Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Destino oculto 4

por Corvo, em 06.05.15

Foi ao casamento, seria o padrinho dela e depois retirou-se. Voltou a Luanda, conversou com os pais e foi para França tirar o curso. Recebia cartas dela ao ritmo de uma por semana onde lhe exprimia toda a sua felicidade, depois uma por mês e três anos depois deixou de as receber, de todo. Não forçou correspondência e respeitou o seu desejo. Se não lhe escrevia só lhe restava inclinar-se à sua vontade. Dois meses depois da sua última carta, decorridos três anos de incompreensível silêncio, era recebedor duma missiva dela onde lhe comunicava a sua gravidez, e nove meses depois a comunicação de que era mãe de duas crianças. Um menino e uma menina.
Ah! E deixara de exercer a profissão para se dedicar a tempo inteiro aos filhos.
Imaginas o que faço nos momentos que eles me deixam livre? Não te surpreenderás, seguramente, sempre me vaticinaste esse futuro. Sim, meu querido irmão, escrevo. Quero dizer, rabisco. Nem sei se terei coragem de apresentar os meus gatafunhos a um editor.
Beijo-te, querido irmão. Muitos beijos da tua irmãzinha que morre de saudades tuas
Nem uma palavra sobre as suas expectativas futuras, sobre o marido, nada. Só ela e os filhos.
Acabou o curso, voltou para Angola, abriu consultório e tornou-se um advogado de sucesso.
Dois anos depois, seis desde a última vez em que a frase sacramental, “Pode beijar a noiva” lhe desmoronara a derradeira esperança que hipoteticamente pudesse ter, ao chegar nessa manhã ao escritório, a sua secretária comunicou-lhe que tinha uma senhora muito bonita, - frisara com um sorriso de instintiva simpatia, o pormenor, - no seu gabinete, esperando-o.
- Linda, doutor. Não lhe conhecia essa cliente. Nem nenhuma de tanta beleza e classe.
- Disse o nome? - Indagou com ar indiferente
- Não, não disse. Queria falar consigo, apenas.
- E deixou-a entrar para o meu gabinete? Disse, ... que me espera no meu gabinete?
- Sim, foi o que ela disse, - respondeu, deturpando deliberadamente o sentido interrogativo - Que o esperava no seu gabinete.
- Sim, estou a ver. E portanto deixou-a entrar sozinha para o meu gabinete, onde, suponho, ainda estará esperando-me. Que isso me agrade ou não, é indiferente.
- Oh, não, doutor: ela disse que o senhor não se incomodaria.
Já não lhe respondeu e com semblante de real preocupação dirigiu-se para o compartimento, ao fundo do corredor. “Mulheres”, pensou depreciativamente, “tão responsável e eficiente e, disse que o doutor não se incomodaria” Pois ia ver se se incomodava ou não. Logo hoje que por sorte ou azar fora dar com uma foto da Clara, esquecida num livro que folheara. Bonita ou feia ia ela pagar a factura.
Com alguma brusquidão empurrou a porta, e quedou petrificado. Sentada na sua cadeira e reclinando-se num descontraído à vontade, a belíssima Clara recebia-o com o mais encantador sorriso. Antes que algum som pudesse articular, as alegres palavras acompanhadas do cristalino riso que lhe despedaçava o coração quando o recordava, soaram-lhe como a mais bela música jamais ouvida:
- Bonito gabinete, doutor; está-se bem aqui.
- Cla…ra. És…és bem tu?!
- Claro, mas…deixa-me ver bem. - Levantou-se e fingindo olhar para si mesma, examinou-se com ar divertido. - Sim, sou eu. Estou assim tão modificada?
Não respondeu, tão-pouco a ouvira. Sentindo-se flutuar num espaço de irrealidade, devorava a belíssima aparição. No mar encrespado em que as suas emoções se atropelavam, instintivamente uma réstia de raciocínio prevaleceu e melhor ou pior, alguma coisa disfarçou. Tentou compor um semblante normal, quando se lhe dirigiu.
- E que fazes aqui? Quando vieste? Onde estás? E os teus filhos? E o teu mari…ele, o André?
- Xiiii, tantas perguntas de uma vez só. Tem calma, rapaz. - O riso divertido dava-lhe toda a felicidade do Universo, mas roubava-lhe a quase inexistente calma que, porventura,  ainda lhe restasse.
- Cheguei ontem à noite, estou na minha casa, dos meus pais e deixei os meus filhos com a minha mãe para te vir visitar. Satisfeito, senhor curioso?
- Sim, Mas, e tu? Quer dizer, visitar-me…porquê? Não não, espera! - Ajuntou atabalhoadamente, - queria dizer, enfim….porquê?
Respirou finalmente, tendo concluído como principiara Ufa, saíra!.
- E o André, o teu marido? Não te acompanhou? - Ah! Agora que já se recompusera, com que naturalidade as coisas lhe ocorriam: e melhor! Como as exprimia. Congratulou-se vivamente com ele mesmo.
- Já não tenho marido, - entendeu-lhe mais do que nas palavras, num sussurro dorido. Depois, numa voz estrangulada pelos soluços, que malgrado o esforço que fazia para os tentar evitar eram perceptíveis para ambos. - Divorciei-me.
Lançou-se-lhe para os braços e desabafou o seu desgosto
- Meu Deus! Amei-o tanto. - Soluçou soltando as lágrimas.
Quereria ter correspondido aos seu abraço, abraçá-la fortemente contra o coração e entranhar-se nela, fundir os seus corpos num só e beijá-la loucamente, secar com a boca aquelas lágrimas que corriam livremente e gritar-lhe todo o seu louco amor mas, os braços que a receberam baixaram-se desalentados ao longo do corpo .
“Amei-o tanto” Ah! Não eram por ele que aquela lágrimas corriam, soltaram-se-lhe por outro. “Amei-o tanto” Fatalidade! Nunca seria sua! Amava-o ainda! Amá-lo-ia sempre.

As suas lágrimas confundiram-se com as dela, mas ela não se aperceberia.
Continua.

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D