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Navegar num mar de letras

Um blogue que permitirá, aos seus autores, navegar pelas letras contando algumas histórias. E dedicado a quem ainda tem paciência para ler pessoas que gostam de andar por aí sem bússola.

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A Mamã, parte 1

por Corvo, em 06.04.15

No início de noite de uma quinta-feira do mês de Novembro do longínquo ano de 1948, ao regressar do colégio, o pequeno Luís deparou com grande agitação dentro da sua casa. Fora-lhes fazer uma visita de cortesia um casal que há pouco tempo se mudara para o seu bairro. Vila Clotilde, hoje quase centro da cidade de Luanda mas naqueles tempos, arredores bastante afastados.
Fizera nesse mês oito anos e por motivos do trabalho do pai só há um mês entrara para a primeira classe. Até então habitara, desde os cinco anos, altura em que o pai mandara vir a família para junto dele, até quase aos oito numa casa de cantoneiros no interior da selva angolana; hoje também parte integrante da cidade de Luanda, e a sua vida resumira-se, na companhia de um negro grandalhão para ai à volta de uns quarenta anos que assumia as funções de seu guardião particular mas que de juízo tinha seguramente menos do que ele com seis, que tinha como única e exclusiva incumbência recomendações restritas de não o deixar pôr pé a mais de cinquenta metros de casa; resumira-se, dizia; a empoleirados numa árvore ver a chita a perseguir a presa e os mabecos e as hienas a encurralarem caça.
De modo que quando aos oito anos entrou para o colégio era um pequeno selvagem que conhecia incomparavelmente melhor a savana e os seus habitantes do que as crianças da sua idade.
Ela, a visitante, era uma senhora belíssima. Nunca soube a sua idade mas deduziu que não teria mais de 26 anos. Rapariga, portanto, mas para ele, criança, era uma senhora como a mãe, um pouco mais nova só que incomparavelmente mais bonita. Ele era um homem para aí à volta de 40 anos, rude, tosco e bruto. Falava muito alto, gesticulava e interrompia as pessoas, sobretudo a esposa e ria-se das suas próprias piadas.
Ainda sobre ela e porventura o enigma que um tal casamento completamente desfasado, tanto pelas idades como pelas educação e formação, possa suscitar. Era filha de um grande agricultor, culta, até chegara a frequentar o Liceu; coisa que nesses tempos era raríssimo para um rapaz e aconselhadamente desapropriado para uma rapariga, mas a guerra e a politica de Salazar arruinara-lhe o pai, assim como tantos outros pais, e ele, o marido, era camionista, portanto rico, ou para lá caminhava porque naqueles tempos o feliz proprietário de um camião era um senhor já que toda a mercadoria que circulava na colónia era através dos camiões que se fazia. Deve ter sido esse o motivo que a levou a casar-se com ele, quando, uma vez, ele apareceu por lá rotulado de rico.
E desde o primeiro momento em que ela viu o rapazinho, nunca mais os seus olhos se afastaram dele e um encantador sorriso de afabilidade, acompanhavam-nos. Prestava a máxima atenção ao que ele fazia e dizia, mostrava-se solícita e prestável no que entendia ser de mais difícil execução para ele. Veementemente interessada, perguntava-lhe tudo, interessava-se por tudo que lhe dissesse respeito e praticamente deixou de prestar atenção às três irmãs e, sem se dar conta, já quase nem conversava com a sua mãe. Toda a sua atenção e palavras eram para o Luís. E sorria, sorria sempre.
Na tarde do outro dia ao regressar do colégio, ela estava à janela e não disfarçou que o esperava. Convidou-o a entrar aliciando-o com um bolo de coco que fizera especialmente para ele, pois já se informara pela sua mãe que ele era doido por bolos de coco, como aliás, é doidice que perdura.
Dentro de casa ela rodeava-o de atenções. Insistia para que comesse mais uma fatia, que lhe dissesse se estava ao seu gosto senão que lho dissesse como queria que ela fazia, interessou-se pelo seu aproveitamento escolar e, sobretudo, sorria e enternecida, olhava muito para ele.
Com isto o tempo foi passando e quando ela deu conta ficou muita aflita. Pegou-lhe pela mão e foi levá-lo a casa. Desculpou-se com a mãe dele que a culpa era toda dela e, timidamente e a medo, perguntou-lhe se não se incomodava que ele a visitasse de vez em quando. Claro que a mãe não pôs objecções a algo que lhe aliviava o trabalho de ter de o aturar, mas mesmo que pusesse ele já estava mais que determinado a desobedecer-lhe.
No outro dia a cena repetiu-se, e tinha um livro para ele, o que seria o seu primeiro livro. “A Gatinha Encantada.” Com ar enternecido disse-lhe que era muito bonito, o menino mais bonito que já vira na sua vida, que as suas três irmãs não eram feias mas que ele era muito mais bonito. Ficou pensativa, perdeu o sorriso e olhou fixamente para ele, e, praticamente falou para si mesma que feliz era mãe dele com quatro filhos e só a ela Deus não lhe dava nenhum.
Voltou a pegar-lhe pela mão e foi levá-lo a casa. Lá dentro reiterou com a mãe o que a ele lhe dissera na sua casa. Que ela devia ser a mulher mais feliz do mundo abençoada com quatro filhos, e a mãe disse-lhe que a mais infeliz, isso sim, que nem ela imaginava o trabalho que os quatro lhe davam, especialmente agora que a bebé adoecera. Ela respondeu-lhe se lhe queria dar o Luís que era o seu maior sonho ter um filho como ele. A progenitora ficou muito séria a olhar para ela, e parou de rir. Ficou muito atrapalhada e desculpou-se que estava a brincar.
No outro dia lá estava ela esperando-o. Passaria a ser um ritual. Mais bolos de coco, mais laranjadas, mais livros, mais brincadeiras, mais risos, mais juras dela que era a mulher mais feliz do mundo desde que o conhecera e lhe fazia companhia.

