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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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A Mamã, parte3

por Corvo, em 07.04.15

Depois, a vida seguiu o seu curso. A ele, ao assassino, nada aconteceria. Lavara a sua honra, como então não só se aceitava como normal, como sendo lei.
Os factos falavam por si: apanhara-a na cama com outro, era facto objectivo e concreto, nada mais carecia de averiguação. O chefe de posto deslocou-se à sua casa com dois cipaios e trouxe-o com ele para o posto. Ouviu-o, confortou-o que essas coisas aconteciam, que um homem nunca estava livre de uma mulher o atraiçoar e com uma palmadinha nas costas despediu-se dele, que tivesse coragem que infelizmente não era o primeiro nem seria o último a ser atraiçoado por uma mulher adúltera.
Regressou portanto a sua vida, se não glorificado, pelo menos deveras respeitado. Principalmente pelas mulherzinhas da época, almas sãs e devotas, e sobretudo, abençoadas virtuosas.
“ Cruzes! Já viram? Coitado! …Na cama dele!”
“ Tens razão, Nina: não que não fosse boa rapariga, que até era, mas há coisas que não se fazem a um homem. E logo na cama dele, credo!”
Na cama …dele! E para quem não saiba ou desconheça a realidade da época, tudo era dele… deles.
A casa, o camião, a mesa, a cadeira, a cerveja, a mulher, - leia-se amante e servidora, - a comida, o dinheiro, os pensos da mulher, a vida dele e a dela, tudo era dele. … deles!
Do amante, saber-se-ia que era o antigo namorado que ela deixara na Metrópole que sabendo-a infeliz com o casamento, viera propositadamente para a roubar ao marido e fugir com ela para a África do Sul.
Que o marido soubesse ou desconfiasse, o facto é que fingira essa viagem, deixara o camião algures e, de pistola em punho, abrira a porta e desfechara dois tiros na mulher.
Matara a mulher e poupara-lhe o amante. Talvez alguns resquícios de consciência sepultados naquele cérebro culpado, tivessem muito parcamente emergido mostrando-lhe as “pretinhas” todas que ele não poupava a troco de uma simples boleia
Na casa do Luís, outro drama se passava. A bebé não resistiria à doença e acabaria por falecer.
Alguns meses depois o pai venderia aquela casa e compraria um terreno noutro bairro, onde construiria uma nova casa para onde iriam viver.

Dezoito anos depois.

O Luís, rapaz a fazer 27 anos, tendo há pouco mais de três anos sido desmobilizado do exército português e depois de várias e perigosas peripécias deveras interessantes, apresta-se para dar um rumo à sua vida mais de acordo com a idade. Não porque verdadeiramente o pensasse, mas mais pelo que as mães das meninas suas conhecidas lho recomendavam mal ele tinha a desdita de as encontrar. E por uma estranha e inexplicável coincidência até na sopa as encontrava. Por esse compreensivo motivo procurou um trabalho que o levasse para bem longe de casa, se possível para fora de Angola, mas não o tendo conseguido achou que o Huige, a quatrocentos quilómetros de casa, já remediava.
Era a noite de véspera da sua partida para lá. Sairia quase de madrugada e resolveu terminar o dia indo comprar cigarros ao bar de um amigo, e se porventura encontrasse um amigo, beber uma cerveja com ele e cavaquear um pouco. Não encontrou nenhum portanto comprou o tabaco e bebeu uma cerveja ao balcão. Aprestava-se para sair quando reparou num homem, para aí com uns cinquenta anos ou à volta disso, que olhava insistentemente para si. Aliás; até já reparara na noite anterior mas não lhe prestara grande atenção, mas agora fazia-o e desagradava-lhe ver-se sujeito a um escrutínio tão rigoroso. Encolheu os ombros e não pensou muito mais no assunto. Pagou, despediu-se e saiu porta fora. O estranho levantou-se também e segui-o. Parou, virou-se e esperou que ele chegasse até si para saber o que se passava. O homem, como que receoso, parou também, hesitou mas depois decidiu-se. Chegou até ao rapaz, cumprimentou-o educadamente e explicou-se. Perguntou-lhe se se chamava Luís de… que de pequenino habitara em tal lado na Vila Clotilde. O rapaz confirmou. Perguntou-lhe então se se recordava de uma senhora muito bonita, sua vizinha que gostava muito dele e brincava com ele, e o Luís não respondeu. Encarou-o olhos nos olhos e exigiu saber o motivo de tanta curiosidade. Ele desculpou-se e apresentou-se como sendo o namorado dela, que ele, Luís, uma vez o vira beijá-la.
Uma raiva surda até então reprimida, espoletou como a sanha do leão predador e a sua primeira reacção foi levar as mãos ao pescoço dele e estrangulá-lo até a morte, mas dominou-se a contra gosto. Intuitivamente algo lhe dizia para ouvir esse homem. E ele disse. Disse-lhe que talvez gostasse de saber que o assassino já não vivia, matara-o ele. Depois da morte dela, ele, o namorado, fora para a África do Sul mas há coisa de uns quatro anos, tendo a sua vida estabilizada naquele país, viera a Angola propositadamente para o matar. Seguira-o várias vezes até que a oportunidade surgira. Era de noite, ele tinha feito uma paragem para se aliviar e enquanto puxava as calças, ele saltara-lhe em cima, dominara-o, amarrara-o e tendo regado a cabine com gasolina, ateara-lhe fogo com ele vivo lá dentro. Tudo do mais simples que havia. Mais um trabalhinho dos costumeiros atribuído à UNITA, claro. Pensou que ele, Luís, gostaria de saber.
Sim! Gostara! Gostara muito e agradeceu-lhe sinceramente, mas agora não o queria ouvir mais.
Admiradíssimo, perguntou-lhe porquê, e o rapaz disse-lhe. Reiterou-lhe os agradecimento por ter matado o assassino, sobretudo por tê-lo queimado vivo mas que só lhe prestara atenção pelo respeito e o amor que a ele, Luís, a sua mamã lhe merecia, por ter sido ele, o homem à sua frente, o que ela amara .
Como ele parecia não ter compreendido, o rapaz explicou-lhe melhor. Culpou-o de ter sido o verdadeiro assassino. Se de facto fora o marido a disparar, a causa da sua morte fora a sua cobardia. Se viera de Portugal para a roubar ao marido e fugir com ela para a Africa do Sul, por que hesitara na tomada de decisão e protelara-a até o assassino ter tido tempo para a assassinar.
Cabisbaixo, humilde e numa voz dorida, ouviu dele a terrificante declaração :
- Não sabe?
- Não! O quê?
- Quisemos fugir a tempo, sim . Tantas vezes ela esteve dentro da minha carrinha com a mala feita pronta a partir. mas… Desistia sempre no último momento. Dizia que não podia deixar o seu menino, não podia abandonar o seu filho.
Não se recorda bem o que se passou a seguir. Vê-se numa corrida desesperada para casa, não escutar nem compreender pai e mãe, pegar nas chaves da carrinha e disparar para lá, para o velho e inoperante cemitério fechado há mais de doze anos.
Deixou a carrinha ao abandono e com um salto demencial galgou os quase três metros do muro do cemitério, correu como um louco, passou pelas campas das duas irmãs e com um mamã que lhe arrancou a alma, foi cair na campa dela onde lá passou toda a noite a chorar e a pedir-lhe perdão.
Rompia a alva quando de lá saiu. Sem tomar banho, sem se barbear, sem se mudar nem comer, foi buscar a mala a casa e partiu para o trabalho que o aguardava.

 

Fim.

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