Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Destino oculto 6

por Corvo, em 07.05.15

Nessa noite, quase um ano depois dela ter regressado, encontrava-se sozinho em sua casa. Passara o fim de tarde com ela e com os amigos e ao cair da noite levara-a a casa dela.
Não se sentia particularmente bem nessa tarde, dissera-lhe ela. Não adiantara mais nada e ele nada mais indagara Deixara-a na casa dela e viera ele para a sua, onde agora, preso de inexplicável preocupação, se interrogava do porquê? Por que se sentia assim tão estranhamente desinteressado, apático como quem não compreende o porquê das coisas nem da vida, como se do mundo estivesse alheio ou nem nele habitasse? Assim, estando ali por estar, olhar sem ver, escutar sem ouvir, falar sem saber. E sobretudo, porquê esse inexplicável receio de sabia lá o quê. Uma estranha  sensação de irrealidade.
Ela mudara. Os seus prolongados silêncios angustiavam-no. Sentia-a como que mais distante, mais longe de si. Como se de um sonho se tratasse em que algo que sempre se desejou intensamente esteja ali ao alcance de uma mão e quando finalmente se alcança, o corpo separado da nossa vontade não nos obedece prendendo-nos ao solo e vemo-lo afastar-se, mais e mais e dissipar-se num horizonte inalcançável.
Lá fora a chave rodou na fechadura, e ela entrou. Viu-o ali parado dentro da sala e, estranhamente, quase nem se admirou.
- Henrique, o André, ele… ele…quer falar comigo. - Como se o esforço tivesse sido demasiado, mais do que se sentar, deixou-se cair sobre o sofá.
Ainda não lhe dissera nada, nem aos pais nem aos amigos, mas desde há uns meses que o André entrara em contacto com ela. Jurara-lhe arrependimento, que não podia viver sem ela nem os filhos, que lhe perdoasse a loucura, nunca mais aconteceria. Via agora como a amava, sempre a amara mas uma vez acompanhara uns amigos ao jogo, perdera e na ânsia de recuperar o perdido voltara lá. Perdera novamente e perdera-se a si mesmo. Emigrara, trabalhara intensamente e com a ajuda do pai conseguira pagar as dívidas e ainda lhe sobrara algum, mas precisava dela e do seu amor para seguir em ,porque sozinho não era ninguém. Que lhe perdoasse, estava mudado e que lhe desse uma segunda oportunidade. Tinha perdido muito naquela noite, estava bêbedo e nem soubera como acabara na cama dela, mas jurara-lhe que nunca mais se repetiria. Fora só daquela vez e nunca mais a vira, nunca mais a quisera ver. Pedia-lhe que fosse ter com ele, por favor, apenas como amigo e pai dos filhos dela. Nada exigiria, mas por favor, que fosse e lhe desse a oportunidade de falar com ela e beijar os filhos.
Contara tudo de rajada como quem tem pressa em explicar o que pretende justificar. Depois, manteve-se silenciosa.
- Clara, vais ter com ele, não é? Voltar para ele, é isso? - A sua voz era calma, pausada, triste.
- Não sei, - balbuciou. - Só vou conversar com ele.
- Voltas para ele, Clara. Porquê?
- Eu não disse isso. Não me ouviste? Só vou conversar com ele. - Sem ela mesmo compreender porquê, a sua entoação soara agressiva.
- Voltas; Clara, voltaste para ele. Nem sequer colocaste a hipótese de não ires, de recusares. Vais sim! Por isso reitero. Porquê?
- Não sei. Ele é, ele é…o pai dos meus filhos. - Suspirou como quem se alivia de um peso incomodativo.
- Ama-lo? - Ela baixou a cabeça e não respondeu. - Responde, Clara. Ouviste-me! Ama-lo? Ainda o amas?! É isso?! … Responde!
Por… por que não se surpreendia? Aquela inflexão de voz, aquele tom bem timbrado, calmo, firme, seguro de quem tem a certeza de que sabe o que diz. Aquela entoação que só a certeza da verdade, permite. Nunca lha ouvira.
- Eu, eu, …não sei.
- Amas! Amas aquele homem que te traiu? Que não te respeitou? Qte atraiçoou? Aquele homem que com a tua amiga te desrespeitou. Amas?! É isso que me estás a dizer, Clara?!
- Ele … estava bêbedo naquela noite. Vê! Nunca mais se encontraram. Até emigrou, ele…
- Que estás a dizer, Clara! - Interrompeu-a quase com brusquidão. -É verdade o que acabo de ouvir? Tu…ama-lo? Ainda podes amá-lo depois de tanto te ter humilhado?
- Pediu-me perdão e eu…
- Cala-te! Não te humilhes mais. Onde está a criança traquinas e desobediente? A rapariga arrogante e dona da sua vontade? Onde está? Onde está a mulher decidida e responsável? Onde estão todas as que em ti conheci? Amas?! Amas o homem que te desrespeitou e envergonhou? Onde estás tu, Clara? Onde está a Clara que conheci?
Sem responder, ela afundou a cabeça no peito, e ele soube que chorava. Nada fez para a ajudar. Após um longo silêncio, a voz dele, calma onde uma inequívoca mágoa se entendia, quebrou a quietude há tanto tempo instalada
- E eu?
Levantou a cabeça, e os olhos humedecidos fitaram-no sem compreender.
- Tu…Tu o quê?
- Eu, Clara. Eu que te amo.
- Amas?! Amas quem?! - Esbugalhou o imenso verde olhando-o surpreendida como se não compreendesse, ou o cérebro se recusasse a processar o que ouvira.
- A ti! Amo-te, sempre te amei.
Abriu a boca, tentou falar e balbuciou alguns sons ininteligíveis. Levantou-se de supetão, correu para ele e com as mãozinhas cerradas lá em cima golpeando-lhe o peito, extravasou o que o que o instinto lhe ditava e a inteligência recusava:
- Estúpido! Por que nunca mo disseste?! - Caiu em si e com o peito sacudido por soluços, voltou a deixar-se afundar no sofá. E numa voz sumida e chorosa, as palavras saíram-lhe dolorosas. - Não me podes amar, não nos podemos amar. Somos como irmãos.
- Mas não somos! - Soltou num grito de alma. - Não somos! És a Clara, a Clara que sempre amei. A Clara que me despedaçou o coração desde criança! A Clara, a razão de toda a minha vida! A Clara que não é minha irmã, não quero que seja!
Ela não respondeu e ele também não. Imersos em profundos pensamentos, ele pediu-lhe que deixasse ali o carro dela que a trouxera e foi no dele levá-la a casa. Não pronunciaram uma palavra durante o percurso, e um olhar intenso trocado entre ambos, foi a despedida

continua..

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D