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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Na alvura da tua pele me perco II

por golimix, em 10.04.15

BebeNegro.jpgContinuação daqui

 

Estávamos em Setembro, e pelas contas de Dodô, o seu rebento nasceria lá para o fim do mês. Embora a parteira, uma negra habilidosa que contava já com uma certa idade, e que a pedido da Sinhá Amália ajudava no trabalho da casa, lhe tivesse dito que havia mudança de lua no início do mês, portanto, que contasse com o moleque antes! Sim. Ela também parecia ter dotes de adivinha e insistia que o bebé seria um rapaz. Mas Dodô pouca importância dava às sua premonições e ao seu lançar de búzios que  Mãe Jurandi, ou como alguns, na Senzala, chamavam de Unkulu, fazia às escondidas. Pois ai dela se o patrão a apanhasse naquilo!! Já uma vez a açoitaram no tronco porque a tinha visto a chocalhar as conchas. Fora levada de rastos pelos cabelos e, depois de terrivelmente açoitada, ficara essa noite presa, sem pinga de água nem comida! Valera-lhe a ajuda da mãe do patrão, no tempo em que estava viva, que fora tratar-lhe das feridas às escondidas. Pois, se eledescobrisse até a mãe era capaz de mandar açoitar! "O Mbungula!", como mãe Jurandi lhe chamava!

 

Durante o dia Sinhá Amália tinha estado indisposta e Dodô, e o seu enorme barrigão, resolveu fazer-lhe um chá das ervas especiais, de Mãe Jurandi, para amenizar o mal estar. isto apesar de ela própria sentir uma certa agonia ao fundo das costas. Parecia que tinha ali fogo a arder-lhe no baixo da espinha! De repente sentiu-se molhada!

- Ai! Tu qué vê que a veilha tinha razõe?! Ai Bida! Ó Miká! MiKÁÁ! - gritou o quando lhe permitiam as forças

- Ai Deus! Tu qui qué! Tou trabalhandu tu num vêi! - Responde uma moçoila negra muito bem disposta abanando um pano à entrada da porta, mas vendo a colega a segurar as costas, e com ar de quem parecia esperar a morte! Aproximou-se mais um pouco.

- Vai chamá a maê Jurandi! Rápido! - Parecia que depois da queda de água agora resolveu cair-lhe uma montanha na espinha! O que a fazia contorcer-se de dores! - Nã olhi pa mim! Vae!

E pernas para que te quero! Saiu dali a correr trazendo dali a pouco a mãe Jurandi praticamente arrastada por um braço. Que logo que deu de olhos com a Dodô soube que chegara a hora.

- Eu disse a ti mulher! - e baixou-se para lhe palpar o ventre - parece que a notê irá trazê a ti um Ujitu!- Vai pa junto da tê cama. Ma nã te aconchegues! Quero a vê tu andando! - Dodô era das poucas negras que se podia dar ao luxo de ter uma cama, com colchão de palha! Tudo obra da sua querida Sinhá! Senão estaria a dormir no chão da cozinha como a Miká, grávida e tudo!

- Nã sê se vá trazê Utijú, mas sê qui mim quéie ir deitá no mê cochão! - Disse Dodô com beiço e fazendo birra! Diabos da velha que a queria por andar e ela cheia de dores e com um colchão tão bom!

- Tu vá andá! Nem qui mim  puxá tua orelha assim! - E vai de dar-lhe um puxão e fazê-la andar a gritos e a segurar com uma mão no barrigão e outra amparando a espinha! - Mê dexa! Mê largá! - Gritava a Dodô e vendo que teria mesmo que obedecer!

Pondo a grávida a fazer o que ele ordenou mãe Jurandi deu ordens para que fosse aquecida água e se arranjasse panos limpos. E ela mesma foi levar um chá a Sinhá Amália e avisa-la do que se ali passava! Para sorte o patrão não estava hoje! Tinha ido negociar café com vendedores.

Entrou no quarto e deu com uma Sinhá pálida e suada.

- Tu qui tem minha linda Sinhá? - Disse aproximando-se, colocando o tabuleiro de chá na mesa junto à cama e colocando-lhe a mão na testa suavemente

- Não sei mãe Jurandi! Tenho-me sentido mal, com vontade de deitar fora e desde o início da tarde perece que tenho um cão a morder-me o ventre de tempos a tempos!

- Tu tem Imbua mordendo? Um cão? - e imediatamente lhe colocou a mão no fundo do ventre - Ó minha filha! Pairece que tê filho qué saí hoje tombém!

- Não! Não pode! Ainda faltam dois meses! - Amália estava petrificada.

- Nã é tu que manda! É ele - disse segurando a barriga - E os Orixás! - Abrindo os braços ao alto- Com a sua Sinhá podia falar à vontade. O Mbungula não estava!

- Ó Deus! O que vai ser de mim!? O que vai ser do meu filho!? - As lágrimas corriam-lhe pela face

- Vai sê tudo bem Hojti! E manhã nascerá sol! Tu vai vê! - Disse sorrindo e acalmando, sem Amália perceber como, a aflição que ali pairava naquele coração.

 

Duas crianças estavam para nascer naquele dia, mas uma teria que lutar muito para vingar. Nasceria ali uma alma lutadora!

Continua....

Tradução

Presente-Ujitu

Cão - Imbua

Unkulu-Avó

Mbungula-Espírito das trevas 

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