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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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Destino oculto 2

por Corvo, em 04.05.15

Foi interrompido das suas preocupantes lucubrações pelo jacto de areia jogado para as suas costas, acompanhado da cristalina gargalhada da bela figura que lhe preenchia os pensamentos, ao passar por ele na sua corrida para a água. Viu-a mergulhar em perfeita sincronização com a aproximação da onda, e viu-a emergir quase saltando da água para fora, uns doze metros à frente, no preciso momento em que já se erguia preocupado pela longa imersão.
Sacudiu os bastos cabelos abanando vigorosamente a cabeça, para de seguida os voltar a encharcar ao mergulhar novamente. Desta vez não demorou tanto a aparecer, e ao ondular das águas como se de um colchão de nuvens se tratasse, com uma graciosidade de sereia nadou para lá, e depois voltou para cá.
Viu-o na praia, parado contemplando-a, e um exuberante sorriso embelezou uma face de sonho, que ele não viu mas que desde há muito lhe agrilhoara o coração. Com o braço levantado fora da água, acenou-lhe e chamou-o.
Num ápice dissipou-se-lhe a preocupação e alma encheu-se-lhe de franca felicidade, mas antes que conseguisse concretizar o congratulador intento, um furacão aloirado passou por ele, pulverizando-o de areia à passagem, mergulhou e em braçadas vigorosas foi ter com ela.

Voltou a mergulhar no poço, isto é; a sentar-se e a observar.
Estava neste estado de profunda amargura quando a Cristina, deixando o Daniel com quem conversava, veio ter com ele. Vinha um pouco nervosa e olhando para o Daniel plantado e meio atarantado onde ela o deixara, indiciava que aquele também não tinha grandes motivos para a agradecer à musa da felicidade.
Chegou, mudou de semblante e sentou-se ao seu lado. Depois falou:
- Parece que estão bem divertidos, aqueles dois, hã?
- Quem? - Nem dera pela incongruência da resposta.
- Quem?! A tua irmã e o André, quem havia de ser!
- Não é minha irmã. Mania que vocês têm de nos chamar isso. Não somos irmãos!
Olhou-a surpreendida, aparentemente sem alcançar muito bem. Ultimamente andava que não se podia aturar. Não era nada normal nele, não.
- Está bem; não são irmãos mas nunca te ofendes com isso, pois não? Mesmo vocês, ela principalmente, está sempre a chamar-te irmão isto, mano aquilo e tu não ficas tão enervado como agora. Vejam lá o senhor ofendido. - Fez uma pausa para ver a sua esperada reacção de arrependimento, não viu nenhuma e reatou o que, segundo parecia, ali a trouxera. - De qualquer maneira ele e a tua ir…amiguinha estão a divertir-se à brava. Já reparaste?
Mesmo sem querer forçou-se a olhar para o que já vira e tentara disfarçar pretextando os mais absurdos argumentos de desculpabilização, mas ela, a Cristina ao seu lado e agora quase metida no seu espaço, não lhe deixou grande margem de raciocínio falacioso.
- Jesus! Quase a afoga. Já viste bem como lhe empurra a cabeça para debaixo de água? O que vale é que ela sabe nadar bem porque se fosse comigo já tinha morrido afogada. Vamos lá ter com eles?
- Vai tu! - Foi a seca e, convenhamos, imerecida resposta, mas foi a que adequando-se em perfeita sintonia com o seu estado de espírito, conseguiu arranjar.
Ela levantou-se, e zangada, afastou-se com um breve e não menos seco não precisas ser malcriado. Pegou na toalha e sem olhar nem se despedir do Daniel, ainda plantado onde ela o deixara, encaminhou-se para casa.
Como se estivesse só à espera disso, o Daniel veio ter com ele. Vinha nervoso e algo ou alguma coisa o preocupava seriamente, porque entrou a varrer:
- Tu gostas dela, não é?
- O quê?! Gosto…de quem?! Do que estás a falar? Não gosto nada!
Nem se dava conta do que dizia. Atrapalhava-se, metia os pés pelas mãos, respondia às sua próprias perguntas. Felizmente para si o outro parecia ter mais com que se preocupar do que desvendar incongruências não conjecturadas, porque:
- Vais ter coragem de negar?! Vais?! Ou pensas que não reparei como te apertavas contra a Cristina?
Ah! Cristina. Era então ela, a Cristina. Obrigado Deus do Céu. Mas, por que se admirava assim? Não era segredo para ninguém como ele estava apanhadinho por ela.
- Não Daniel, amigo; não gosto da Cristina. Quer dizer, gosto: é uma amiga de longa data assim como é tua também, mas mais nada. Não fiques preocupado. Somos amigos, acredita em mim. Sei, sabemos todos como gostas dela. Avança, amigo; não a percas!
Fazendo com o indicador arabescos na areia, foi numa voz triste e desanimada, que o amigo lhe respondeu:
- Não sei, Henrique, não sei mesmo. Acredito em ti que não gostes dela, mas é a ti quem ela ama. Até a Clara, a tua irmã já deu conta disso.
- Foi numa entoação ainda mis sofrida do que a do amigo, que ele refutou:
- Não é minha irmã. É é… a amiguinha da minha vida.
Um doloroso soluço que o amigo não ouviu, foi tragado para dentro estrangulando-lhe a alma.

Continua.

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