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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Destino oculto 3

por Corvo, em 05.05.15

Ainda se passariam dez dias de aflitiva angústia emocional para o terrível enamorado antes que o loiraço regressasse às origens, e na noite de véspera da sua partida fez questão de convidar, - com o beneplácito do papá, outro patego da mesma estirpe do filho, segundo profunda análise comportamental ajuizada pelo enamorado da bela Clara, - amigos e conhecidos, e alguns outros e outras rapazes e raparigas dispersos pelas redondezas circundantes.
Apareceu,… oh, surpresa inopinada! Um gira-discos e o tango e o Elvis causaram furor e devastaram corações. Bem; não teria sido tanto assim. Abalara alguns mas nada que não se recompusesse com uma lagrimita aqui e um suspiro desolado ali, e devastação avassaladora só mesmo o dele, Henrique, que nem por uma vez conseguira dançar com a deslumbrante Clara, a mais esfuziante estrela candente a iluminar a noite. André açambarcara-a e ela, por sua vez não se mostrara particularmente esquiva.
Para terminar a noite em beleza, o derrete corações de miúdas parvinhas, - ainda segundo o prolongamento analítico de caracteres perniciosos, do infeliz Henrique - propôs uma partidinha de poker entre amigos. Coisinha leve, a modos que como para desenfastiar.
Limpou-os a todos e ele, Henrique, rejubilou de bolso vazio mas de coração cheio. Ah! Sorte ao jogo? Tás feito, tratante albino.
“Vai, vai lá para Lisboa, para a tua santa terrinha dos parolos de onde nunca devias ter saído, meu patego albino e deixa as miúdas dos outros sossegadas. Forma-te lá na tua engenharia e vai construir estradas de jeito que aquilo é só carreiros de cabras. Estúpido!”
Mas, ela não ia também? Acabara o liceu, tinha dezassete anos e não estava destinado que iria para Portugal, para a faculdade formar-se em Direito, assim como ele mesmo já deveria ter ido há dois anos não fora a prolongada doença do pai que voluntariamente o fizera interromper os estudos para dirigir as empresas do progenitor? Afinal ele, esse malfadado branquinho de má morte, ia agora mas ela ia um pouco depois.
“Mas não!” Uma permitida pausa à sua atribulada alma. “Ela vai para Coimbra e ele está em Lisboa. Não têm por que se ver, ainda é longe. Ela vai esquecer, deve, … esquecer. Vai!”
“ E depois para o ano também vou lá estar, vou repreender os meus estudos e cursar direito como ela, em Coimbra e ao pé dela e vou-lhe declarar todo o meu amor, este gostar protector pela criança de quatro anos, exuberante e divertida, alegre e traquina que gradualmente se foi modificando para este sentimento avassalador que me enlouquece, transtorna e lançou a minha vida em eterno desespero. Casamos, fazemos as alegrias dos nossos pais e seremos felizes para sempre. Porque sem ela, sem ela, não tem valor nem faz sentido a minha existência”
Ela foi, portanto, e ele ficou mais uma ano pensando nela, enchendo-se dela, inebriando-se dela, da sua imagem e do seu amor.
Um ano depois quando se preparava para se juntar a ela, o MPLA em Luanda e a UPA no norte de Angola, fizeram-no trocar a faculdade pela guerra e, três anos depois, quatro desde a última vez que a vira e dela recebera o último beijo de…irmã, já desmobilizado da vida militar e quando se preparava para finalmente a ver e declarar-lhe o que há quatro anos contingências do destino tinham cancelado, recebia dela o desmoronamento da sua estrutura tão laboriosamente construída
Não poderia, querido Henrique, neste momento de suprema ventura para mim, iniciar a minha felicidade sem a tua presença ao meu lado, sem o beijo do meu irmão querido. Quero que sejas o padrinho da noiva mais feliz deste mundo.
Beijos dos teus irmãos, Clara e André.”

Continua.

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