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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na alvura da tua pele me perco III

por golimix, em 14.04.15

fazenda-capoava2.jpg

Continuação daqui

 

 

E foi assim, que naquela noite, tudo se precipitou!

E após a Dodô ter dado à luz um belo e forte rapaz, a sua Sinhá trazia ao mundo, pelas mãos da mãe Jurandi, uma menina com ar pequeno e frágil que tivera demasiada pressa em mostrar-se ao mundo e parecera responder a um chamado urgente que requeria a sua presença.

 

Mas a fragilidade nada mais era do que aparente, já que a criança revelara uma enorme vontade de se manter viva! E demonstrou essa firmeza crescendo e engordando a cada dia que passava. Claro que para isso contribuiu não só o leite materno, mas também leite que Dodô deixava que o seu filho partilhasse com a menina da sua Sinhá. Dado que ela era fraca e a negra tinha leite de sobra.

 

E foram crescendo aquelas duas crianças, partilhando o mesmo leite, mas de mundos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Alice e Marco, ditos assim, de forma simples tal como a vida deles era.

 

Sinhá Amália, que até então tinha períodos de desânimo, sentia que a sua vida fazia sentido e dedicava-se a ensinar aos dois a mesma coisa, o que a menina aprendia o menino também o fazia. Ela aprendia a ler e ele também. Aproveitava também as sua tardes para ensinar Dodô a pronunciar-se melhor na língua portuguesa, embora a empreitada  se estivesse a revelar uma verdadeira dor de cabeça!

 

Tais tarefas eram realizadas sem o conhecimentos do Patrão Paes de Andrade. A quem não agradava que a sua doce menina loira brincasse com aquele mulato com ares de negro, filho de uma escrava e de um homem branco sem juízo. Mas a sua esposa convencera-o que fazia bem a menina brincar com outras crianças, mesmo que negras, faria bem ao seu crescimento já que a felicidade da menina a faria crescer saudável. E que mais pretendia um pai? Olhar para aqueles cachos dourados amaciava-lhe o coração como nenhum outro ser o fizera. Além do mais, nada o impedia de no futuro se livrar daquele negrinho, que mesmo de tenra idade já se mostrava um petulante!

 

Mas não o fizera, nem quando ele tinha dez anos, nem doze...

A sua filha soube como frear-lhe a vontade, e deixou que aquele negrinho por ali ficasse, com ordens expressas de não passar da cozinha e não colocar um dedo que fosse no resto da casa. E permitiu que não fosse enviado para o trabalho pesado na roça desde cedo, como fazia com os outros negros quase mal começavam a andar! E mesmo que ele tivesse nascido na lei do ventre livre isso pouco lhe importava se o quisesse pôr no trabalho.

 

 Aquele dia porém tornou-se decisivo para que lhe acabasse com a vida mansa.

Vinha no seu cavalo regressado da Vila, onde fora a negócios, felizmente para todos ele necessitava de  se ausentar várias vezes, já que o café não se vendia sozinho. Resolvera tomar um caminho diferente do habitual, já que ainda era cedo, e passar pelo seu pomar e ver como se davam as árvores de fruto que sua esposa insistiu em plantar anos antes. Pediu, nessa altura, que fossem transplantadas algumas árvores já bem grandes para aquele local. E ainda bem que o fizera! E Homem sempre atento a um bom negócio, transformou esse pedido num projeto que até se revelara rentável. Para além de ter sempre fruta fresca em casa, ainda colocou dois escravos a vender fruta na Vila rendendo-lhe mais algum dinheiro.

Ao se aproximar dos terrenos  viu dois jovens, ao longe,  juntos do abacateiro. A princípio não os distinguiu. Mas mais perto pode ver que se tratava de sua filha! Aquele cabelo loiro era inconfundível! Mas com um homem! Quem seria?! Como é que Amália a deixava estar ali a sós com um homem e ainda por cima sem o seu conhecimento!? Não podia ver de quem se tratava, já que este estava de costas. Mas era um negro!!?? Como ousava!?

E açoitando o desventurado cavalo chegou em passo de corrida ao destino.

- Que fazes aqui seu negro atrevido? – Vociferou do alto do seu cavalo e fazendo este frear o passo de repente levantando um monte de terra na paragem brusca.

Os jovens olharam-no estupefactos e Alice interpôs-se não deixando a sua companhia falar.

- Pai vê lá como falas com o Marco! Ele é meu amigo! – falava ao mesmo tempo que se colocava em frente do amigo.

- Amigo?! – Riu-se num riso alucinado – A minha filha com amigos negros?! Este animal lá pode ser amigo de alguém! Já para casa sua desajuizada! Contigo e com a tua mãe entendo-me depois! ! E tu, meu negro, vais aprender qual é o teu lugar! – e dito isto saltou do cavalo e preparava-se para açoitar o rapaz ali mesmo com o chicote do cavalo.

Marco estava sem reação! A mãe já o tinha prevenido do feitio do patrão, aliás, ele via-o na vida que os outros negros, seus semelhantes, levavam, mas estivera, ou quisera estar, até aquele momento, de olhos fechados, e aquele acontecimento foi como um renascer para a vida real que até ali negara, já que a sua estadia dentro de casa o poupara a certas dificuldades. E mesmo vendo o patrão Paes de Andrade dirigindo-se até ele de chicote em riste não se moveu, ou sequer se agachou amedrontado por uma surra iminente!

- Não pai! – Alice atirara-se ao braço do pai e prontamente fora sacudida caindo no chão desamparada e nesse momento o chicote desfere um golpe certeiro na face de Marco que leva a mão à cara e mesmo assim, a juventude dos seus treze anos,  não o fez  curvar-se com a dor. Nunca se curvaria aquele homem!

