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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Fintar o Destino.

por Corvo, em 05.04.15

Soube desta história por alguém que não tinha nenhum particular interesse em contar-ma, mas que, fazendo-o, menos teria em mentir-me. Assim, conto-a tal qual ela me foi transmitida na altura, ressalvando porém alguns lapsos de memória que, porventura, os anos passados há data da sua narração, eventualmente possam ter comprometido.
Pela singularidade de que se reveste, não abusando da prolixidade de palavras mas não tão sucinto como desejaria, narrá-la-ei tão conciso quanto a memória mo permita.

Numa fria madrugada do dia 13 de Novembro do ano de 1940, numa pequena e do mundo esquecida aldeia incrustada no sopé da grande serra, nascia um rapazinho a quem, penso, a criação dotaria de um destino deveras singular.
Nasceu de parto normal, como aliás, tanto quanto à altura se soubesse o dar à luz nada tinha de complicado. A parturiente abria as pernas e com a prestimosa ajuda da comadre parteira, - havia sempre uma prestimosa comadre parteira para a ocasião, - com maior ou menor esforço despejava-o cá para fora como um peixe escorregadio saltando do balde para o cais.
Assim nasceu o rapazinho com os seus 5 quilos e 400 gramas de uma mulher de um metro e 56, magra, franzina, fraca e, sobretudo, deficientemente alimentada. Nunca mais seria a mesma, mas isso é outra história sem paralelismo com esta.
Da meninice até aos dias de hoje, sempre as mulheres prevaleceriam na sua vida. Dos quatro anos recordava uma mãe, duas irmãs, posteriormente teria outra; duas avós, cinco tias, um número infindável de primas e um só homem. O seu avô materno, austero e prepotente com todas na proporção que era meigo e doce para com ele. A espaços recordava outro, mas esse deixara-os, a ele com dois anos, a mãe, a irmã com quatro e à mais pequenina em ventre materno e partira em demanda de terras africanas, Angola, onde, segundo se constava era só abanar a árvore.
Fácil é deduzir-se que era um pequeno rei numa corte de aias atenciosas e subservientes, até mesmo pela sua irmã mais velha que podendo legitimamente ter ciúmes de tanta atenção dispensada, muito ao invés resolvera tomá-lo à sua particular atenção, e que se prolongaria até ao seu prematuro desaparecimento quando ia fazer doze anos.
Nessa tarde fria e chuvosa de Inverno, iludindo a vigilância da sua irmã protectora, resolveu ir ter com o avô, que sabia andar com a sua junta de bois a lavrar o campo de um vizinho.
O caminho que percorria era estreito, e um pouco abaixo corria um pequeno curso de água a quem o povo chamava ribeira, mas agora com as chuvas engrossara bastante e corria impetuoso. E aí começaria a odisseia épica de uma vida singularmente estranha.
Naturalmente escorregou na lama e caiu lá para dentro. Foi arrastado pela corrente, embrulhado e amarfanhado, ora em cima ora em baixo e subitamente empancou numa raiz salvadora que inopinadamente por lá aparecera. A ela se agarrou com todas as forças que lhe permitiam os seus quatro anos, que por acaso já eram algumas consideráveis.
Nunca soube quanto tempo lá permaneceu mas recordava-se de ter passado muito frio. Foi resgatado pelo seu avô, quando ao regressar do trabalho, esse lá o lobrigou. Foi quase um milagre porque a escuridão já era intensa e, sobretudo, porque já trazia a sua garrafa de aguardente diária por mais de metade. Deixou os bois e o arado ao abandono e correu com ele para casa. Gritou e insultou a mulher e a filha, chamou-lhes de malditas vacas incompetentes incapazes de tomarem conta do cachopinho e arreou forte e grosso nelas. Partiu o único prato que tinha na cabeça da mulher e desancou mais na filha. Levou a garrafa à boca, bebeu o que restava e acalmou. Pelo menos caiu para o lado calmo e tranquilo como um santo num altar. Esse seria o seu primeiro encontro com a água, outros mais se lhe seguiriam.
Alguns meses depois embarcava com a mãe e as irmãs à caminho de Angola, para onde, tudo o indiciava, o pai soubera com arte e proveito, abanar convenientemente a árvore.
O navio era velho e pequeno, navegava devagar, e por vezes até parava. Essa seria mesmo a sua derradeira viagem. A mãe enjoou logo ao embarque e a irmã mais nova, com dois anos, essa já embarcara doente com uma malga a transbordar de azeitonas galegas que a tia Rosa lhe dera, pitéu a que a miúda não resistia. Esteve mesmo em risco de vida, mas safar-se-ia, a pestinha.
De modo que com uma enjoada e outra doente, e ainda outra a fazer sete anos a ter que tomar conta daquelas inúteis, ele desfrutava de uma deliciosa e saudável liberdade que o levava a correr o barco da popa à proa a seu bel-prazer.
Ia também nessa viagem um Contingente Militar, desses que o Governo mantinha nas colónias, de quem rapidamente se tornou amigo e por eles adoptado como mascote. Andava com eles, comia com eles, via-os beber vinho por garrafões, jogarem às cartas e cultivar-se-ia a preceito na sublime retórica do palavrão: enfim, a sua confiança neles era ilimitada e só queria ver-se grande depressa para envergar aquela bela farda de caqui amarelo e combater em todas as guerras deste mundo, já que guerra fora a palavra mais ouvida em toda a sua curta existência. Nascera em quarenta e estava-se em quarenta e cinco.
Numa tarde, quase a anoitecer, vagueava ele por ali, triste e sentindo-se um excluído da sociedade por não ver ninguém, quando distinguiu um militar que encostado a amurada do navio, olhava para diante perdendo-se em sabe-se lá quais horizontes.
Correu para ele e o militar quando o viu pareceu ficar deveras surpreendido. Baixou-se ao seu nível, estranhamente pareceu-lhe que olhava receoso para todos os lados; depois soergueu-se trazendo-o com ele agarrado pelos braços. Estendeu os braços com o rapazinho para fora do barco, e disse-lhe numa voz rouca e cavernosa que ainda hoje, por vezes, o faz acordar banhado em suor.
- E seu eu te deixasse cair?
Nunca soube o que sentiu. Olhava para baixo, para o que lhe parecia um abismo sem fim, e tanto quanto a escuridão que já tombara lho permitia, via água calma muito ao fundo. Então algo explodiu na sua cabeça pedindo-lhe para não gritar. Depois ele jogou com o rapazinho: largava-o e apanhava-o, largava-o e apanhava-o. Por vezes jogava-o bem acima, deixava-o cair e apanhava-o no último instante. Até que soube que o ia deixar cair; leu-lhe nos olhos o intento, até lhe sentiu o afrouxar das mãos. E exactamente um lapso de segundo antes do crime se consumar, um quase imperceptível ruído fez-se ouvir ao lado, que foi gradualmente aumentando à medida que se aproximava. Dois marinheiros vinham por ali conversando.
Provavelmente receoso do seu crime ser testemunhado, ou que o menino até então silencioso gritasse ao ser largado no oceano, recolheu-o e largou-o atabalhoadamente no tombadilho antes de desatar a fugir em direcção contrária à dos marinheiros.
Esse seria o seu segundo encontro com a água, se bem que nem se chegasse a molhar.
E também, embora a curta idade não lhe permitisse compreender, Deus que já lhe fora apresentado na ribeira resolvera visitá-lo de novo.
Far-lhe-ia até a data de hoje, mais oito visitas.

Fim do primeiro episódio.

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