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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Destino oculto 5

por Corvo, em 07.05.15

Depois soube as coisas; sabê-las-ia . Ela estava ali. Não lhe falava em regressar, nos seus objectivos, projectos, presentes nem futuros; estava ali, simplesmente. E ele agradecia ao destino o ensejo que lhe permitia a suprema felicidade de usufruir da presença querida. Estava ali com ele, com os amigos como se nada se tivesse passado, como se o acontecido não tivesse existido, como se por passe de magia o tempo tivesse parado ou que por mistério inexplicável, numa viagem regressiva tivesse viajado no tempo a um passado não tão distante quanto isso.
Clara, a sua Clara, toda a razão da sua existência, estava ali com ele. Esperaria, Deus do Céu! Já tinha esperado tanto, esperaria um pouco mais. Esperaria todo o tempo do mundo que a vida lhe permitisse viver, mas não agora. Não se aproveitaria da sua fragilidade para lhe declarar o seu imensurável amor, aquele amor que mesmo não o sabendo ainda definir na sua essência, fora, contudo, a força que sempre o levara para ela, que sempre o arrastara para ela desde a primeira vez que a vira aos quatro anos de idade.
“Henrique, viste a tua irmã? Sabes dela? Não queres ir ver onde está a mana?”
Não é minha irmã, nunca foi, não quero que seja! É a Clara! A Clara que me irrita, que faz tudo ao contrario do que eu digo”
A Clara que se metia em tudo, que mudava a meio do jogo as regras do berlinde, que voltava a repetir porque lhe falhara o dedo, a Clara que decidia que era golo com a bola a ser jogada no campo contrário, a Clara que nunca ele nem mais ninguém ganhara uma corrida do arco que não fosse ela, a Clara que não se preocupava em fazer os trabalhos de casa porque sabia que ele lhos faria, a Clara o terror de todos os rapazes do bairro, a fura-regras e estraga tudo.
“Henrique, vem ali a tua irmã. Não jogo mais”
“Ficas aqui, não ficas, Clara?”
“Fico! Quem é que está a ganhar?”
“São eles”
“Ah, então também quero jogar. É penálti, não viste que é penálti?”
“Não é nada, ele é que escorregou”
“É que eu vi que é! O meu irmão vai marcar”
“ Não sou teu irmão, não és minha irmã. És a Clara, a …minha Clara”

    - Não sabia. Ele dizia que ficava a trabalhar e andava no jogo. Só soube quando a ordem Judicial me disse que a casa estava hipotecada. A minha casa. A casa que os meus pais me deram quando fui estudar para Portugal e fiquei sem ela. Nunca pensei, Henrique.
   - Todo o mal fosse esse, rapariga. Dou-te outra. - confortava-a o pai, tentando dissipar para longe o desânimo da filha.
   - Mas até passava. Amava-o tanto e jurou que estava arrependido e que nunca mais jogava, quando soube que andava metido com a mulher de um tenente, um casal nosso amigo que frequentava a nossa casa e nós a deles. Uma amiga minha.
   - Nunca devias ter casado com ele. - A virtude de tolerância da mãe não era propriamente a do pai - Avisei-te! Tanto te avisei, tanto fiz força para não o ouvires, mas tu nunca ouviste ninguém. Sempre fizeste as coisas pela tua cabeça.
   - Amava-o! Ficas com os meninos, mãe? Henrique, vamos ao cinema? Passamos pela casa da Cristina e vamos ver o Doutor Jívago? Dizem que tem uma música tão bonita.
   - Vamos! Porquê a Cristina?
   - Por nada. Pensei que gostavas dela, só isso!
   - Não gosto. Quem gosta dela é o Daniel. Tu sabes isso, não sabes?
Por que se comprazia em magoá-lo?…Ou…Não?! E se não fosse para o magoar e pensasse sinceramente que ele gostava dela e fizesse tudo para o ver feliz?
Sim! Era isso! Conhecia-a desde criança, travessa, impetuosa, irreverente; inoportuna, vezes demasiadas, mas nunca mentirosa e sempre generosa e verdadeira. Queria sim que se sentisse feliz, não era culpada se o inverso acontecia.
Mas depois que desabafara com ele, na casa dela e na presença dos pais o seu desgosto e aquilo que lhe atormentava a alma, sentia, via-a muito mais solta, liberta e quase exuberante como antes .
“Amo-te, Clara, vou-to dizer. E vais amar-me também. Não pode, não é possível que tanto amor não tenha correspondência. Talvez te surpreendas um bocadinho, mas depois vais amar-me. Aliás, sei, sinto, vejo como que um pequeno envolvimento diferente nos teus olhos quando olhas para mim. Amo-te Clara! Querida, ama-me também, ainda que, só um bocadinho”
Continua.

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