E assim se iam passando os dias para completa realização de uma rapariga ansiosa por um filho, e de um filho de outra ansioso por lha propiciar.
Adorava levá-lo pela mão à loja fazer as compras. Fazia inauditos esforços para carregar os cartuchos das compras num só braço para poder ter o outro livre a fim de o trazer pela mão, no regresso.
Uma tarde em que por motivos de saúde da professora o irrequieto Luís não teve aulas, resolveu explorar um caminho suspeito por onde se dizia aparecer um lobisomem sinistro, e deparou-se com ela abraçada a um rapaz, a beijarem-se. Ela quando o viu soltou um grito, afastou-se do rapaz e correu a fugir para casa. Ficou atónito e sem nada compreender. Tinha oito anos, e muito ao contrário das crianças de hoje a quem a TV e a Net, já para não falar dos beijos públicos que se vêem em profusão pelos casais por tudo quanto é sitio alguma coisa ensina, ele desconhecia isso tudo. Culpou-se veementemente pela maldita ideia de ter passado por ali, porque não obstante a sua ignorância algo lhe dizia que não era normal o acontecido, mas atribui -se a culpa de tudo. E agora? Como é que ela podia voltar a gostar de si depois do seu horrendo crime? Já não o quereria voltar a levar pela mão? Mas é claro que não. Tinha tanta certeza disso como a da estúpida veleidade do veado lá na anhara a pensar que escapava à onça.
Durante dois dias não voltou a passar pela casa dela. Fazia um desvio mais longo e vinha pela parte de cima, tal era a sua vergonha. Mas vinha sempre triste e amaldiçoando a maldita curiosidade pelo licantropo que dera azo ao seu nefando crime.
À tarde do terceiro dia quando regressava pelo mesmo caminho e no mesmo estado de profunda comiseração por si mesmo, ela estava à sua espera. Fora fazer compras a uma outra mercearia que ficava naquela rua. Mostrou-se muito surpreendida por o ver, balbuciou um não-sei-quê inatendível para ambos e muito timidamente perguntou-lhe se não queria acompanhá-la a casa porque, mesmo por acaso, fizera um bolo de coco muito especial. Para o rapazinho, foi como o Céu abrindo-se.
Ela ajeitou os cartuchos das compras contra o peito segurando-as num só braço para poder ter o outro livre e dar-lhe a mão. E talvez, os dois corações mais felizes deste mundo nesse momento, assim se encaminharam para a casa dela.
Lá dentro ela mostrava-se tímida e receosa e era com voz muito comprometida que lhe perguntava se estava a gostar do bolo. Inopinadamente e sem que a razão, o discernimento e muito menos o conhecimento tivesse alguma coisa a ver, ouviu o rapazinho numa voz sumida.
- Eu não digo nada.
Soltou um grito e os olhos esbugalhados olharam-no como se não acreditasse no que eles testemunhavam. Correu para ele e apertando-o num abraço cerrado contra o peito, mais do que falar, soluçou.
- Meu filho! Meu querido filho do meu coração.
E sem pensar nem nada conjecturar, o rapazinho de oito anos disse o que a condenaria.
- Eu também quero que seja minha mamã.

Continua.

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