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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Destino oculto 7

por Corvo, em 08.05.15

Uma semana passou sem que ele a procurasse, e ela por sua vez também não o procurara mais,. Agradeceu essa tomada de decisão por parte dela. Dissera-lhe o que durante tanto tempo o sufocara, libertara-se do tremendo fardo que durante todos esse anos carregara e sentia-se liberto, livre como o prisioneiro que se liberta das correntes que o agrilhoaram. Agora ela sabia e nada mais poderia fazer do que esperar a decisão que tomasse.
Quando, mentindo à sua consciência com o pretexto de umas assinaturas que o pai dela deveria assinar se dirigiu a casa dela, soube pela mãe dela, que dois dias antes a filha embarcara para Portugal. Afligiu-se primeiro, aliviou-se de seguida quando constatou que deixara os filhos com os avós e embarcara sozinha. “Ela vai voltar.” Exultou num arroubo de indescritível esperança. “Vai voltar”
Sairia de casa dos pais dela já tarde na noite, depois de ter passado toda a tarde a brincar com as crianças. A mãe dela acompanhou-o até à porta e ao franqueá-la, deteve-o e olhou-o com extrema meiguice.
- Henrique, sempre sonhei que casasses com ela. Nunca vi mais nada para ela, para vós. Tanto conversámos sobre isso, eu e a tua mãe.

 

Acedera a jantar com ele, acedera a que a levasse a casa dele, a casa que lhe dissera ser agora a de ambos.
- Vais gostar, Clara. É exactamente como a outra e decorei-a aos teus gostos. A nossa casa, Clara. A casa nossa e dos nossos filhos. Perdoa-me, amo-te. Dá-me uma oportunidade, uma só e farei tudo para seres feliz. Dedicarei toda a minha vida a fazer-te feliz. Juro, Clara. Estou tão arrependido. Vamos recomeçar, esqueçamos o passado e pensemos em nós, no nosso amor e nos nossos filhos. Amo-te tanto.
Veio delicada e meigamente aproximando-se dela. Ficou à sua frente, de voz suplicante jurando promessas de fidelidade eterna. Amo-te Clara, amo-te, amo-te; amo-te espalhando-se pela sala, inundando o espaço, repercutindo-se, eco trazido chocando com o som incessante. Amo-te, amo-te, amo-te…perdendo o sentido.
A boca dele procurando a dela, os lábios que se encostam, a boca que não se abre. “Henrique, Henrique, meu Henrique, meu amor”
Ela já não esta ali. Não sente a boca sôfrega que desvairada esmaga a dela, que força a  que ela se abra. “Henrique, onde estás, meu amor?”
Não! Empurrou-o afastando-o de si e com as costas da mão esfregando a boca, atravessou as dependências a correr e achou-se na rua.
Henrique. Um táxi, Deus do Céu.” Procura-o em desespero olhando para todos os lados, quase se precipita para a frente de um que é forçado a travar no limite, abre a porta antes de ele se imobilizar completamente e pede que a leve ao aeroporto. Se não podia, por favor, ir um pouco mais depressa.
“Henrique. Espera um pouco, meu amor. Só mais um pouquinho”
Eram seis horas da manhã, quando a chave foi nervosamente introduzida na porta da casa dele e precipitadamente rodada. Entrou afogueada e precipitou-se para as escadas que levavam ao quarto de Henrique, mas da cozinha deteve-a a voz alegre da Cristina, em timbre elevado para se fazer ouvirconvenientemente.
- Onde disseste que está o café, Henrique? Não o vejo.
- Na prateleira ao alto do lado esquerdo. Procura bem que vais encontrar.
Como que atingida por um raio de enorme potência, cambaleou e ia cair, mas a parede amparou-a. O tecto rodopiou por cima dela, sufocou-se e abriu a boca procurando inalar o ar que lhe faltava, o cérebro recusando-se a aceitar o que vira. Cristina, de robe, alegre e feliz, às seis horas da manhã procurando café na cozinha dele, rindo e galhofando com ele esperando, indubitavelmente, que ela lho servisse no quarto, ...no quarto.
Sentiu o mundo desabar e um soluço que atabafou com as duas mãos levadas a boca, despedaçou-lhe o coração.
Sentada e apoiada à parede, dobrou-se sobre si mesma levando as mãos comprimindo o peito pela dor lancinante do punhal que lhe rasgava o peito, aprofundando, rasgando. Levantou-se e sempre apoiando-se a parede, foi quase rastejando que saiu dali como pôde.
- Henrique! O matabicho, ( pequeno-almoço ) está quase pronto. Vai acordar o Daniel.
Do outro lado da porta, ela já não ouviu.

Oito anos depois.

A famosa escritora Maria Clara de… com oito best-sellers traduzidos em mais de trinta línguas, seis adaptados ao cinema, vinha a Angola, seu país Natal, fazer o lançamento do seu último romance .
A imprensa mobilizou-se e medidas de segurança foram tomadas a fim do esperado evento, amplamente divulgado pela imprensa europeia e africana, tivesse o sucesso esperado.

 

 

Segue o final dentro de momentos.

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