Alice solta um grito horrorizada e pendura-se novamente na mão do pai. E grita.

- Foge Marco! Foge por favor!

Mas marco não move um músculo. Se Paes de Andrade o queria açoitar? Pois que o fizesse! Na presença da filha para que ela também visse o mesmo que ele via naquele homem! Já que era a única que parecia gostar daquele monstro.

- Larga-me! Ouviste Alice? Larga-me o braço e não me faças aleijar-te! E com a outra mão, e o quase o triplo,  ou quádruplo, da sua força empurrou a filha e voltou a levantar o chicote acertando com um segundo golpe no peito de Marco. – Seu negro petulante que ousas não te dobrar nem pedir desculpa por estares aqui com a minha filha!

A gritaria de Alice tinha atraído Sinhá Amália e Dodô, que na verdade não estavam longe dali a recolher fruta. E providencialmente Amália segurou a mão do marido impedindo um terceiro golpe  a um estático rapaz. Dodô abraçara-se ao seu filho de face e peito ensanguentado não percebendo a extensão, nem a gravidade, dos golpes.

E vendo o seu intento interrompido pela esposa Paes de Andrade resolve virar a sua fúria para esta.

- Larga-me sua cadela! – Atira-a ao chão e desfere-lhe um golpe no ombro fazendo a esposa gritar de dor.

-Por favor pare que está ali a sua filha! – Amália colocou a mão a frente da cara e lembrou o marido que a sua filha estava a ver um monstro e não o seu pai que tanto a mimava.

Paes de Andrade dominou-se e urrou.

- Quero este negro fora da minha casa! Amanhã mesmo o venderei para longe!

- Me filho nã pode ser vendido – Gritou Dodô. Ele ser livre! Nasceu no ventre livre!

- Não quero saber do raio dessa lei! Essa peste é minha propriedade! Nasceu na minha casa! E vai render-me um bom dinheiro já que se mostrou forte mesmo a apanhar! - Montou no cavalo e saiu dali ignorando os rogos das mulheres.

 

- Ó mê filho que vai ser de tu?! - Dodô abraçava-se ao filho que se mantinha contraído e punhos fechados.

- Não se preocupe minha mãe. Eu não vou ser escravo! - Marco, com a face ensanguentada, mantinha o sangue frio.

Sinhá Amália também recuperara e, sem se importar com o sangue e a dor no seu ombro, começou a arquitectar um plano - Foge meu menino. Foge com o teu pai! Dodô, tu é melhor ficares, pois se forem os dois o meu marido poderá  mandar caçar-vos! Mas indo só ele e o pai a raiva não será tanta. Além disso, um homem branco e rapaz mulato serão mais bem acolhidos.

Dodô não respondeu, só chorava.

E a Sinhá continuou - Alice, minha filha - disse virando-se para a menina e segurando-a pelos ombros - Diz à Miká que procure Justino com urgência, fá-la entender isso, e vai para casa. Tenta acalmar o teu pai.

- Sim. Mas não vou ao meu pai. Nunca mais o quero ver! - disse limpando o rosto com as costas da mão.

- Minha filha não há tempo para discussões, faz o que te digo. Pelo bem do Marco! - Frisou a mãe. E Alice partiu a correr. Não sem antes dar uma abraço ao seu amigo sussurrando-lhe um "Desculpa" ao ouvido.

- Minha querida Dodô acalma-te. - Disse Sinhá Amália aproximando-se da mãe negra aflita abraçada ao seu filho ensanguentado - temos que agir rápido para que eles possam fugir sem serem perseguidos. Eu arranjarei algum dinheiro. Agora, por favor, vai e trata do teu filho.

Dodô limpou o rosto ao avental e ganhou forças, como só uma mãe consegue, e pelo filho ela sabia que tinha de o deixar partir. Seguiu dali levando o jovem com ela.

Amália inspirou fundo e dirigiu-se à sua casa. A "Fazenda Grão Dourado", uma enorme casa que tinha um ar feliz por fora mas por dentro albergaria uma tristeza enorme.

 

Os preparativos para a fuga foram céleres. Amália tratara de tudo sem se importar com as consequências que tais actos pudessem ter para com a sua pessoa. Só lhe importava colocar a salvo uma criança que ela ensinara, ajudara a criar e também amava. Além disso, sabia que Alice não a perdoaria se não fizesse algo. E assim pai e filho partiram dali numas despedidas apressadas e prometendo que uma dia  voltariam a ver uma Dodô angustiada.

Alice e Marco tinham uma amizade bela e singela, desprovida de qualquer maldade. Uma dádiva deste mundo. A despedida fora feita com uma promessa.

- Voltarei alguma dia a ver-te Marco? - Disse a jovem colocando a mão ao de leve na face sem a marca de chicote.

- Sim. Prometo-te que um dia. Um dia, eu serei um verdadeiro homem livre e poderei estar contigo sem ser açoitado! - Deu-lhe um abraço rápido e partiu com seu pai.

 

Pensando na sua mente, apesar das promessas feitas, nunca mais pisar aquelas terras! Não enquanto aquele monstro ali viver! Mas  a vida, tal como diz o povo, dá muitas voltas e ainda nem a metade tinha chegado...

 

Continua....

 

 

 

Lei do Ventre livre:

"Surgiu a 28 de setembro de 1871, e considerava livre todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir da data da lei. Segundo esta lei, as crianças ficariam sob a custódia dos seus donos, ou do estado, até os seus 21 anos, depois desta idade poderiam ficar livres.

Até lá, no entanto, eles acabariam servindo como escravos da mesma forma."


Ler mais em: http://www.webartigos.com/artigos/a-escravidao-no-brasil-uma-analise-apartir-dos-livros-didaticos-de-historia/114476/#ixzz3XJ8jCSfk

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