Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

Como aprendi a nadar

por Corvo, em 30.04.15

Por volta dos meus onze anos, acompanhei o meu pai ao Ambriz, cidade costeira a norte de Luanda, quando ele teve necessidade de se deslocar até lá a fim de firmar contrato com um fazendeiro da zona para a construção de uma casa e de um armazém.
A aproximadamente três quilómetros para norte do mar citadino, desagua o rio Loge, que não sendo um dos maiores de Angola é, ainda assim, um rio de razoáveis dimensões, é provavelmente a par com o rio Cuanza um dos mais perigosos para quem, porventura se arme em aventureiro destemido e caia na palermice de ir molhar os pés.
O mar por sua vez não oferece melhoras significativas no que à segurança concerne. Grandes tubarões: branco e o toiro, vá-se lá saber porquê, entre os meses de Setembro a Novembro são tantos que a gente se admira de como há água suficiente para todos.
Como a Graça Divina nunca vem por pouco, ou tudo ou nada; os jacarés de água salgada saem do rio Loge e vêm disputar a pescaria com os tubarões, e eles para não ficarem por menos; vá, o toiro que o branco é um tímido do caraças; o toiro, portanto, entra-lhes pelo rio adentro e vai disputar a alimentação com eles.
De modo que naquele tempo, agora parece que já não que as obras portuárias correram dali com eles e só um ou outro resistente mantém a dignidade territorial, mas naquele tempo quem tivesse uns minutinhos disponíveis para os dedicar à observação, momentos havia que via o mar mais vermelho do que azul. Ora eu tinha não só esses minutinhos como o tempo todo do mundo disponível.
Contudo, a minha segurança estava mais que assegurada pelo medo, verdadeiro pavor que o mar me provocava. Depois do episódio do barco na minha viagem para Angola, - já aqui relatada em “Fintar o Destino”absolutamente verídica, - á água provoca-me um pavor imensurável, tanto que malgrado todo o esforço e empenho do meu pai em ensinar-me a nadar, nunca a praia tivera a honra de me molhar os pés. Por esse lado, ele, o meu pai, estava tranquilamente à vontade quando me via, ou sabia que eu ia para aqueles lados.
Entrava pelo mar dentro uma espécie de ponte com comprimento aproximado de uns cento e vinte metros por uns quatro de largura, que servia para que os camiões entrassem, em marcha atrás para depois de carregados poderem sair de frente, onde iam recolher a carga que os batelões indo-a recolher aos grandes navios que ficavam ancorados ao largo, a transportavam até ali.
Nessas ocasiões aquilo tinha algum movimento, mas fora disso era completamente deserto, salvo quando eu resolvia ir até ao fim da ponte deliciar-me com as lutas dos tubarões na disputa das caçadas, sobremaneira agravadas quando os toiros entravam na contenda.
E lá estava eu nesse fim de tarde na pontinha da plataforma, debruçado porque os patifes andavam à bulha por debaixo dela, e eu enervava-me porque queria ver e logo por azar os que circulavam à vista pelos vistos não tinham os ímpetos belicistas dos outros, e eu não desistia de querer ver, uma coisa leva à outra, debruça, debruça e cai aos baldões para dentro do mar agitado.
Fui ao fundo, bebi boa parte do mar, olhava para cima e a par com um barulho ensurdecedor via milhões de bolhas que subiam à superfície, esbracejei sem controlo e subitamente vi-me em cima, para logo uma pancada violenta na minha anca me mergulhar novamente nas profundezas. Tudo se repetiu e a esbracejar com pés e mãos em desespero, voltei à tona. Guiado pelo instinto, a esbracejar alcancei um dos pilares da ponte, que nada mais era que um tronco de árvore enterrado, e tentei marinhar por ele acima. Vã veleidade. A fauna lá agregada durante anos rasgou-me as mãos, as coxas e a barriga, mas mesmo assim eu subia. Estava quase quando uma onda provocada pelo mau feitio daqueles turbulentos, me atingiu em cheio e voltou a espetar comigo lá dentro.
Tudo se repetiu, a esbracejar e mesmo com pancadas de um e outro ladol que me jogavam ora para baixo, ora para cima e ou para os lados, tive uma ideia luminosa. Afinal, esbracejando não ia ao fundo. Ora isso queria dizer que sabia nadar. Quando isso me ocorreu, acalmei e comecei a controlar os movimentos e quando constatei que sim, a coisa melhorara significativamente, comecei a dirigir-me para a praia. Ora, eram só cento e tal metros.
Fui portanto nadando, à minha maneira e safava-me melhor se pancadas e roçaganços não me levassem ao fundo mais vezes do que seria recomendável, mas saí.
Senti-me feliz e realizado e rejubilei com a alegria do meu pai quando soubesse que eu já sabia nadar, e depois olhei para mim. Todo eu era uma chaga de sangue. Braços, pernas, barriga era uma sangria daquelas. Todo rasgado pelos mexilhões, mas nem um arranhão dos tubarões. Não liguei muito àquilo, sentia-me o rapaz mais realizado deste mundo por já saber nadar. Para comprovar, voltei a entrar na água e nadei deliciado para lá e para cá.
E perdi o medo da água, o que nem por isso seria muito bom para mim.
Fim.

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D