresentar-nos a sua mulher! - Disse Alice mal os viajantes tinham pousado o pé no chão!

O tio sorriu-lhe - Está é Beatriz - disse, já com a sobrinha abraçando a esposa. E, seguidamente, beijando a sobrinha na testa, continuou -  Alice estás maior do que eu pensava! E as fotografias não te fazem justiça minha querida sobrinha! Mas onde está a tua mãe minha cara?!

- Venham para dentro! - Alice subia as as escadas enquanto lhes falava. - Minha mãe deve estar arrumando qualquer coisa na casa. Ela arranja sempre o que fazer - Precisam que vos ajude com algo?

- Não minha querida - Falou a esposa do tio acompanhando a sobrinha - deixamos todos os nossos pertences na casa do teu avô. Ficaremos por cá esta semana.

- Que bom! Ficam uma semana! Assim podemos conhecer-nos melhor! Embora um semana seja pouco para quem quase nunca cá vem! - Alice virou-se propositadamente para o tio.

- Minha menina sabes bem que a minha profissão não me permite grandes ausências! Além disso, estava a estabelecer-me na carreira. Agora tinha mesmo que vir. - tossicou, gesto que Alice veio a identificar mais tarde como um tique que o tio tinha sempre que se encontrava agitado com algo.

Mal tinham transposto a soleira da porta surgiu Amália.

- Meu irmão! Tanto tempo... Ainda bem que viestes- ambos se abraçaram. De seguida virou-se para a esposa do irmão.

- Claro minha irmã! Tinha que vir - Respondeu-lhe

- Minha querida irmã. Beatriz! Bem vinda a esta casa! - Disse Amália abraçando-a também.

- Por favor venham para a sala de estar que está mais fresca, vou pedir para a Dodô nos servir. Querem um suco ou um café? Sim. Café temos de sobra! - Sorriu

- Por mim, e com este calor, agradecia qualquer coisa refrescante! E penso que por Beatriz também, não minha cara? - Disse virando-se para a esposa e obtendo um consentimento desta.

- Pois então, suco para todos! E provarão o maravilhoso bolo de fubá que Dodô fez de manhã! - Amália virou-se para a filha. - Alice por favor acompanha-os até à sala das traseiras, a mais fresca, que eu já vou.

 

A conversa foi animada durante toda a tarde, a empatia entre Beatriz e Alice  parecia instantânea! Falaram sobre diversos assuntos, mas escusaram-se a temas relacionados com política e escravatura. Amália sabia qual a opinião do irmão, e sabia também que uma das suas recusas em vir a casa era porque o pai tinha escravos. Mesmo que o pai nunca os tratasse mal, tal como o seu marido fazia! Ela lembrava-se das discussões acaloradas entre os dois, pai e filho! O irmão achava que todos deveriam ser pagos pelo seu trabalho e que isso também faria circular o dinheiro, o pai nem sequer imaginava como seria a vida dos donos de fazendas sem a mão de obra escrava!

Amália temia o encontro entre Paes de Andrade e o irmão, apesar de saber que por ela o seu irmão iria se conter. Ainda bem que naquela noite seu marido não jantaria ali. Mais um jantar de "negócios" o afastara.

Os tios ficram para jantar na fazenda.

Na despedida, Alice, ouviu o tio comentar com a sua irmã, Amália.

- Espero que conversem minha irmã. Sabes que só estarei uma semana, talvez seja melhor avançares com o assunto.

- Claro! Só esperava a tua vinda. - Votaram a abraçar-se e a carruagem partiu até à fazenda dos pais de ambos.

 

Curiosa como era, Alice, não resistiu em questionar a mãe.

- Mãezinha, de que falavam, tu e o tio Alberto? - Disse

- Minha querida filha, falávamos de ti! - Amália virou-se para a filha

Esta arregalou os olhos e respondeu prontamente apontando para o próprio peito - De mim? Não percebo!

- Sim. Querida, combinei com o teu tio que irás com ele para São Paulo - disse a mãe sem qualquer rodeio.

- Mãezinha! Nem penses! Nunca te deixaria aqui sozinha com... aqui na fazenda! - Disse Alice pensando no que seria a vida da mãe com o pai sozinhos por ali.

- Minha querida eu e o teu pai lá nos entenderemos. Já que sei que é isso que te apoquenta. E temo que tu vás acabar por odiá-lo e eu não quero isso. Além disso, eu tenho a Dodô, a Miká e a mãe Jurandi. Isto na fazenda não é vida para ti e quero que vás aprender algo na cidade. E o teu tio necessita da tua companhia para a esposa, e vi que se deram muito bem! - Amália era persuasora

- Já disse que não sou capaz! - Alice tinha os olhos rasos de lágrimas, pois se por um lado o que mais queria era ver-se longe dali, por outro, deixar a mãe parecia-lhe impossível!

A mãe colocou-lhe as mãos nas faces - Meu amor, não percebes? A decisão está tomada. Não. Nisto não posso pedir a tua opinião! Agora, por favor, nada de chorar e vamos aproveitar o tempo que nos resta.

 

E assim mais uma pessoa querida aquele lugar, àquelas pessoas, partia dali...

 

Continua...

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