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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Destino oculto, final.

por Corvo, em 08.05.15


Era a primeira vez, depois de há oito anos se ter definitivamente radicado no Canadá, - declarações gentilmente prestadas pela famosa escritora, - que visitava o seu país.
Infelizmente, compromissos inadiáveis com a sua editora e o cinema não lhe permitiriam permanecer mais do que umas duas horas no seu país. Apelava-se à compreensão dos fãs da autora e do público em geral para o tempo limite estabelecido para a sessão de autógrafos.
- Trá-la contigo. - Pedira-lhe a mãe dela, segurando-lhe as mãos - Trá-la.
“Trazê-la? Que sabia ele dela? O que os ecos da imprensa divulgava. A sua ascensão meteórica no mundo literário, que não se lhe conheciam relacionamentos sentimentais e que na companhia dos filhos, há oito anos adoptara o Canadá como seu país hospitaleiro .
“Trazê-la? A ela? Lembrar-se-ia ela, porventura, que um dia existira um Henrique na sua vida? Ela fora-se sem uma explicação, sem um adeus, sem nada. Fora-se, partira para longe, simplesmente”
Ao fundo do salão onde a sessão decorria, oculto por uma coluna, extasiava-se na contemplação da belíssima figura feminina, que sorrindo encantadora, ia distribuindo autógrafos e gentis palavras de simpatia entre a multidão que a afogava.
O imenso salão do grande hotel, pouco a pouco ia-se esvaziando de mundo e a pressa com que a sua agente se lhe dirigia, e os gestos de concordância que ela fazia com a cabeça, explicitavam o curto tempo que lhe restava. Com alguma pressa que não tentava esconder, levantou-se e viu-o à sua frente, estendendo-lhe o seu romance.
Foi devastador. Empalideceu intensamente, cambaleou e voltou a cair sobre a cadeira.
- Desculpa, Clara; não te roubarei muito tempo. Assinas o teu livro, por favor?
- Henrique, - balbuciou sem ver o livro pousado na sua secretária, esperando a sua assinatura. - Henrique, eu, tu…Henrique.
- Boa noite, Clara. Desculpa o incómodo, sei que estás com pressa. Assinas, por favor?
Os belíssimo verde, foi lentamente levantando-se para ele.
Ah! A voz indiferente, amarga com que se lhe dirigia, que os olhos embevecidos que ternamente olhavam para ela, desmentia.
- Não tenho muita. Falas um bocadinho comigo? Podemos ir até ao terraço. Queres?
- Não te podes demorar muito, Clara. Lembra-te que já tens pouquíssimo tempo para ti. - Chamava-lhe a atenção, a sua agente com ar de evidente preocupação.
- Vou já. Vens, Henrique, vens comigo?
Se ia com ela, Mãe Sagrada! Se ia com ela! Ah! O edifício que tão dolorosamente fora edificando ao longo dos anos, o coração que voluntariamente fora endurecendo e que julgava petrificado, toda a indiferença a que se forçara para a tirar de si, do pensamento e da sua alma, toda essa luta desigual contra a recordação de quem ela era, o que lhe trazia, o que com ela vivera, todos os sentimentos agrilhoados e que julgava bem aprisionados, afinal não passava de uma quimera, um projecto abstracto que aos simples olhos de uma mulher se desmoronara em pó. Se ia com ela?!
Depois falaram sobre…nada. Conversais banais, sem interesse, sem sentido, conversas de circunstância como se só agora se tivessem conhecido. Corações rebelando-se, sofrendo, exigindo.
“Oh, querido. Toma-me nos teus braços, aperta-me forte. Vê! Sou tua!”

