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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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A Mamã, parte2

por Corvo, em 07.04.15

E assim se passaram quase dois meses da mais perfeita realização para uma mãe que não era mãe e para um filho que não era filho.
Quando a conheceu ela era bonita e triste, mas agora transfigurara-se para uma beleza esfuziante. Soltara-se, brincava, ria exuberante. Desabrochara, enfim.
Estavam quase sempre juntos. O marido, que devido ao mau estado das estradas de então; lamacentas e acompanhando o relevo paisagístico o que fazia com que um camião estivesse mais tempo enterrado do que em movimento levando a que uma simples viagem de oitocentos quilómetros demorasse uma semana, ou mais; raramente estava em casa. Era nesses fugazes momentos da presença do marido em casa que alguma frustração emergia entre eles, mas nada que não se suportasse com a certeza que no breve espaço de um dia, dia e meio, ele se fazia novamente à picada. E como um rio caudaloso afogando aquelas duas almas, que tinham tanto de gémeas como de carentes, a felicidade irrompia em toda a sua plenitude.
Comprazia-se em levá-lo pela mão para todo o lado, e sempre que a ocasião ou um displicente motivo surgia, não o desaproveitava para se passear com ele.
Num sábado, por volta das dez da noite, a quietude noctívaga foi ultrajada por dois estampidos provocados por uma arma de fogo. Nunca soube, tão-pouco alguma vez se preocupou indagar o impulso angustiante que o levou a correr disparado para a casa dela,
Alguma gente corria para lá, mas ele foi dos primeiros a chegar. Sobre uns lençóis imaculadamente brancos que rapidamente se tingiam de um vermelho vivo pelo sangue que os empapava, ela estava nua sobre eles. Ligeiramente inclinada sobre o lado esquerdo, o braço pendia fora do leito por onde o sangue que em golfadas jorrava do seio trespassado, o conduzia livremente até ao chão formando uma poça no lajedo, que com uma rapidez estonteante alastrava como um lago. Sentado numa cadeira e ainda com a pistola na mão, o marido repetia incessantemente:
- A minha honra. A minha honra. A minha honra manchada.
Depois os acontecimentos precipitaram-se. Viu chegar o pai a correr e, sem se deter, com toda a rapidez sacar um cobertor de uma gaveta e com ele cobrir o corpo desnudo. … “a minha honra, a minha honra manchada.” Repercutindo-se-lhe no cérebro, martelando-o, destroçando-o. Uma vontade louca de correr para ela, de a abraçar e beijar: de ser abraçado e beijado. “Mamã”

continua.

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