Não! Não podia fazer isso. Ele já não era dela. Ela abandonara-o e ele fora para ela, Cristina. Um soluço do tamanho do mundo acompanharam-lhe as lágrimas escorrendo para dentro, afogando-lhe a alma.
A agente dela, de longe fazia-lhe desesperados sinais para que se despachasse. Com um triste sorriso olhou para ele, como que pedindo-lhe que compreendesse.
“Ah, perdi-te. Não és minha, nunca foste! Apenas como o desesperado náufrago que no alto mar agarra uma palha que seja que lhe permita uma ténue esperança de vida, assim, louco, julguei, pensei.”
- Tenho de ir, Henrique. Gostei tanto de te ver, de estar contigo. Mas, que indelicadeza a minha, desculpa: dá os meus cumprimentos à Cristina.
- Dou, sim, dou! - E quando ela já se afastava, - queres que te dê a direcção dela?. E do Daniel? Eles iam gostar de saber de ti.
Correu para ela quando a viu parar, vacilar e procurar apoio no espaço vazio, e tomou-a nos braços.
- Clara! Oh, Clara! - Com ela nos braços procurou com os olhos uma cadeira, um banco, alguma coisa em que a pudesse sentar, mas nada disso se encontrava por ali - Vou chamar alguém. Um copo de água!
- Não, fica, - estendia-lhe a mão. Que disseste tu? Diz, Henrique! Que me disseste?.
- O quê, Clara? Não sei, que te disse eu? Diz tu!
- Ela. Cristina, Daniel, direcção. Diz Henrique! - Atabalhoava-se, queria perguntar mas a ânsia que lhe que lhe explodia o coração, não lhe permitia ser coerente. - Onde está a Cristina?
- Está com o marido, o Daniel. Casaram quase logo a seguir a tu…a tu. - fez um esforço tremendo para calar a comoção, - Tu teres ido para o Canadá.
- Oh, Meu Deus do Céu! Oh, Henrique! Então tu, naquela manhã quando ela estava na tua cozinha, ela, tu, vocês…ela já namorava com o Daniel? Namorava?! Se casaram logo a seguir como tu disseste ela já namorava com ele. Namorava, não é, Henrique! - Muito mais do que perguntar, ela queria a confirmação do que indagava.
- Que manhã, Clara? Que manhã? - Debruçara-se ansioso sobre ela. Algo como uma aragem muito ténue, uma brisa suavíssima, vinha margeando o entendimento pedindo para ser escutada. - Que manhã, Clara? Que queres dizer? Fala, Clara, fala! Não vês que assim me desesperas?
- Naquela manhã quando eu vinha, eu vinha, quer dizer; a Cristina estava na tua cozinha a perguntar-te onde tinhas o café.
Ah! Naquela manhã! Recordava-se agora. Era isso! Ela viera. Que dissera ela? Viera?! Ela viera?!
- Sim, recordo-me agora. Eu sentia-me um pouco em baixo, e como também pensei que isso pudesse contribuir para os juntar, pedi-lhes que viessem passar uns dias a minha casa fazer-me companhia. Naquela manhã ela estava na cozinha a preparar café para nós todos. Ela eu e o Daniel que dormia ainda no quarto em que ela também dormira. Disseste que a viste naquela manhã?
Demorou algum tempo a responder. Parecia alheada deste mundo como se estivesse num universo paralelo, como se não conseguisse alcançar as coisas, ou que a felicidade fosse tanta que lhe  houvesse embargado a capacidade racional.
- Sim , Henrique, eu vi-a e e. OH Meu Deus! Que fiz eu. Que fiz, Henrique? - O pranto soltou-se e não conseguiu dizer mais nada.
Correu para ela e com o lenço percorrendo-lhe delicadamente a acerejada face, limpou-lhe carinhosamente as lágrimas. Inebriado de inefável felicidade, a sua boca secava enternecidamente aquelas lágrimas que corriam por ele.
- Clara, minha Clara, minha querida, minha vida, diz.
- O quê, Henrique? Eu digo! Digo o quê?
- Vieste cá naquela manhã. Porquê, Clara? Minha doce Clara. Porquê?
- Eu vim, eu vim, eu…sempre te amei, Henrique. Sempre! Tal como tu, sempre te amei desde criança, mas não sabia.
E aqueles dois corações feitos para viverem só num, encontravam-se finalmente e trocaram o seu primeiro beijo de amor.
- Clara, agora chega! - a sua agente irrompia deveras zangada. - Estão todos à tua espera. O senhor desculpe.
Do imenso abraço que a imergia, a sua voz soou transparente e cristalina .
- Assina tu tudo! Não assines nada! Cancela tudo!
“Ah, era bem dela. A sua Clara voltava” Sorriu abraçando-a ainda mais.
- Henrique, querido Henrique, leva-me para casa.
- Sim, Clara, minha doce Clara. Vamos para casa. Para a nossa casa.
Aconchegou-se nele, e partiram abraçados.
Fim.

 

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